Blog da Parábola Editorial

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Não é mudança linguística. É tragédia social!

Não é mudança linguística. É tragédia social! Mudança linguística ou tragédia social?

De vez em quando, faço postagens em que critico determinados usos de palavras, expressões e construções gramaticais que me parecem ou descabidas ou pedantes ou decorrentes de um domínio insuficiente da escrita mais monitorada, quando não é tudo isso junto. Invariavelmente, aparece algum comentário do tipo “mas isso não é a língua que está mudando?”; “você, que luta contra o preconceito linguístico, não está sendo preconceituoso?”; “por que criticar a mudança linguística?” e por aí vai.

Não vou dizer que pesquiso e estudo a mudança linguística há quarenta anos porque, como também já aconteceu, vão me acusar de estar dando “carteirada”... Aliás, vou dizer sim. Me irrita bastante o fato de, nas redes sociais, opinião ter virado argumento: não é preciso entender da coisa que está sendo discutida, basta um “não acho” e pronto. Quer debater? Oba! Mas traga dados, teorias e hipóteses bem fundadas, se faz favor! #prontofalei — vamos ao que interessa.

Faz milênios que as mudanças que se processam nas línguas têm sido vistas por um prisma negativo, como uma decadência, como a ruína do idioma, como uma ameaça à própria existência da língua e, numa perspectiva sempre reacionária, como sinal da derrocada moral da sociedade. Tente encontrar num sebo o livro Estão a assassinar o português! para entender do que estou falando (o título talvez já baste). Os linguistas britânicos Leslie e James Milroy rotularam essa postura ideológica de “tradição da queixa” (complaint tradition), encontrável na história de todas as línguas institucionalizadas e dotadas de patrimônio literário. O sociolinguista estadunidense William Labov, por sua vez, fala do mito da “Idade do Ouro” linguística, uma era em que supostamente todas as pessoas falavam a língua de forma correta e sem os “desmazelos” da época atual. Já tratei desse fenômeno sociocultural em vários dos meus livros (ver, por exemplo, Nada na língua é por acaso: por uma pedagogia da variação linguística [veja: https://www.parabolaeditorial.com.br/nada-na-lingua-e-por-acaso--por-uma-pedagogia-da-variacao-linguistica-19936771).

Curiosamente, venho detectando uma postura inversa — e igualmente problemática, como vou explicar adiante. É a postura de quem, tendo entrado em contato com a sociolinguística e seus postulados sobre a mudança, acha que todo e qualquer uso linguístico que vira moda deve ser analisado como um indício de que a língua está mudando — e toca a me criticar porque eu estaria criticando uma suposta mudança na língua. Nem tanto ao mar nem tanto à terra. Como sempre faço, vou dar exemplos (exemplos, e não opiniões, pelo menos por enquanto).

Volta e meia reclamo do uso que muitas e muitas pessoas fazem do verbo possuir. Qual o problema com o verbo possuir? Nenhum, ele existe na língua e pode ser usado tranquilamente. O problema é quando esse verbo aparece, literalmente, dezenas de vezes num único e mesmo texto. Deem uma olhada no verbete “Região Nordeste do Brasil” na Wikipédia (https://pt.wikipedia.org/wiki/Regi%C3%A3o_Nordeste_do_Brasil). Ali o verbo possuir aparece nada menos do que 30 (trinta!) vezes. Daria para usar pelo menos quinze outros verbos no lugar do nefando possuir. Isso não tem nadica de nada a ver com mudança linguística: é pobreza de vocabulário, domínio parco da escrita, carência de leitura, e tudo isso em grande parte devido à deplorável e esquálida educação linguística que se oferece no Brasil. A isso se junta também a ideia de que toda e qualquer produção escrita tem de ser rebuscada e deve evitar “traços da oralidade”, como se isso fosse possível. Se todo mundo usa ter a toda hora, então deve ser mais “sofisticado” escrever possuir. E toca a possuir tudo: ele possui filhos, ela possui anos, você possui nada a ver com isso...

Outro caso se dá quando, sem conhecer plenamente a norma-padrão convencional, e tentando alcançá-la a todo custo, a pessoa escorrega na hipercorreção, isto é, num uso linguístico que não corresponde nem ao padrão tradicional, nem aos usos correntes que a gente faz da língua. Lá vai exemplo de novo.

Até mesmo o meu gato Tomé sabe que o verbo haver, com sentido “existencial”, praticamente desapareceu da fala espontânea brasileira, substituído faz um tempão pelo verbo ter. No ano de 1928, há quase um século, Carlos Drummond de Andrade publicou seu poema “No meio do caminho”, em que usou o verbo ter nesse sentido: “No meio do caminho tinha uma pedra”. A publicação causou escândalo porque, pela concepção de “boa literatura” que vigorava na época, um uso “errado” como esse não tinha cabimento. Ora, se em 1928 o verbo ter como “existencial” aparece num poema, é porque ele já vinha sendo usado assim há muito tempo. Desse modo, o emprego de haver e suas formas depende da aprendizagem consciente, já que não faz parte da língua espontaneamente adquirida na família e no círculo social imediato. Não tendo aprendido bem o uso de haver, a pessoa se deixa levar por uma concepção hipercorreta de concordância verbal e escreve: “Houveram problemas na reserva do auditório”. Recebi uma mensagem com esse “houveram” de uma pessoa que ensina português brasileiro no exterior — um dado que revela a precariedade da nossa formação docente. Escrever “houveram problemas” em lugar de “houve problemas” é um exemplo clássico de hipercorreção. O mesmo vale para “tratam-se de problemas sérios” ou “são de pessoas assim que precisamos”, concordâncias verbais hipercorretas, ou seja, hiperincorretas. (Para mais exemplos de hipercorreção, e como fugir dela, você pode baixar gratuitamente meu manualzinho Falsas elegâncias aqui: https://www.dropbox.com/s/13zwap32nh3ic9e/Falsas_elegancias.epub?dl=0). Esse uso de “houveram” não é mudança linguística: é falta de traquejo na lida com a escrita, o que não é um problema exclusivamente individual, mas sobretudo social.

Recentemente, postei a foto de uma chamada jornalística que dizia assim: “Longas filas por um táxi na Itália são um sintoma de o porquê a economia do país não decola”. Isso para mim é nada menos do que um monstrengo, uma avantesma. De novo, por causa de uma educação linguística andrajosa, as pessoas têm dificuldade na hora de escrever por que, porque, porquê. Uma boa aula sobre isso com exercícios bem elaborados seria suficiente para que alguém aprendesse os usos corretos. Mas podemos esperar esse tipo de aula de professoras e professores com escasso domínio da leitura e da escrita (conforme têm mostrado inúmeras pesquisas), com formação ruim e péssimas condições de trabalho e que têm a mesma dificuldade nesse ponto? Ocorre cada vez mais o uso indiscriminado de o porquê quando um simples por que bastaria: “Longas filas por um táxi na Itália são um sintoma de por que a economia do país não decola” — simples assim. Esse uso de o porquê na chamada da reportagem não é mudança linguística: é, de novo, um sintoma de um problema social largo e fundo.

Também critico os decalques de construções provenientes do inglês como “endereçar um problema”, “não poderia concordar mais”, “ao redor do mundo” e outras que já chamei (e continuo chamando) de traduções capengas (https://www.parabolablog.com.br/index.php/blogs/a-traducao-capenga-e-o-imperialismo-linguistico). Eu sei (sim, eu sei porque estudo isso há décadas, perdoe-se-me a carteirada) que, ao longo da história de praticamente todas as línguas, palavras e locuções de outras línguas foram importadas e incorporadas ao léxico do idioma. Mas quando essa importação é mero esnobismo (permita-se-me uma opinião), quando a pessoa sabe perfeitamente ser possível dizer “enfrentar um problema”, “concordar plenamente” e “mundo afora”... não se trata de mudança linguística, mas, repito, de puro esnobismo ou preguiça de procurar ver como se diz a coisa em português. Pode ser que daqui a algumas décadas essas tralhas já tenham sido plenamente incorporadas à língua, mas por ora só servem para mostrar a fatuidade, a presunção e a prosápia de quem fala assim. Também há o caso de pura e simplória ignorância: sem nunca ter sabido o que significa eventualmente em português, a mesma pessoa fátua e presunçosa diz e escreve que “após longa doença, ele eventualmente morreu”, como se isso fizesse algum sentido. Faz pouco tempo, desisti de ler um livro de um cientista brasileiro famoso porque, a cada página, apareciam três ou quatro “eventualmente” com o sentido que tem eventually em inglês (“finalmente; mais cedo ou mais tarde”). Também deixei de lado outro livro em que o autor usava o tempo todo cândido com o sentido de “sincero; franco”, sentidos que candid tem em inglês. Só porque a pessoa estudou nos Estados Unidos ou na Inglaterra a gente não tem nenhuma obrigação de tentar adivinhar o que ela quer dizer com esses decalques. Mais uma vez: “endereçar um problema” não é mudança linguística!

A mudança linguística é um fenômeno de outra ordem, um fenômeno extremamente complexo. Vai aqui mais uma sugestão de leitura: Mudança linguística, de Joan Bybee, traduzido por este vosso criado (www.livrariavozes.com.br/mudancalinguistica8532663869/p). Mudança linguística é, por exemplo, o emprego cada vez mais reduzido, na fala espontânea, de nós e o correspondente uso cada vez mais amplo de a gente. Com isso, nós se tornou um pronome de registro mais formal, menos frequente em situações de uso espontâneo da língua. Acompanho diversos canais jornalísticos na internet e verifico que o uso de a gente é quase categórico, beirando aí os 90%. Outra mudança já bem firmada é o emprego generalizado de você para exprimir a indeterminação do sujeito. Onde se dizia “tá muito difícil encontrar vaga nessa rua”, o que se ouve é “tá muito difícil você encontrar vaga nessa rua”. Até em expressões marcadamente impessoais o você aparece: “Em Brasília você tem cada vez mais gente morando na rua”. Em dada fase da língua, o infinitivo bastava: “Aqui é um lugar bom pra morar”. Um passo adiante foi o uso de se como sujeito: “Aqui é um lugar bom pra se morar”. Agora é a vez de você: “Aqui é um lugar bom pra você morar”, em que você não é a pessoa com quem eu falo, mas toda e qualquer pessoa viva no planeta. Por que isso acontece? Porque o português brasileiro, devido às mudanças ocorridas na morfossintaxe dos verbos, está se tornando, a passos rápidos, uma língua em que todo verbo, mesmo um infinitivo, tem de vir acompanhado de seu pronome-sujeito, ao contrário do que se passa em outras línguas românicas como o português europeu, o espanhol, o catalão e o italiano, e semelhante ao que se passa em francês. Isso, sim, é uma mudança linguística. (Se quiser ler um artigo meu sobre isso, usando a Mafalda de Quino como material de análise, aqui vai: https://periodicos.sbu.unicamp.br/ojs/index.php/tla/article/view/8651780.)

Os usos linguísticos que eu frequentemente critico não têm nada a ver, repito, com mudança linguística. São sintomas, também repito, de uma educação linguística indigente, que produz analfabetos funcionais aos milhões, educação indigente que combina com a indigência em que vivem dezenas de milhões de pessoas mergulhadas na fome ou na insegurança alimentar, com as desigualdades econômicas mais perversas do mundo, com o racismo enraizado em cada milímetro do espaço social, entre outras e muitas mazelas que fazem do Brasil um país estruturado na mais firme e sólida violência.

 

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