Blog da Parábola Editorial

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Ortografia, história e ensino

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Digamos que você é professor·a de português e uma aluna curiosa e inteligente resolva perguntar: “Por que  em casa, cola e cubo o c tem som de [k], mas em ceia e cinto tem som de [s]? Por que escrevemos cinto com c e sinto com s? Não seria mais lógico escrever tudo com s?”. Como você responderia?

Muito do que ensinamos e aprendemos sobre língua na escola se faz na base do “tal coisa é assim e pronto” — explicar que é bom, quase nunca. São fórmulas do tipo: “Diante de e e i, o c tem som de s”. Sim, mas por quê? Por que sinto se escreve com s e cinto se escreve com c? Qual a razão para termos cessão, seção e sessão, se bastaria escrever tudo como sessão? Para que tantas letras e dígrafos diferentes para representar o mesmo som [s]: céu, cinto, aço, isso, só, próximo, nascer, exceto…?

Em praticamente todos os cursos de Letras, temos de fazer um ou dois semestres obrigatórios de latim sem que isso tenha qualquer serventia no que diz respeito à formação docente: decorar as declinações e traduzir fábulas de Fedro pouco contribuem para que a pessoa se conscientize das etapas de formação da língua e, com essa consciência, entenda por que as pessoas têm dificuldades específicas (e previsíveis) no aprendizado da escrita. As aulas de latim deveriam servir para a gente entender as razões e as consequências das mudanças ocorridas ao longo do tempo, seja na fonética, na morfossintaxe ou na semântica, mas isso quase nunca acontece. E o pior é que a justificativa para estudar latim no curso de Letras é que isso nos daria uma base para conhecer… a história do português.

O mesmo vale para as aulas de fonética-fonologia. Talvez por causa da obsessão sincrônica do estruturalismo, ou seja, a concentração exclusiva na língua do aqui-agora, as mudanças ocorridas nos sistemas sonoros das línguas ao longo do tempo não fazem parte do programa da disciplina. Também é preciso lembrar que a maioria das·os estudantes acham o estudo da fonética e da fonologia “chato”, “árido”, quando não “inútil” e outras bobagens do tipo. Ora, o estudo dos sons da língua poderia (pode) auxiliar muitíssimo na hora da gente refletir sobre os equívocos que cometem as crianças e demais pessoas em fase de aquisição da escrita. Mais: a fonética histórica nos ajuda a entender os processos de mudança que estão ocorrendo no aqui-agora, em tempo real, de modo que é fácil entender e explicar um suposto “erro” (escrevi sobre isso faz pouco tempo: https://abrir.link/GQxRH). Com isso, aquela besteira de “esse erro dói no ouvido” se revela o que é: uma besteira, e uma besteira que quem ensina língua não tem o direito de repetir.

Já escrevi sobre a situação dos cursos de Letras no Brasil (https://abrir.link/vqszj), de modo que não vou me repetir aqui. Sobre a confusão entre ortografia e língua, veja aqui: https://abrir.link/PUyBA.

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Os escritores e a gramática

Escritores

(Este é um texto de 2008, que republico por várias razões; uma é homenagear a argúcia de Mattoso Camara; outra é ir na onda de valorizar Machado; ainda outra é… outra).

 

Por razões que certamente valeria a pena discutir melhor, ou discutir de novo, as gramáticas citam sempre (e apenas) frases de escritores em abonação às regras que propõem, mesmo que se trate de uma simples concordância de verbo com sujeito. Em vez de “o pato nada / os patos nadam” ou “o juro cai / os juros não caem”, declarações que não precisam de autor, temos de ler que “A chuva caía...” é da lavra de Luandino Vieira. “Sou eu que lhe peço” não é boa porque todo mundo diz, mas porque foi escrita por Castro Soromenho. Por exemplo, apesar de “Tinha uma pedra no meio do caminho” ser um verso bem antigo, o verbo “ter” ainda não mereceu aval das gramáticas nesse sentido e uso.

(Um comentário quase à parte: escritores raramente leem gramáticos; posso ser muito distraído, mas nunca vi informações sobre as gramáticas encontradas nas bibliotecas de escritores; mas eles sempre têm muitos dicionários; parece mesmo que o grande fetiche são as palavras. Já os gramáticos leem escritores, mas não muitos. Ilustrativo é o ensaio de Cláudio Cézar Henriques, “Quando os gramáticos leem os literatos”, publicado na revista Tempo Brasileiro 124, de 1996!! Eles selecionam bem o que citam. Henriques fornece os percentuais de exemplos selecionados de cada um dos poucos, bem poucos escritores.)

Uma das diferenças entre linguistas e gramáticos é o tipo de corpus considerado. Perini (Princípios de linguística descritiva, Parábola, 2006), entre outros, parte de exemplos caseiros (“Papai chegou a São Paulo”, “Os caixotes estão no porão”), enquanto Celso Cunha e Lindley Cintra (mas não só eles) parecem precisar do abono de um falante superior, que o escritor supostamente seria. A coisa funciona assim: se Fernando Pessoa escreveu “Se calhar, tudo é símbolos”, então eu também posso (posso?).

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O certo, o errado, a ciência e a má-fé

blogBagn_20240518-132716_1 “Por que os especialistas defendem os erros linguísticos?”

A ideia de que existe certo e errado na língua está enraizada no genoma da cultura dita ocidental. A disciplina que hoje chamamos gramática (ou gramática tradicional, como é costume chamá-la nos estudos linguísticos) se sistematizou em meados do século 4 antes da nossa era, graças ao trabalho dos eruditos de língua grega que trabalharam na célebre Biblioteca de Alexandria, no Egito. São, portanto, uns 2.500 anos de história, e eu brinco dizendo que a gramática é uma “religião” mais antiga que o cristianismo, o que faz as pessoas considerarem os compêndios gramaticais como livros quase sagrados, merecedores de toda reverência, e seus autores como uma casta de sacerdotes de uma seita esotérica.

O intuito dos gramáticos alexandrinos (chamados filólogos, ‘amigos da palavra’ ou ‘amantes do conhecimento’) era fixar uma norma para a língua grega, que tinha se tornado o veículo geral de comunicação entre muitos povos de línguas diferentes, numa vasta área que incluía a Grécia, a Turquia atual, todo o Oriente Médio e o Egito. Fixar uma norma significa, inescapavelmente, fazer escolhas, e fazer escolhas significa, inevitavelmente, descartar tudo o que sobra depois de feita a seleção. O que a norma seleciona então passa a ser o certo, o correto, o aceitável, enquanto o que não entra na norma é o anormal, o equívoco, o que deve ser evitado. A palavra latina norma designava o esquadro, o instrumento de aferição usado pelo carpinteiro. Não por acaso dizemos que uma coisa está “fora de esquadro” quando não corresponde ao que se esperaria que fosse.

Mas eis que chega o século 19, um século importantíssimo sob todos os aspectos no que diz respeito às grandes transformações ocorridas na história europeia. Os progressos tecnológicos se multiplicaram em ritmo nunca antes conhecido, a partir da chamada Revolução Industrial, e muitas das áreas de conhecimento que hoje rotulamos de ciências se estabeleceram naquele período ou adotaram princípios e métodos rigorosos, em contraposição com o que se fazia anteriormente nelas. É nesse século 19 que nasce a linguística dita “científica”.

Tal como as demais ciências modernas, a linguística se sistematizou como uma disciplina descritiva-explicativa, interessada em observar, descrever e interpretar todo e qualquer fenômeno da linguagem humana, e não apenas aqueles secularmente tidos por “bons” ou “corretos” em línguas específicas. Essa mudança de perspectiva foi bastante radical com relação ao que se fazia até então quando o assunto era língua. Em vez de descartar os chamados “erros”, o pesquisador via (e vê) neles um material precioso para estudar o fenômeno que mais ocupou os linguistas do século 19: a mudança linguística, a história das línguas, desde o seu passado mais remoto até os dias atuais. Desse modo, para entender por que o latim genuculu- se transformou no português joelho ou por que o latim avicellu- se transformou no francês oiseau (‘pássaro’), não fazia (não faz) sentido dizer que foi porque os povos que vieram a ser chamados de português e francês falavam latim “errado”, “assassinavam” o latim ou “arruinavam” a bela língua de Cícero, Virgílio e Horácio. A observação atenta e a formulação teórica adequada mostraram que todo e qualquer suposto “erro” tem sua razão de ser, tem uma explicação plausível, pode ser agrupado em conjuntos semelhantes de fatores, o que comprova que existe uma regularidade (e até uma previsibilidade) nas mudanças linguísticas, regularidade constatada na comparação entre línguas das mais diferentes famílias e tipos ao longo do tempo.

No caso das mudanças fonéticas, ou seja, ocorridas nos sons das línguas, por exemplo, a explicação está num fato banal: todos os seres humanos dispomos dos mesmos dispositivos físicos que nos permitem emitir sons — lábios, língua, boca, dentes, nariz, palato, laringe, faringe, pulmões… —, de modo que as regularidades das mudanças fonéticas se verificam mundo afora, em línguas sem nenhum parentesco entre si. Assim, em incontáveis línguas do mundo, a presença de uma vogal [i] depois de [d] e [t] levou e leva à palatalização dessas consoantes, como na maioria das variedades do português brasileiro em que dia e tia se pronunciam como “djia” e “tchia”, ou como no inglês antigo kirk que se transformou em church (‘igreja’), ou ainda na passagem do latim diurnu- a giorno (‘dia’) em italiano, com um gi- que se pronuncia “dji”. De igual modo, as sílabas ke- e ki-, por causa do caráter palatal das vogais [e] e [i], tendem a se transformar em tse/tsi, em tche/tchi, em se/si ou na interdental que se escreve th em inglês (como em think). Por isso é que, em português (e outras línguas), temos um som [k] em casa, comida, cura, mas [s] em cena e cinema — o uso da letra c nesses casos é mera servidão etimológica, e na fase mais antiga da língua ce- e ci- se pronunciavam [tse] e [tsi].

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Uma perca de tempo

blog Conhecer a história da língua nos permite olhar de forma diferente para o que muita gente considera “erro”.

As cantigas de amor, de amigo, de escárnio e maldizer são uma fonte riquíssima para o estudo da história da língua que hoje falamos (e que, é sempre bom lembrar, só passou a se chamar português lá pelos idos de 1450 — se você já ouviu falar de uma língua chamada galego-português, sinto informar que ela nunca existiu, mas isso é para outro dia). Nesses gêneros poético-musicais produzidos há mais de setecentos anos, ocorrem certas fórmulas que se repetem com frequência na pena de mais de um autor. Uma dessas fórmulas, presente em diversas cantigas de amigo, é “eu perço meu sem”, em que sem significa “senso, juízo, razão”. A mulher, distante do amigo, se vê muito coitada (sofrendo coita, isto é, aflição, desgosto) e quase perde a razão. Mas o que me interessa aqui não é o sem, é o perço. De onde é que vem essa cedilha em perço? Na perspectiva histórica, a pergunta tem de ser outra: por que perço perdeu sua cedilha e hoje dizemos [eu] perco? Se a forma perço é mais antiga, o que aconteceu no caminho?

Em latim, a primeira pessoa do presente do indicativo do verbo perdĕre era perdo, mas tudo leva a crer que, no noroeste da Península Ibérica, esse perdo se transformou em *perdio, origem de perço, porque os grupos latinos -dio e -tio se transformaram regularmente em -ço (audio > ouço; petio > peço). A forma [eu] perço, portanto, se explica facilmente pelas regularidades das mudanças fonéticas, de modo que [eu] perco é que é o “corpo estranho” nessa história. Como é que se pode explicar então a passagem perço > perco?

Palavras antônimas costumam vir emparelhadas em diversas fórmulas habituais na língua, de modo que os pares ir e voltar, dar e receber, nascer e morrer, amar e odiar etc. ocorrem com muita frequência. No caso de perder, um de seus antônimos, sobretudo em contextos bélicos, é vencer: um exército pode perder ou vencer uma batalha, por exemplo. Hoje em dia é mais comum opormos perder a ganhar, mas na língua medieval ganhar ainda não tinha adquirido o sentido que hoje tem de “obter vitória sobre algo ou alguém”, que é uma extensão metafórica de “receber, adquirir, conquistar”. Pois bem, o latim vinco se transformou, de forma previsível, em venco, de modo que a conjugação do verbo era eu venco, tu vences, ele vence, nós vencemos etc. É essa forma venco que “contaminou” a forma perço, transformando-a em perco: “Eu perco esta batalha, mas venco a guerra”.

Agora vem outra pergunta, bastante lógica: como é que venco, por sua vez, se transformou em venço? Muito simples: por analogia com o resto da conjugação: vences, vence, vencemos etc. Depois de ter colaborado para transformar perço em perco, nosso amigo venco resolveu se adequar melhor à própria família e adotou, vejam só, um ç... O que era perço virou perco, o que era venco virou venço.

A forma eu perco surgiu, portanto, de um “erro” cometido pelas pessoas que fizeram a associação analógica com venco, e é bem provável que a geração mais antiga que dizia perço tenha torcido o nariz para o perco, usado pela juventude, sempre acusada de “arruinar” a língua. O mesmo vale para venco que, sofrendo a concorrência de venço, acabou sendo abandonado pelas gerações mais novas, que levaram adiante a forma “errada” até fazer dela a única “certa”.

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'Você' e 'eu' não somos pronomes

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A história de qualquer área de conhecimento é a história de como seus termos e conceitos mudaram ao longo do tempo e continuam a mudar. Em livros das mais variadas ciências, encontramos com frequência afirmações do tipo: “Durante muito tempo se acreditou que X, mas essa tese já foi abandonada desde que Y comprovou que Z…”. Ou do tipo: “O termo P foi usado durante muito tempo para definir Q, mas atualmente o termo mais empregado é R”. Um exemplo conhecido é o dos termos que designam as partes do corpo humano. No final da década de 1990, vários desses termos da anatomia receberam uma reformulação: o sistema digestivo passou a ser aparelho digestivo; a trompa de Eustáquio passou a se chamar trompa auditiva; o ouvido — para surpresa de muita gente — agora é uma das partes da orelha; as conhecidas amígdalas (que arrancaram de mim quando criança) agora são tonsilas palatinas; a rótula se chama agora patela.

O que tem isso a ver com o título deste texto: “Eu e você não somos pronomes”? Tem muito a ver. Corre pelas redes digitais um meme (reproduzido aqui), em que um homem, na ilusão de ser amado, pergunta a uma mulher: “Você e eu somos o quê?”, ao que ela responde: “Pronomes”, para decepção do mancebo. Já vi esse mesmo meme em outras línguas, com a mesma ilustração e a mesma resposta. Tentei convencer algumas pessoas de que você (ou tu, dá no mesmo) e eu não são pronomes, mas em vão. A doutrina gramatical tradicional — com seus conceitos e termos — está de tal modo implantada no ADN da cultura linguística ocidental que é dificílimo fazer as pessoas aceitarem mudanças nela. (Eu aprendi que o ácido desoxirribonucleico se chama ADN, porque afinal a gente fala português, mas isso foi no milênio passado, quando o parasitismo linguístico do inglês não estava ainda no nível em que está hoje.)

Para entender por que designar eu e você (e seus plurais) como pronomes é inadequado, precisamos recorrer a dois termos de origem grega: dêixis e anáfora. A dêixis é a propriedade que os elementos linguísticos têm de apontar para a realidade empírica. Quando digo “Leva essa mesa pra ”, o advérbio tem propriedade dêitica: esse só pode ser compreendido dentro do contexto de interação da fala, num momento e lugar precisos. A anáfora, por sua vez, permite a retomada, por um elemento linguístico, de algo que foi dito antes, na fala ou na escrita: “Morei muitos anos no Recife, foi que aprendi a gostar de tapioca”. Agora, o advérbio não aponta para nada na realidade empírica, ele retoma a expressão no Recife, faz referência a algo dito antes. A dêixis aponta para algo que está no contexto, enquanto a anáfora retoma algo que foi enunciado anteriormente no texto.

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Não é mudança linguística. É tragédia social!

Não é mudança linguística. É tragédia social! Mudança linguística ou tragédia social?

De vez em quando, faço postagens em que critico determinados usos de palavras, expressões e construções gramaticais que me parecem ou descabidas ou pedantes ou decorrentes de um domínio insuficiente da escrita mais monitorada, quando não é tudo isso junto. Invariavelmente, aparece algum comentário do tipo “mas isso não é a língua que está mudando?”; “você, que luta contra o preconceito linguístico, não está sendo preconceituoso?”; “por que criticar a mudança linguística?” e por aí vai.

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Existe lógica na língua?

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Dia desses, publiquei uma postagem em que me queixava das pessoas que fazem legendas para filmes e seriados por tentarem evitar a tal “mistura de pronomes” — uma falácia total —– e escreverem coisas como “eu só queria ajudá-lo!” quando é um irmão falando para outro num momento de raiva. Escrevi que o mais natural e autêntico seria “eu só queria te ajudar!”. Eis senão quando uma pessoa argumentou nos comentários: “Pois parece a concordância mais lógica: tu-te, você-o...” Vamos deixar passar a “concordância” (porque não tem nada de “concordância” nesse caso, é correlação pronominal) para nos concentrarmos em lógica. Faz muitos séculos que se enraizou na cultura ocidental a ideia de que existe uma “lógica” na língua e que, por isso, é preciso submeter a língua a essa suposta lógica. A consequência dessa ideia é que, segundo ela, qualquer desvio com relação a essa lógica constitui um erro no uso da língua, língua que deveria ser como um relógio que nunca se atrasa (e na própria etimologia da palavra relógio — o grego horo·logion — está bem escondida a lógica, a “lógica das horas”).

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Se você dá aulas de português...

Se você dá aulas de português... “corrigir” sem humilhar

Se você dá aulas de português, diante de um dado que todos consideram “errado”, pode escolher entre diversas abordagens. Uma é humilhar o aluno dizendo que ele não sabe nem falar. Outra é manter uma lista de CERTO X ERRADO e acrescentar o erro (digamos, MENAS) ao lado do CERTO (MENOS). É uma atitude dogmática. Outra é “corrigir” sem humilhar, dizendo que muita gente fala assim, mas que, na escrita e em certas outras ocasiões, é melhor dizer / escrever MENOS (e dar as razões). Outra, ainda, é ter um espírito de pesquisa e observar (mandar os alunos observar) quem diz MENAS e em que contexto. Vão concluir que MENAS sempre ocorre diante de nome feminino, o que motiva a concordância. Ainda outra, na continuação, é (tentar) verificar se alguém tratou da questão. Uma saída é ver um dicionário, digamos, o HOUAISS (aqueles dicionários escolares (que eliminam tudo o que é heterogêneo) não servem pra isso... na verdade, servem pra pouca coisa). No HOUAISS, você encontra “a) como adv. quantitativo, é antônimo funcional de mais e, por isso, invariável; b) no Brasil, na linguagem coloquial desescolarizada, ocorre a forma deturpada menas (pron.indef.), em concordância de gênero com o substantivo que se segue (menas confiança comigo, hein?)". Relevem-se os termos um tanto preconceituosos...

Em relação ao que disse acima sobre ensino, vale acrescentar que muita coisa depende dos materiais que um professor consulta, os ditos instrumentos linguísticos. Pela ordem de relevância, citaria estudos de língua viva (com suas variantes). Em segundo lugar, projetos quase gramaticais, obras que tentam mostrar que o padrão, a norma etc. são menos rígidos do que se pensa. Obras como Não é errado falar assim (Bagno) e Gramática do português brasileiro escrito (Faraco e Vieira) são amostras. Mas as gramáticas tradicionais também são mais liberais do que se supõe (“aceitam” variantes de regência e de concordância, por exemplo). Mas quem as estuda? Os dicionários são ainda mais liberais do que as gramáticas, pois registram tudo (vejam as regências de “namorar” nos bons dicionários, por exemplo). Abaixo vêm os livros didáticos e/ou gramáticas que derivam deles — que resumem as verdadeiras. Finalmente, os mais conservadores são os manuais (de redação de jornais e de revistas e outros), que resumem as gramáticas e olham dicionários pela metade. Infelizmente, muitos concursos são elaborados por empresas, e as normas seguidas são mais as que constam em manuais e apostilas do que as que mesmo gramáticos e dicionaristas abonam. Em consequência, as alternativas dadas como corretas obedecem a um consenso generalizado, materializado em apostilas e manuais de redação (e de revisão). Não significa que haja conluio. Significa que a visão dominante é muito uniforme. O acordo é tácito.

 

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AS LÍNGUAS E OS NOMES DAS LÍNGUAS

banner_linguas_indigenas a própria ideia do que seja uma língua [...] é um construto cultural ocidental

Herdeiras que somos da assim chamada cultura ocidental (que é, no fundo, a cultura branca europeia de matriz judaico-cristã, forjada essencialmente por homens), temos sido habituadas a acreditar que existem entidades bem delimitadas designadas como línguas, coisas quase concretas, ou mesmo seres com vida própria (ideia cristalizada em frases como “a língua é um organismo vivo” ou em conceitos como “língua morta”). Por isso é tão difícil convencer a maioria das pessoas de que essa noção de língua nada tem de “natural”, porque é um produto intrinsecamente sociocultural e sociopolítico.

Na mesma visão de mundo de matriz europeia, o nome das línguas é sempre a substantivação de um adjetivo vinculado a um território, que pode ser o de um Estado soberano, independente (português, alemão, russo, estoniano, húngaro...) — o que confere à língua um status privilegiado, oficial —, ou ao de uma região dentro de um desses Estados (mirandês, galego, bretão, napolitano, lusácio...) — o que deixa as pessoas que as falam sempre em desvantagem sociopolítica, caso não dominem também a língua oficial. Só me ocorre um caso europeu em que não há esse vínculo território-língua: é o do romanche, falado (por bem pouca gente) na Suíça (numa região chamada Grisões), nome que deriva do latim romanice, isto é, “[falar] à moda de Roma”. Do outro lado da fronteira, no norte da Itália, fala-se o ladino (termo derivado de latino), aparentada ao romanche. Curiosamente, o romanche é a única língua propriamente “suíça”, já que as outras oficializadas no país têm nomes “estrangeiros”: francês, alemão e italiano.

No entanto, do ponto de vista histórico, esse vínculo entre língua e Estado — que, por causa daquele hábito cultural impregnado, nos parece evidente e com uma origem perdida nas brumas do tempo — é um construto sociopolítico relativamente recente, mal tem quinhentos anos. Se recuarmos até o século 5 da Era Comum, chegamos à época do desmantelamento do Império Romano do Ocidente, com a penetração de ondas migratórias de populações vindas de fora dos limites do império (as chamadas “invasões bárbaras”, como se as “conquistas” feitas pelos romanos para a constituição de seu império não tivessem sido também invasões!). A unidade imperial foi substituída por diversos reinos menores, cujas classes dirigentes provinham daquelas populações: godos, suevos, alamânicos, vândalos, francos etc. Com o passar do tempo, essas classes dirigentes adotaram a variedade de latim falada em suas terras, assim como adotaram o cristianismo. Onde o latim nunca tinha sido imposto, as populações dos reinos que se formaram mantiveram suas línguas próprias (caso da Alemanha, da Grã-Bretanha, da Hungria etc.), mas, por também terem adotado o cristianismo, o latim, língua oficial da igreja, se tornou ali a língua de cultura da elite, da justiça e do governo, tanto quanto nas antigas terras imperiais. E assim se passaram mil anos, um longo período que recebe o nome de Idade Média.

Na primeira fase da Idade Média, os reis atuavam como “administradores” de terras, os feudos, bem mais do que como governantes detentores de todo o poder — ao contrário, alguns senhores feudais eram mesmo mais ricos e poderosos que os reis. Naquele período, nem passava pela cabeça das pessoas a ideia de dar nomes a seus modos de falar. Somente o latim recebia o título de língua, e seu conhecimento estava restrito aos homens da igreja e a um punhado de letrados, numa época em que havia até reis analfabetos. As pessoas comuns, especialmente nas áreas onde o latim vinha passando por mudanças graduais, reconheciam uma origem compartilhada em seus modos de falar e praticavam espontaneamente o que chamamos de intercompreensão, ou seja, não viam (nem criavam) dificuldades em se fazer compreender e em compreender as outras, já que não existia o obstáculo simbólico das fronteiras estatais nem, muito menos, das línguas institucionalizadas. As variedades românicas constituíam um continuum dialetal, em que não se podia definir com precisão onde uma terminava e começava outra. Além disso, como a mobilidade da maioria era muito reduzida, as comunicações orais se faziam bem mais entre terras e aldeias próximas, cujas falas eram bastante semelhantes. Em contraposição ao latim, única língua digna do nome, essa pluralidade de falas recebeu mais adiante o nome genérico de romances (o que comprova a consciência que se tinha de serem continuações do latim) ou vulgares (isto é, “do povo”). Em Portugal, a língua da população era chamada linguagem ou nossa linguagem. A variação era considerada absolutamente normal, ao contrário de hoje, em que a variação é vista como “erro”, e a norma (artificialmente estabelecida), vista como a única forma “certa” de uso da língua.

O tempo foi passando e a situação política, econômica, social da Europa foi se transformando até começar a chamada Era Moderna. Foi sobretudo a partir do século 15, com a decadência do sistema feudal e o início do mercantilismo, que começou a se fortalecer o vínculo entre língua e território, território unificado e centralizado em torno da figura do rei (ou, em alguns poucos casos, da rainha), agora, sim, detentor do poder político. A tomada de Constantinopla pelos turcos (1453) e o consequente bloqueio das rotas que permitiam as trocas comerciais entre a Europa e o Oriente simbolizam o início da chamada era dos “descobrimentos” (mais um eufemismo para designar invasões, pilhagens, escravização e genocídios), quando Portugal, Espanha, França, Inglaterra e Holanda, a pretexto de encontrar o chamado “caminho para as Índias”, acabaram se apoderando de imensas extensões de terras mundo afora, iniciando o longuíssimo período colonial moderno — a primeira “conquista” de Portugal foi a cidade de Ceuta, no atual Marrocos, em 1415, enquanto a independência das colônias africanas e de Timor se deu em 1975, ou seja, 560 anos entre uma data e outra, com o “achamento” e a independência do Brasil de entremeio.

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Por que — e para quê — 'Uma história da linguística'?

Uma história da linguística, tomo 1 Uma história da linguística, tomo 2

O linguista romeno Eugeniu Coșeriu (1921-2002) escreveu, num artigo publicado em 1967:

A história da linguística teórica é uma história bem estranha: é muito frequentemente uma história sem continuidade, que só conhece seu passado recente e que ignora seu passado mais distante. Mesmo as teorias mais ou menos conhecidas e discutidas são, com frequência, desconhecidas em suas conexões históricas.

E cita explicitamente o caso de Ferdinand de Saussure (1857-1913), geralmente apresentado nos livros introdutórios à linguística e nos cursos universitários como um pensador em tudo original, que teria formulado uma série de conceitos até então inéditos. Um desses supostos ineditismos seria a definição do signo linguístico como uma entidade essencialmente arbitrária e também binária, por ser a combinação de um conceito (o significado) e de uma imagem acústica (o significante). Desse modo, por exemplo, o conceito {árvore}, que todo ser humano tem em seu arquivo mental, cria, na mente, uma imagem acústica que se exprime vocalmente como tree, para os falantes de inglês; Baum, para os de alemão; mbïra, para os de tupi; dérevo, para os de russo; zuhait, para os de basco etc. O conceito é o mesmo para todas as pessoas (uma ideia problemática, mas não vamos tratar disso aqui), mas ele se expressa de modo diferente em cada língua, o que comprova a arbitrariedade dos signos linguístico (ou seja, em última instância, das palavras).

Para começar a clarear as coisas, vamos ler a seguinte declaração:

Na língua, porém, os agentes fundamentais são seres inteligentes, o material não é apenas o som articulado — que poderia, em certo sentido, ser considerado um produto físico —, mas o som que se torna o significante do pensamento.

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Quatro perguntas e um pedido ao ChatGPT

banner-chatgpt IA, quem é você?

 

Usuário: O que é a inteligência artificial?

ChatGPT

Inteligência Artificial (IA) refere-se à capacidade de uma máquina ou sistema de computador imitar a inteligência humana para realizar tarefas que normalmente requerem inteligência humana. Isso envolve a criação de algoritmos e programas que permitem que as máquinas processem informações, aprendam com essas informações e tomem decisões com base nesse aprendizado.

A IA abrange uma ampla gama de técnicas e abordagens, incluindo aprendizado de máquina, redes neurais artificiais, processamento de linguagem natural, visão computacional, raciocínio automatizado e muito mais. Algumas das capacidades associadas à IA incluem reconhecimento de padrões, resolução de problemas, tomada de decisões, aprendizado autônomo e interação com humanos.

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Nossa língua e outras encrencas crônicas

Encrencas-Crnicas ... onde os gramáticos convencionais, com todas as suas limitações, reconheciam «falares», você identifica «línguas portuguesas»

 

 

Olá, Ana Elisa

 

Acabei há dias de ler o seu livro de crónicas Nossa Língua & outras Encrencas.

 

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Uma história da linguística, tomo 1

Bagno-BLOG

Uma história da linguística: tomo 1da Antiguidade ao Iluminismo é a primeira obra escrita em português que se propõe retraçar o longo caminho que os seres humanos têm percorrido desde os tempos mais remotos e em diferentes civilizações na busca por decifrar essa faculdade exclusiva da espécie que é a linguagem e sua manifestação, entre outras formas, no que se convencionou chamar língua, essa entidade tão entranhada em nós e ao mesmo tempo tão fugidia que escapa a qualquer definição satisfatória. Este primeiro volume parte da Mesopotâmia, onde se constituíram as primeiras sociedades urbanizadas da história, aborda as reflexões linguísticas empreendidas nas tradições hindu, islâmica e judaica para em seguida se fixar na Europa e nos desdobramentos das teses sobre a língua/linguagem desde a Antiguidade greco-romana até os séculos 17 e 18, depois de passar pela Idade Média e pelo Renascimento. Um segundo volume se dedicará inteiramente ao século 19 até alcançar as duas primeiras décadas do século 20, período em que a linguística vai se constituindo como disciplina autônoma, dotada de teorias e metodologias próprias, capazes de conferir a ela o ambicionado rótulo de ciência.

Pode-se dizer que as reflexões sobre língua e linguagem na tradição ocidental derivam essencialmente das tentativas de dar conta de três principais “problemas”:

(1) a origem (e a natureza) da linguagem e das línguas;

(2) a relação entre linguagem e pensamento;

(3) a mudança linguística.

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Uma história da linguística

Capturar2 'Uma história da linguística' é uma obra em dois tomos.
"UMA NÃO-RESENHA" [S. Possenti]
 
Ninguém falou aqui na minha bolha de 'Uma história da linguística, tomo 1: da Antiguidade ao Iluminismo', de Marcos Bagno, embora tenha sido possível ver a foto da capa do livro na mão de algumas pessoas e declarações (uma, acho) de que o livro estava sendo lido.
Vou dar aqui umas impressões (até porque desvendei o suspense que o editor da Parábola criou alguns dias antes do lançamento, quando eu “afirmei” que se tratava de um livro do Bagno).
A primeira e melhor impressão, dentre diversas: a escrita do autor:
Bagno, sem dúvida, encontrou um tom e um estilo exemplares; pode ser lido com prazer por leigos (o que não quer dizer ignorantes) mesmo quando apresenta análises de dados, que, em geral, é quando a cobra fuma, e por profissionais, claro, que podem contrastar o que estão lendo com o que leem normalmente (quando prestam atenção à materialidade da língua, o que nem sempre é o caso).
A segunda impressão muito positiva é o destaque do autor às doutrinas filosóficas que informam as teorias gramaticais (alguns diriam que derivam delas, talvez). Por exemplo, mostra que (e onde) as concepções platônica e aristotélica (para simplificar) duram até hoje, manifestando-se de diversas maneiras, em especial nas teorias mais dedutivas ou indutivas (pretensamente indutivas, diria Popper), mais racionalistas ou mais empiristas. Acho que os currículos de letras e de linguística não prestam atenção a esses “detalhes”, o que faz com que seguidores de cada uma das vertentes pensem talvez que suas teorias foram inventadas anteontem e se devem a alguma (ou a UMA) psicologia recente
O Bagno historiador destaca fatos sociais e históricos relevantes, tais como a gramatização de línguas “exóticas” o que essa gramatização mostra que não são (embora isso não seja tão destacado nessa obra), a relevância da escrita nos avanços das análises, a criação politicamente enviesada e diferenciada - vide italiano e francês – das línguas nacionais. São temas que não aparecem em outras histórias, arrisco a dizer, embora conheça poucas.
Abre espaço à “linguística” oriental, com destaque para a indiana (todos ouviram falar de Panini, acho, mas nada mais que isso). Não sei avaliar direito, mas parece que o livro faz o que a linguística fez: depois de apresentada, essa linguística desaparece, o que deve significar que não influenciou “nossa” linguística.
Uma das estratégias do livro é apresentar as grandes teorias em disputa em certas épocas, esboçadas por filósofos, como Locke, Leibniz e Condillac, por exemplo, e depois apresentar, mesmo que sumariamente, autores que se enquadram em uma ou outra das grandes vertentes. E assim vai. Tem muita coisa muito boa nessa 'Uma história da linguística, tomo 1: da Antiguidade ao Iluminismo', que merece (ou precisa) ser lida.
Para não dizer que não falei de flores, duas estranhezas (são isso mesmo):
(a) o apelo a definições de um dicionário (Houaiss) , por melhor que ele seja, de conceitos graves (o que contrasta com a erudição que marca o livro);
(b) a ausência da bibliografia (que virá no segundo tomo, como explica o autor). É uma decisão editorial (meus últimos anos foram de “azar” com editoras), mas eu teria gostado de ver já agora.
Claro, isso não é uma resenha. Espero uma de algum linguista mais gabaritado.
 
 
 
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Visitantes — Marcos Marcoonilo
Fui ver: o tomo 1 tem 7 menções ao Houaiss; o 2 terá 4. Evidentemente o apoio teórico não está nesse recurso didático.
Domingo, 18 Junho 2023 17:24
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Nossa língua & outras encrencas

Nossa língua & outras encrencas “Este livro é mais uma declaração de amor à escrita e à língua portuguesa do Brasil e além” [Ana Elisa Ribeiro]

 

“Este livro é mais uma declaração de amor à escrita e à língua portuguesa do Brasil e além” [Ana Elisa Ribeiro]

 

O gênero crônica frequenta bem as escolas, em especial por meio de obras que reúnem a produção de autores e autoras consagrados. As crônicas estão nos materiais didáticos e, para nosso alívio, também ocupam ainda algumas páginas especiais nos jornais diários, além de sites especializados internet afora. São um gênero literário cheio de ginga e apreciado por muita gente em busca de formas breves. Por outro lado, prementes questões de língua/linguagem são normalmente reservadas à sisudez das gramáticas e das aulas de língua portuguesa. Elas parecem reservadas a um mundo sem cor, feito só de regras.

Como tratar, numa abordagem capaz de produzir aproximação, contra a distância já instalada, esse conjunto sempre em mudança de questões linguísticas determinantes para nossa fala, escrita e identidade? Ana Elisa Ribeiro responde: “Com crônicas!”

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Ortografia não é língua!

blog18ABRIL Ortografia não é língua, ok. Mas é gramática?

Início de janeiro, uma amiga compartilhou um meme que dizia assim:

“Vamos parar de falar de política e falar de gramática? Aprenda a diferença entre

empoçado [um patriotário chafurdando na lama depois de um temporal] e empossado [Lula]”.

Por pura implicância jocosa (para isso servem as amigas), eu escrevi que era muito engraçado mesmo, só que não se tratava de gramática, mas de ortografia. Foi a deixa para que eu ficasse empoçado em comentários. Uma pessoa insistiu:

“A ortografia faz parte da gramática”.

Eu retruquei:

“Faz nada!”.

Ela revidou:

“Faz sim!”

Como não dá para explicar quase nada em comentários de rede social, aqui vai (espero) algum esclarecimento.

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3 passos — FIRMES — rumo ao escrever na escola

Capturar Dificilmente viveremos sem escrever nada, então decidimos sistematizar isso e pensar assim...

Toda semana tem. As aulas de redação são específicas, em tom de oficina, e nossa missão mesmo é escrever. A ideia não é explicar a “teoria” e partir para a prática, mas bem ao revés, ainda mais a esta altura. Em meados do ensino médio, já podemos dispensar explicações que ecoam desde o fundamental I. O que queremos fazer é escrever e, da prática, chegar à “teoria”, ao entendimento-clique de eventuais decorebas de tempos idos, aquele pequeno susto que é entender para que serve, enfim, algo que ouvimos no quinto, no sétimo, no nono ano. Metalinguagem finalmente revista, compreendida — “ah! era para isso?!” —, rumo a um certo alívio e buscando autoconfiança.

Nas aulas de redação, naquelas tardes quentes de quarta-feira, temos conversado sobre três passos que precisamos dar rumo a uma escrita mais sustentada, queremos dizer, mais consciente das escolhas feitas, mais precisa, mais adequada. Fugimos, todo o tempo, da ideia polarizada de certo e errado. Ela aparece, pipoca, salta, mas nós a evitamos porque buscamos pensar contextualizadamente: mas e neste texto, com esta intenção, para este efeito? Somos, afinal, os produtores, os escritores. Não é verdade que nossa escrita seja aleatória, fortuita, um golpe de sorte apenas. Nossa escrita é pensada, pinçada, querendo ser um texto cujo efeito nos satisfaça, e aos leitores, se os houver. Eis um problema de base: para quem?

Bem, três passos que nos parecem interessantes, um esquema que perseguimos ao longo do ano, mas que gostaríamos que transbordasse para a vida, adiante e adentro. Dificilmente viveremos sem escrever nada, então decidimos sistematizar isso e pensar assim:

PASSO 1

Podemos estranhar nossa própria escrita

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LINGUAGEM NEUTRA E FASCISMO

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Num texto breve e de tom moderado (https://www1.folha.uol.com.br/colunas/lygia-maria/2023/02/o-sexo-das-palavras.shtml, Lygia Maria, apresentada como mestre em Jornalismo pela UFSC e doutora em Comunicação e Semiótica pela PUC/SP, aborda, pela enésima vez na imprensa só este ano, a questão da linguagem neutra. O título é pouco feliz (“O sexo das palavras”), porque as palavras não têm sexo, têm gênero — e a confusão entre sexo e gênero, como se sabe, é fonte de muitos equívocos ou, pior, de atitudes sociais que, hoje em dia, se vinculam a toda sorte de violência fascista (vide as ameaças de morte que as pessoas trans eleitas para cargos legislativos recebem da parte dos criminosos que se sentiram legitimados em sua ânsia assassina pela ascensão ao poder do maior delinquente da história do Brasil). Mas querer distinguir as duas coisas é cometer “ideologia de gênero”, outra estupidez semeada e regada por esses mesmos criminosos.  

Esses equívocos imperam até mesmo no (nada inocente) ensino de língua. Quantas vezes ouvimos dizer que vaca é o “feminino” de boi? Não é. A noção de gênero, na gramática, se relaciona com a morfologia, isto é, com a formação das palavras da língua (e não com o sexo dos animais). Gata é o feminino de gato, mas vaca não é o feminino de boi: é uma forma supletiva, não deriva da mesma raiz. A esse respeito (e para mostrar que as ideologias que circulam na sociedade estão devidamente impregnadas nos modos de abordar a língua), é interessante observar que, no Dicionário Houaiss, a primeira definição dada a vaca é “fêmea do boi”, enquanto para boi o que se encontra é “designação comum aos mamíferos artiodáctilos do gên. Bos, da fam. dos bovídeos...” etc. Não é curioso que o boi não seja definido como “macho da vaca”? O mesmo dicionário define mulher como “indivíduo do sexo feminino”, sem informar de que espécie (afinal, uma vaca também é um indivíduo do sexo feminino da família bovídea), enquanto homem é “mamífero da ordem dos primatas, único representante vivente do gên. Homo, da sp. Homo sapiens” etc.

Durante dois mil anos, todos os dicionários e gramáticas foram escritos por homens: não admira, portanto, que o masculino tenha sido considerado desde sempre como o básico, o princípio, o óbvio, o natural... a norma. O feminino é que constituía (constitui) um “ponto fora da curva”, um “desvio” ou qualquer coisa assim. O sexismo enraizado em praticamente todas as sociedades ao longo da história, e chancelado pelas grandes religiões, não podia deixar de comparecer no tratamento da linguagem. Já ouviram falar daquela oração dos judeus que começa assim: “Bendito sejas tu, eterno nosso Deus, rei do universo, que não me fizeste mulher”? Pois é... O próprio termo Deus, no masculino, é indício dessa antiquíssima misoginia.

O breve texto de Lygia Maria, sem dúvida bem-intencionado, tropeça em mais de uma concepção tradicional de língua, daquelas que, de tão repetidas, se cristalizaram como verdades quando, de fato, são construtos ideológicos. Afirma que a comunidade LGBTQIAPN+  considera a língua como manifestação simbólica de opressões sociais porque a língua segrega e ofende. Não se trata de “considerar”: a língua é, sim, instrumentalizada para oprimir, discriminar e violentar grupos sociais, etnias e até populações inteiras. A articulista provavelmente não gostaria de se ver apresentada como doutor em Comunicação e Semiótica, como constava até recentemente nos diplomas das mulheres. Foi Dilma Rousseff quem sancionou uma lei (em 2012) que obriga a flexão no feminino dos títulos acadêmicos e profissões. A mesma Dilma Rousseff em torno da qual circulou uma polêmica idiota acerca do uso do termo presidenta, documentado na língua desde 1812. Polêmica falsa porque, de fato, nunca esteve em jogo o tal “amor à língua portuguesa” (como disse, com ar boboca, a ministra Cármen Lúcia, ao se tornar presidenta do STF), mas a mais clara e límpida misoginia, aliada ao reacionarismo visceral da camada letrada da sociedade brasileira (uma mulher na presidência? Yahweh nos livre e guarde!). Misoginia que viceja, aliás, em boas porções da esquerda brasileira (majoritariamente masculina, branca e heterossexual).

Ainda segundo Lygia Maria, a ideia de que a língua segrega e ofende é uma visão apriorística [que] desconsidera os contextos de interação na produção de sentido. E complementa: A mera expressão ‘Bom dia a todos’ não me agride como mulher, já que o masculino no português é genérico. O sentimento de uma só pessoa deve servir de régua para todo o resto da sociedade? Se ela não se sente agredida, good for her! O curioso é que, depois de fazer essa declaração, ela escreve: A língua não gira em torno dos indivíduos. Oxente! Se não gira, por que foi que deu aquele depoimento, individualíssimo, sobre o que sente ou não? E questão principal: por que a forma no masculino tem sentido genérico em português e nas demais línguas românicas? Porque era assim em latim. Tá, mas por que era assim em latim? As estruturas de uma língua não brotam do chão nem caem do céu — são humanas, demasiadamente humanas. Basta lembrar que havia em latim as palavras vir (“ser humano do sexo masculino”, de onde o adjetivo viril e o substantivo virtude, que fala por si) e homo (“ser humano em geral”). Mas como o ser humano do sexo masculino logo foi identificado como o modelo, o protótipo e o arquétipo da espécie humana, o termo homo se generalizou para designar tanto o macho quanto a espécie humana (até na terminologia científica: Homo sapiens). Do acusativo dessa palavra, homine-, é que provém o português homem, e seus equivalentes em outras línguas românicas.

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Visitantes — PATRICIA KONDER LINS E SILVA
Aprendi muito com você. Maravilha.
Domingo, 26 Março 2023 23:30
Visitantes — Wellington Rodrigues
ESPETACULAR!!!! Ocorre-me uma pergunta, apenas: a linguagem "neutra" não deveria ser chamada de linguagem "inclusiva", uma vez q... Leia Mais
Domingo, 09 Abril 2023 03:12
Visitantes — Edgar Azevedo
Aurélio Buarque de Holanda "Bode (or. Incerta) 01. O macho da cabra" Nada mais a declarar
Segunda, 15 Mai 2023 22:01
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 A COISA CELTA

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Marcos Bagno

 

Faz algum tempo, assistindo o noticiário da televisão francesa, ouvi a locutora dizer que o presidente Emmanuel Macron estava de partida para a residência oficial de verão em Brégançon. Esse nome imediatamente acendeu luzinhas na minha cabeça de nerd da geografia e da etimologia. Eu nunca tinha ouvido falar de Brégançon, mas logo deduzi que a semelhança entre Brégançon, na França, Bregenz, na Áustria, e Bragança, em Portugal, não podia ser mera coincidência. E de fato não era. Qualquer foto de Brégançon (como aquela acima, que ilustra este texto) mostra um rochedo à beira do Mediterrâneo, no alto do qual se encarapita um forte que circunda uma bela residência presidencial. Por ser um rochedo alto é que em seu nome aparece a palavra celta briga, que significa “altura, elevação” e daí “fortificação elevada”. Essa palavra celta, por sua vez, provém do indo-europeu *brhergh, “alto, elevado”, que também está na origem do alemão Berg, “montanha”. Como na antiguidade, por razões de defesa contra ataques inesperados, muitas povoações eram fortificadas e construídas em locais altos — colinas, montes, outeiros —, daquela mesma raiz indo-europeia derivam os termos Burg, do alemão, e borough e burgh, do inglês, que, inicialmente, designavam fortes e fortalezas e, mais tarde, “cidade”. O equivalente latino era o castrum, cujo diminutivo, castellum, nos deu castelo, palavra que, antes de designar a morada de um nobre, de um rei ou de uma princesa encantada, nomeava construções fortificadas no topo de alguma proeminência do terreno. O castrum romano está presente em muitíssimos topônimos (nomes de lugar) na Grã-Bretanha, nas formas -caster (Lancaster), -cester (Leicester) ou -chester (Winchester), testemunhos do período em que a ilha esteve sob domínio romano.

Aquela mesma raiz briga aparece em vários outros topônimos na Europa, incluindo localidades do norte da Itália (Briga, Briga Navarese, Briga Marittima e até uma redundante Briga Alta). Mas é na Península Ibérica que eles vão aparecer em maior abundância. A Bragança portuguesa era Brigantia em latim, e a linda cidade galega que hoje se chama Corunha (A Coruña, em galego), era Brigantium para os romanos. Mas é como sufixo que -briga pululava na Antiguidade ibérica: Conímbriga (de onde provém Coimbra), Cetóbriga (atual Setúbal), Lacóbriga (atual Lagos), Langóbriga (atual Logoivra), todas em Portugal; Nemetóbriga (na Galiza), Nertóbriga (na Espanha), Segóbriga (também na Espanha), para citar alguns poucos. 

Da noção concreta de “altura, elevação” derivou, como consequência naturalíssima, o conceito abstrato de “eminente, excelente, excelso, altaneiro” etc. Daí porque daquela mesma raiz celta deriva o nome da deusa Brígida (Brighid em celta), associada ao fogo, à fertilidade, à primavera, nome que está na origem de Bridget, Brigitte, Birgit etc. O nome se popularizou, não por causa da deusa celta, mas de uma santa católica, Brígida da Irlanda ou Brígida de Kildare (452-524), para quem, curiosamente, foram transferidos alguns dos mesmos atributos da deusa “pagã”. Também existiu uma tribo céltica chamada brigantes, que deixou marcas de sua passagem por vários lugares da Europa, desde a Áustria atual até a Inglaterra. Talvez se chamassem assim por se considerarem “altos, excelsos, eminentes” ou porque se estabeleciam em lugares elevados. 

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Visitantes — PATRICIA KONDER LINS E SILVA
Obrigada por tornar fascinante a origem das palavras. Adorei o artigo.
Domingo, 26 Março 2023 23:24
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Ler para as crianças é entrar no coração delas e nunca mais sair

Ler para as crianças é entrar no coração delas e nunca mais sair

7 motivos para tirar o escorpião do bolso e comprar um livro bem bacana

 

Já prestou atenção? Que criança não curte uma boa história? Difícil encontrar um piá que não fique boquiaberto com dragões, quartos escuros, portais mágicos ou bruxas engraçadas. Meu filho, por exemplo, quando menor, curtia uma bruxa bem feia, que zanzava por aí montada em um bode voador. Ouvia aquela história num misto gostoso de medo e gargalhada. Impagável. Até mandei um e-mail ao autor, certa vez, para agradecer a oportunidade de que eu fosse uma leitora divertida para meu pequeno, que ainda nem sabia ler. 

 

Ah, mas vai saber. O garoto ficava tão curioso e tão intrigado com a magia de tirar palavras e histórias de uns rabiscos que era doido para aprender aquilo. Quem mais poderia atrair um novo leitor, além de outro leitor? Experimenta, depois me conta. Uma boa história de medo, um conto bonito, uma narrativa comovente, um poema altissonante, bem rimadão assim, as crianças curtem, curtem muito, sem as desobrigações que virão mais tarde. E se curtirem o embalo desde bem cedo, quem sabe o guri ou a guria passam a ler a torto e a direito, sem ligar se a escola mandou, se a mãe pediu, se o pai deu de castigo, se é moda na TV… 

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