Blog da Parábola Editorial

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Professor!

Ah, essas meninas...

 

Há alguns anos, tenho me aproximado de uma comunidade relativamente perto da minha casa. Sem nenhuma ligação partidária ou religiosa, a partir de uma amizade, semanalmente passo por lá. Meu filho adora brincar com as crianças. Não tem praça, não tem espaço nenhum de sociabilidade. É na calçada mesmo que se divertem…

 

Enquanto as crianças brincam, fico observando. Quase ninguém sabe meu nome. Só me chamam de professor. Algumas crianças são muito carinhosas. Se achegam, querem abraçar, conversar. Em tempos de pandemia, o tempo de escola, de estudo se perdeu. Alguns pegam exercícios para fazer em casa, quase sempre sem acompanhamento, sem incentivo, sem condição nenhuma…

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10 presentes incríveis para o dia do Professor

Dia do Professor 10 presentes incríveis para o Dia do Professor

Com menos de R$ 50,00 você fará bonito no Dia dos Professores

A Parábola preparou uma lista com dez presentes para você, estudante de Letras, Linguística, presentear aquela professora/aquele professor por quem tem um grande carinho, por quem você realmente tem gratidão e reconhecimento.

Vamos lá!

 

1 - Assinatura do Clube Parábólicos

O Clube Parabólicos é o primeiro clube do livro exclusivo para profissionais e estudantes de Letras e Linguística. Além de uma caixa todo mês, ao se tornar membro, o assinante do Clube Parabólicos recebe um clube de vantagens: 30% de desconto permanente em todas os produtos da Parábola, descontos exclusivos em mais de trinta lojas de varejo do mercado, encontro mensal com autores, participação em um grupo exclusivo para membros, assinatura gratuita da Revista Digital Parábola com assuntos que ajudarão muito no dia a dia de quem estuda ou trabalha na área. Como você vê, esse é um presente incrível, que vai encher o coração💜 do(a) seu (sua) professor(a) de alegria.

O clube tem planos que começam a partir de R$ 22,90 e a caixa traz: um miminho literário, um livro-lançamento da Parábola, folheto explicativo da obra e marcador de texto. Ao aderir aos planos anuais, o assinante recebe de brinde a nossa tão cobiçada caneca Parabólicos.

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A vida na Grécia - rapsódia

Blog27Julho Um romance inesperado numa editora impensada

A vida na Grécia é um inesperado romance numa editora, à primeira vista, impensada. O autor é reconhecido como um dos linguistas de destaque na atualidade, autor também de obras infantis, juvenis e de poesia, além de tradutor com mais de 150 traduções publicadas. Suas obras mais divulgadas e lidas [pensemos em Preconceito linguístico, seu long-seller há 22 anos] estão no campo dos estudos de língua/linguagem. Nunca se soube que ele fosse romancista e, de repente, aparece ele com um romance… Temos um enigma em torno da aparição de A vida na Grécia — rapsódia. A editora, igualmente, leva vinte anos publicando no mesmo campo, pelo qual se notabiliza, pouco se sabendo, até agora, da vocação do autor e da Parábola Editorial para o romance. O lançamento aqui apresentado foge do que se conhece tanto do autor quanto da editora.

 A vida na Gréciarapsódia é um “romance de formação” em cujas páginas vamos acompanhar o trajeto de vida de Manuel, da infância à vida adulta. Manuel aparece inicialmente na infância como uma personalidade tímida, dotada de uma sensibilidade muito aguçada que lhe impede uma interação fácil com a maioria das pessoas e com o mundo circunstante. A “Grécia” do título se refere precisamente a esse desajuste, a esse “lugar distante” em que Manuel vive, muito para dentro de si. Ele vive num mundo que se manifesta em pedra, sua vocação é para o assombro, a cada tentativa de fazer laço.

Por outro lado, o “rapsódia” do subtítulo remete ao poético que impregna a prosa do autor. Bagno escreve para seduzir com um texto que simultaneamente abriga e desafia as(os) leitoras(es). Se “rapsódia” remete a “recitação de trecho de um poema épico”, “fragmento de um poema”, “epopeias de uma nação”, “peça musical”…,  logo vemos que esse romance está todo tomado de poesia. Pouco se verá atualmente prosa tão poética e sonora quanto a que temos nesse livro. Conta-nos o autor:

“Foram 33 anos de escrita, reescrita, avanços e recuos, esquecimentos fingidos e lembranças duvidosas, saudades de nada e suspeitas de tudo… A minha é uma Grécia toda particular, muito íntima, e às vezes me pergunto se não teria sido melhor mantê-la oculta entre as pedras que amontoei ao seu redor. Mais de meia vida fantasiada de mito, disfarce que mais revela do que esconde, como é próprio dessa coisa chamada palavra”.

A vida na Grécia levou 33 anos sendo escrito, sem que ninguém se desse a menor conta de sua construção, nem mesmo as pessoas mais próximas do autor. De repente, o romance se impõe a ele, que teve de dá-lo a lume. Extinguia-se a relação platônica com a escrita de um livro que exigia abandonar a forma ideal a que se tenta chegar pela escrita e pela reescrita, pela contemplação da forma. Confirma-o o autor: “Na verdade, a forma ideal que me habita a alma nunca será atingida”.

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História política e gramatical dos pronomes

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Você sabe como se dizia ele e ela em latim clássico? Não se dizia. Isso mesmo, no latim clássico não existiam pronomes da chamada “terceira pessoa” (que é, na verdade, uma “não-pessoa”, já que não participa do discurso). De fato, mundo afora, existem centenas de línguas que não têm pronomes específicos para designar aquilo que é o “assunto” do qual a primeira e a segunda pessoa falam. A língua pré-histórica da qual deriva a maioria das línguas europeias, o chamado protoindo-europeu, não tinha pronomes para a não-pessoa. Justamente por não ser uma pessoa do discurso é que esses pronomes podem ser dispensados, além de poderem se referir a toda e qualquer coisa no mundo real ou imaginário, ao passo que eu e tu/vocêsó podem se referir a pessoas (ou a coisas personificadas). Eu e tu/você se atualizam no contexto de interação, enquanto ele/ela são elementos de um texto

Um fato muito interessante é que, em muitas e muitas línguas que apresentam pronomes de “terceira pessoa”, esses pronomes derivam de demonstrativos. Os pronomes he, she e it do inglês, por exemplo, remontam a demonstrativos indo-europeus, ou seja, significavam, lá por volta de 5.000 antes da Era Comum, “este”, “aquela”, “isso”. E o mesmo se dá com nossos ele/ela e seus plurais: derivam dos demonstrativos latinos ille/illa, que significavam originalmente “aquele”/“aquela”. É a mesma origem do romeno el/ea, do italiano egli/ella, do francês il/elle, do catalão el/ella, do espanhol él/ella, do galego ele/ela... A passagem de demonstrativo a pronome pessoal (um fenômeno chamado gramaticalização) é fácil de imaginar. Para deixar claro a quem (ou a que) estava se referindo, no discurso, a pessoa empregava o demonstrativo para dar ênfase a essa referência. Além disso, com as transformações sofridas pelo latim nos diferentes lugares onde, bem mais tarde, ele passaria a ser designado com outros nomes (galego, português, espanhol, francês etc.), o -t característico dos verbos da “terceira pessoa” (amat, amabat, amauit, amet etc.) desapareceu, de modo que uma forma amaba (“amava”) podia ser interpretada como “eu amava” ou “ele/ela amava” (porque também tinha caído o -m característico da primeira pessoa, amabam). Desse modo, razões de ordem discursivo-pragmática (enfatizar a referência ao que foi dito anteriormente e evitar ambiguidade nessa referência) acabaram enfraquecendo o caráter demonstrativo de ille/illa e transformando-os em pronomes pessoais. Veja que até hoje usamos este/esta e aquele/aquela para nos referirmos, sobretudo na escrita formal, ao que foi apresentado antes, em geral para evitar uma possível ambiguidade: “Na sexta-feira passada, a CPI do genocídio ouviu os irmãos Luís Cláudio e Luís Ricardo Miranda. Este, servidor concursado do Ministério da Saúde, forneceu mais uma prova de que o atual governo brasileiro é o mais corrupto e abjeto da história do país, disposto a obter lucros pessoais com a morte de centenas de milhares de pessoas”. 

Em resumo: nas variedades faladas do latim imperial (também chamado “latim vulgar”) surgiram pronomes pessoais para a chamada “terceira pessoa”, descendentes de ille  e illa que resultaram em ele ela, no caso do galego e de seu filho pródigo, o português. E como foi que surgiram? Surgiram porque as pessoas que falavam essas variedades sentiram a necessidade desses elementos gramaticais para levar adiante de forma satisfatória a interação social por meio da linguagem. Porque, nunca é demais repetir, não é “a língua” que se transforma, não é “a língua” que cria ou elimina o que quer que seja: são os indivíduos, as pessoas, as e os falantes que transformam a língua, que criam inovações ou eliminam o que já não lhes parece necessário. As gerações anteriores à nossa é que eliminaram o vós e criaram você/vocês. A geração mais nova que a minha está substituindo alegremente nós por a gente (não sou eu que “acho” isso: pesquisas feitas há cinquenta anos mostram essa transformação). Os pronomes oblíquos o/a/os/as não pertencem à nossa língua materna, deixaram de ser usados por aqui há bem dois séculos...

“não é “a língua” que se transforma, não é “a língua” que cria ou elimina o que quer que seja: são os indivíduos, as pessoas, as e os falantes que transformam a língua”

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Necrolinguagem. Breve apontamento glotopolítico

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É em Rayuela (O jogo da amarelinha), se não me lembro mal, que o escritor argentino Julio Cortázar define os dicionários como cemitérios de palavras. Além da irônica referência a certa tradição lexicográfica conservadora que demorava para incluir novos verbetes nas páginas desses instrumentos linguísticos, tal definição também revela a artificialidade desses repositórios de palavras, onde elas descansam afastadas do seu uso, isoladas de qualquer contexto, imobilizadas em seus significados comuns.

As palavras adquirem sentidos diversos nas práticas linguísticas concretas e nunca andam sozinhas. Mas existem também dicionários destinados a mostrar suas combinações mais habituais: são os chamados “dicionários de combinatórias”. Tomando como base um corpus da linguagem em uso, esses dicionários identificam, por exemplo, os adjetivos que costumam estar associados a um substantivo ou os verbos que ele costuma seguir ou anteceder. O Google, essa ferramenta oracular que tudo sabe, dá pistas combinatórias ao nos fazer propostas de busca quando digitamos uma palavra, com base nas que são mais habituais. Se digitamos o verbo cancelar, a janela que se desprega nos propõe procurar coisas como ~ mei~ netflix~ amazon prime~ assinatura o globo~ net~ spotify~ globoplay~ email outlook~ smart fit. E este é um registro do que, pelo visto, as pessoas andam querendo cancelar no Brasil.  

As definições só pensam em anularinterromper ou invalidar passaportesassinaturas ou licenças. O dicionário ainda não se tocou de que por aqui andam cancelando gente. Mas era evidente que a necropolítica de que fala Achille Mbembe, a produção e a gestão política da morte, a decisão soberana sobre quem pode viver e quem deve morrer, teria de ter a sua própria linguagem. “Cancelar o CPF” é uma expressão miliciana, nascida entre os esquadrões da morte do Rio de Janeiro, que ocupou os platôs televisivos dos programas pinga-sangue e acabou se sentando na cadeira da presidência da República, agora transformada de vez numa República das Milícias, em expressão cunhada por Bruno Paes Manso. Parece um simples eufemismo, mas é um atestado linguístico da necropolítica em ação, para a qual a expressão máxima da racionalidade ocidental é uma combinação de racismo e burocracia, já desde os massacres que o colonialismo europeu realizava na África e na Ásia, como explica Hannah Arendt. Aqui, a chacina é concebida como rotineira operação burocrática, que tira vidas descartáveis, reduzidas ao seu número de identificação fiscal. O escárnio não seria completo se o documento escolhido para revelar (e ocultar) a morte das pessoas não fosse o que nos identifica como contribuintes e consumidores (em vez de, por exemplo, o título de eleitor ou o RG, que também compõem a lista de documentos imprescindíveis na vida cívica do país). 

A linguagem verbal esconde os corpos, mas o “CPF cancelado”, mais do que um eufemismo para ocultar o crime que o Estado realiza diante dos nossos olhos, é deboche repleto de sadismo. Por definição, a polícia cancela apenas o CPF de bandidos, que, para a necrolinguagem brasileira — e na ausência de garantias judiciais, de processos conduzidos de acordo com a lei e mesmo na inexistência de pena capital na legislação vigente —, é um substantivo que designa uma categoria ontológica: pessoas matáveis, de raça negra e que moram em favelas. Na inversão semântica que a necrolinguagem produz, os direitos humanos seriam defensores de bandidos, personificação que converte substantivos abstratos em nomes que remetem a sujeitos concretos, indivíduos que supostamente desejariam destruir a ordem social com sua inexplicável e perversa afeição ao crime. Uma característica da linguagem fascista é, precisamente, retorcer e torturar as palavras até fazê-las confessar o que não são. É por isso que o nazismo, para denominar o extermínio de ciganos, comunistas, homossexuais e judeus, burocratizado na produção industrial de morte nos campos de concentração, utilizava um sintagma auspicioso de mundo feliz com as contas bem-feitas: Solução final.   

Mas os corpos somem não apenas na linguagem verbal, eles também estão ausentes na linguagem visual. As fotos publicadas nos jornais sobre a chacina do Jacarezinho, no Rio de Janeiro, são cenários sem corpos, com manchas de sangue no chão, nas paredes, numa cadeira. Numa delas, sobre o sangue já seco, há um porta-retratos vermelho em forma de coração e uma toalha cor-de-rosa. A foto nos comove porque sabemos que é o quarto de uma menina. Mas devemos fechar os olhos e fazer um esforço de imaginação gigante para sentir o fedor do sangue, e antes disso, os gritos, as explosões secas dos tiros, os choros, o cheiro da pólvora e do medo. Nada disso é evidente nessas imagens sanguinolentas que já vimos antes em filmes de Tarantino e no açougue da esquina. O mais parecido com um corpo humano é um fardo carregado por quatro policiais pelas ruelas da favela. Os CPFs cancelados no Jacarezinho, além de não terem corpo, também não têm nome até dois dias depois da chacina, quando a polícia civil divulga a lista de vítimas da “operação”. 

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Língua, orfandade e pandemia

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*orbh-: quando o trabalho não dignifica

 

A proposta dos nossos textos é aproximar a etimologia da atualidade, retraçar os caminhos que as palavras seguiram através dos séculos para trazer luz e amparo ao presente. 

No dia 16 de março, quando termino a redação deste texto, cumpre-se um ano da suspensão das aulas presenciais na Universidade Federal do Paraná, onde eu trabalho. As reitoras e reitores de todas as universidades públicas do país tomaram a mesma decisão de forma praticamente simultânea. Uma medida inédita que só podemos entender à luz da crise sanitária produzida pela Covid-19 e a necessidade urgente de frear a expansão do vírus. Da noite para o dia, as docentes, alunas e demais membros da comunidade acadêmica ficaram órfãs do trabalho, que constituía parte importante de suas identidades e subjetividades, cegados, em certa medida, pela magnitude da crise. Lembrando agora aquele momento — à distância de um ano — e considerando a progressão da pandemia, decidi dar continuidade às postagens que venho publicando neste espaço da Parábola.

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A língua não é um organismo vivo!

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Um argumento que aparece com frequência quando as pessoas querem criticar o discurso purista que vocifera contra as mudanças e as inovações na língua é dizer que a língua é um “organismo vivo” e, por isso, está sempre em transformação, “evoluindo”. A militância contra o purismo é sempre bem-vinda, até porque o reacionarismo linguístico é com frequência a face visível de uma concepção de sociedade em que os indivíduos ou os grupos sociais também são classificados como “certos” e “errados”, “bons” e “ruins”, “santos” e “pecadores” etc. No entanto, por mais bem intencionada, essa comparação da língua com um organismo vivo presta mais desserviço do que ajuda. Como sempre, um pouco de história faz bem.

Durante uns bons dois mil anos, desde a filosofia grega mais antiga, a maior parte das reflexões sobre as línguas no Ocidente se articularam em dois eixos: a gramática e a lógica. Os antigos acreditavam que o funcionamento da mente (psyche) estava refletido no funcionamento da língua (logos), que por sua vez refletia o funcionamento do mundo natural (physis), que refletia por fim a organização do universo (kosmos). Nossos antepassados gregos eram fãs da simetria (palavra grega, aliás), e tentavam encontrá-la em todos os aspectos da vida, do visível, do invisível, do falável e do pensável. Mas também tinham um grande apreço pela correção, pela forma justa e perfeita das coisas, uma ideia contida na palavra orthos (“reto, correto”) que encontramos em palavras como ortografia, ortodoxia, ortodontia etc. Desse modo, não interessava a eles estudar a língua e a mente em todas as suas modalidades de funcionamento, mas somente naquilo que fosse considerado correto, claro, bem definido etc. Daí surgiram as disciplinas chamadas gramática, que define o que é certo na língua, e lógica, que define o modo certo de raciocinar. A gramática seria então a lógica da língua, enquanto a lógica seria a gramática do raciocínio. Essa concepção das coisas é tão bonita, tão bem esculpida que a gente acaba se apaixonando por ela e esquecendo que é falsa. E é falsa justamente porque é normativa, isto é, não se interessa pelo que as coisas são, mas pelo que elas deveriam ser, segundo concepções muito restritas, condicionadas pelo lugar, pela época, pelas crenças, pelas divisões sociais etc.

Uma coisa interessante na palavra lógica é que ela deriva de logos, um termo cujos sentidos foram se complicando com o passar dos séculos, mas que, em sua origem mais original, mesclava pensamento e linguagem: o logos era “palavra”, mas também “razão”. De fato, já na Grécia clássica (séculos 5 a 3 antes da nossa era), logos era o “enunciado dotado de sentido” (e no grego bíblico se tornou nada menos que a Palavra divina, o Verbo divino). Aqui se vê bem a ideia de que língua e pensamento (logos e... logos) eram o verso e o reverso de uma mesma folha de papel. 

Essa associação gramática-lógica imperou durante muitos e muitos séculos. Foi abandonada na linguística moderna, mas suas raízes estão bem firmes no senso comum, contaminado pelo vírus da normatividade. Muita gente condena determinadas construções sintáticas porque estariam contrariando a “lógica” da língua. Eu não posso dizer “vou ir” porque isso fere essa tal lógica, afinal “vou” já tem em si a ideia de “ir”. Mas essa é uma análise furada, aliás nem análise é. O vou de “vou ir” é uma mera partícula indicadora de futuro, já se esvaziou semanticamente da ideia de “ir”. Engraçado é que ninguém vê como “ilógicas” construções como “vou voltar” ou “vou ficar”. Enfim, essa é a primeira definição equivocada de língua que se fixou no imaginário ocidental: a língua como um conjunto de “regras lógicas”. De resto, o importante linguista francês Émile Benveniste (1902-1972) mostrou que a lógica clássica era simplesmente uma transferência, para a análise do raciocínio, das categorias gramaticais da língua grega. Se Aristóteles falasse húngaro, tupi ou malaio, sua lógica seria completamente diferente!

Toda essa longa tradição vai ser abalada e abandonada em boa parte no século 19, quando nasce a ciência chamada linguística. A constatação definitiva de que a maioria das línguas faladas na Europa eram aparentadas entre si e também tinham vínculos genéticos com muitas línguas faladas no atual Irã e na Índia, entre outros lugares, revolucionou os estudos linguísticos. Uma ciência, pensavam os linguistas do século 19, tem que se interessar por tudo o que existiu e existe numa língua, independentemente de ser certo ou errado, bonito ou feio, “lógico” ou “ilógico” etc. Nisso tentaram acompanhar os outros cientistas, cuja áreas específicas começavam também a se constituir naquele período: um geólogo não vai estudar só as pedras preciosas ou as que ele considera mais bonitas, vai estudar todos os fenômenos que dizem respeito ao mundo mineral. Foi desse modo que a gramática foi substituída pela linguística, enquanto a antiga lógica clássica foi substituída pela psicologia, a ciência que se interessa por tudo o que se processa na mente humana, e não apenas pelos modos de raciocínio corretos, regrados etc. Mas a entrada em cena da psicologia como auxiliar da linguística só aconteceu no final do século 19, lá pelos anos 1870. Antes dela, quem fez um belo estrago na linguística foi a biologia ou, melhor, uma apropriação bem indevida da biologia...

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Hermann Paul, pioneiro da linguística moderna

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A narrativa dos progressos científicos precisa ser periodicamente reavaliada, criticada e, se for o caso, refeita. Afinal, como diz o provérbio, quem conta um conto aumenta um ponto, e esse ponto vem sempre desenhado pela inescapável ideologia. E foi bem isso o que aconteceu na virada do século 19 para o 20. E, ao contrário do clássico de Marx e Engels, A ideologia alemã, aqui vamos falar de uma ideologia antialemã.

Em 1864, a Prússia (ancestral da Alemanha) promoveu uma guerra contra a Dinamarca, da qual saiu vitoriosa. Em 1866, venceu a Áustria em outra guerra. E em 1870-1871, foi a vez de combater a França, que se viu derrotada e humilhada com a ocupação de Paris. Mais adiante, a Alemanha, já unificada, promoveu a Primeira e, bem depois, a Segunda Guerra Mundial. Tudo isso fez surgir e crescer, na Europa ocidental, um forte sentimento antigermânico. Ora, o século 19 foi totalmente dominado, no campo dos estudos linguísticos, por estudiosos de língua alemã. Isso se deveu, em boa parte, ao desenvolvimento de um importante sistema universitário, que resultou na institucionalização de diversas áreas do conhecimento, entre elas a Sprachwissenschaft, “ciência da linguagem”, que em outros idiomas veio a se chamar linguística. Há exatos duzentos anos, em 1821, o grande pioneiro dos estudos histórico-comparatistas, Franz Bopp (1791-1867), se tornou o primeiro ocupante de uma cátedra de linguística numa instituição acadêmica, a recém-fundada Universidade de Berlim. Enquanto em outros países os intelectuais e cientistas tinham de se virar sozinhos para pesquisar e publicar seus trabalhos (pensemos, por exemplo, em Darwin, que nunca atuou numa universidade), em terras alemãs, a instituição universitária lhes garantia boas condições de trabalho e de subsistência. Assim, os nomes que brilharam na linguística do século 19 compõem uma lista quase toda de sobrenomes alemães: Schlegel (dois irmãos), BoppHumboldtSchleicherGrimm (dois irmãos), BenfeyPottMüllerSchuchardtOsthoffBrugmannCurtiusSieversPaul e por aí vai. Mesmo os não alemães que se destacaram nesse campo fizeram seus estudos na Alemanha, como o estadunidense William D. Whitney e, claro, o suíço Ferdinand de Saussure.

É fácil então levantar a hipótese (tão ideológica quanto qualquer outra) de que os estudiosos da linguagem, no início do século 20, queriam se desembaraçar do predomínio alemão, desejo que refletia o impregnado sentimento antigermânico que mencionei acima. Quando, em 1916, os alunos de Ferdinand de Saussure publicaram o Curso de linguística geral, aquele desejo pareceu milagrosamente satisfeito: quem melhor do que um recatado professor suíço (ou seja, da terra da “neutralidade”) de língua francesa para ser mitificado como o “pai da linguística moderna”, um pensador cuja (suposta) originalidade faria a linguística alemã do século anterior se tornar obsoleta e anacrônica da noite para o dia? Não admira que somente a partir da segunda edição do Curso, em 1922 (ou seja, no período entre as duas guerras mundiais), o livro que Saussure não escreveu tenha começado a ser visto como a bíblia da tal linguística moderna. E assim tem início a narrativa laudatória que até hoje todos escutamos (e reproduzimos) em nossas aulas de introdução à linguística de tantas e tantas universidades. No entanto...

No entanto, no subsolo do Curso de linguística geral se agitam, invisíveis, as verdadeiras fontes das teses apresentadas na obra como originais e inovadoras, fontes que, entretanto, nunca são mencionadas (o livro nem sequer traz uma bibliografia no final!). E uma das mais notáveis dessas fontes é a obra do linguista (surpresa!) alemão Hermann Paul (1846-1921), cujo centenário de morte se completa este ano. O livro que Paul, sim, escreveu e publicou em 1880, Prinzipien der Sprachgeschichte (“Princípios de história da língua”), foi, durante quarenta anos, a leitura obrigatória, o manual básico para qualquer pessoa que se aventurasse nos estudos linguísticos. Fosse para adotar a teoria ali exposta ou para rejeitá-la, a obra de Paul se tornou incontornável. O livro teve três edições posteriores (1886, 1898 e 1920), sempre com acréscimos e retificações, o que demonstra o desenvolvimento constante do pensamento do autor. 

Quando comparamos os Prinzipien de Paul com o Curso atribuído a Saussure, o que logo chama a atenção é a profundidade e a sofisticação das teses de Paul, que contrastam com a pobreza e a superficialidade de temas abordados no Curso. De fato, o Curso não vai além de uma linguística da palavra (o tal signo linguístico que, ao fim e ao cabo, a gente nunca sabe exatamente o que é), enquanto Paul dedica vários capítulos ao estudo da morfossintaxe, que é o núcleo duro do estudo do funcionamento das línguas humanas. A crítica textual acaba também por revelar, no Curso, um grande número de paráfrases, quando não de traduções literais do que aparece no livro de Paul publicado, é sempre bom lembrar, 36 anos antes. Vamos mostrar apenas algumas delas.

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Sobre o exigente ofício de formar leitores

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Causou polêmica nas redes sociais a recente declaração de um famoso youtuber brasileiro sobre a inadequação das obras literárias nacionais canônicas aos estudantes de ensino médio. A meu ver, o problema está na generalização que se faz sobre o adolescente de hoje. 

Comecei a estudar aos 5,5 anos de idade na escolinha do povoado em que eu morava, perdido no meio do semiárido cearense. Era uma escolinha muito pobre, apenas com três salas de aula e uma área aberta para brincar. Não tinha biblioteca, assim como não se encontrava um só livro literário em minha casa. Meus pais, agricultores com ginasial incompleto, nunca tiveram o hábito de ler. 

No entanto, fui uma criança que leu bastante literatura. Na época, quando eu cursava a 4ª série do 1º grau, havia um programa de incentivo à leitura, patrocinado por uma fundação famosa em parceria com os governos estaduais. Nesse programa, era distribuída às escolas uma coleção de livros infantise infanto-juvenis que ficavam expostos em um mostruário afixado na parede da sala de aula. O aluno podia escolher um livro, levá-lo para casa e devolvê-lo quando terminasse de ler. Periodicamente, o mostruário era substituído por outro, com novos títulos. 

Não me recordo de nenhuma das professoras incentivando a leitura, ou realizando projetos de leitura daqueles livros. Eles simplesmente ficavam lá, dentro do mostruário de plástico para quem os quisesse ler. E a simples presença deles na sala de aula era, para mim, o bastante. Havia propagandas na TV divulgando as obras, como se fossem trailers dos livros, e isso me aguçava muito a curiosidade. Foi naqueles tempos que entrei em contato, através dos livros, com Marina Colasanti, Viriato Correia e Jorge Amado, entre muitos outros autores consagrados.

Quando cursava o 1º grau maior, estava no auge da popularidade a série Vaga-Lume, com os eletrizantes romances infanto-juvenis escritos por Marcos Rey, Lúcia Machado de Almeida, Maria José Dupré, Orígenes Lessa, Homero Homem... Por esse tempo, eu já escrevia pequenas histórias e alimentava o sonho de me tornar escritor um dia. Não havia, porém, esses livros na escola em que eu estudava. Tomei conhecimento deles através de meu irmão mais velho, que estudava na cidade, em uma escola que exigia a leitura daquelas obras. Fiquei com os livros do meu irmão depois que ele os leu. Ele me incentivou a lê-los.  

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Norma culta para quem, cara-pálida?

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O debate em torno da norma linguística no Brasil está inevitavelmente vinculado ao tipo de sociedade que é a nossa, de modo que, na prática, fica impossível tratar de temas relacionados à língua sem tratar, junto com eles, de fatores socioeconômicos e, por tabela, políticos. Isso vale, claro, para todas as sociedades humanas, porque as línguas são, por sua própria natureza sociocultural, campos de batalhas permanentes, mas em cada uma delas os conflitos linguísticos assumem características próprias, específicas à formação histórica e à estrutura social de cada lugar. Num país marcado por alguns dos índices de desigualdade e injustiça mais perversos do planeta, o que vou chamar aqui de debate normativo (melhor talvez fosse embate, já que falei de campos de batalha) tem que se articular com o exame atento da nossa estrutura social.

Depois da assim chamada independência, em 1822, a reduzida elite intelectual — masculina, branca e escravagista — se divertiu com a chamada “questão da língua brasileira”, um jogo de salão que, por isso mesmo, nunca alterou de fato as relações sociolinguísticas do país: o padrão vigente em Portugal, de inspiração literária “clássica”, preservou seu estatuto de única forma de língua “certa” (ou “legítima”, conforme a definição de Pierre Bourdieu), de único objeto de ensino, até porque o ensino era privilégio daquela mesma reduzida elite. A ideia de que a imensa maioria da população brasileira falava “errado” não sofreu abalo — sobretudo porque essa imensa maioria era afrodescendente, o que já a relega(va) ao subsolo da pirâmide das classes sociais, e seus modos de falar eram considerados, logo (e literalmente) de cara, toscos e indignos do rótulo de “língua”.

Um século depois, com os modernistas, ressurgiu o desejo de valorizar o português brasileiro, principalmente em suas características “populares”. Não por acaso, o principal porta-voz desse desejo foi Mário de Andrade (1893-1945), mestiço e homossexual, minoria absoluta num meio intelectual, mais uma vez, essencialmente branco, heteronormativo e de classe média para alta. Mas foi um movimento de literatos, não de pessoas dedicadas especificamente ao estudo das línguas (aqui, de novo, se destaca Mário que, além de poeta, romancista e contista, também se dedicou a pesquisas etnográficas sobre as manifestações culturais brasileiras de todas as regiões, com destaque para as de matriz indígena e africana).

Dando um salto no tempo, chegamos ao final da década de 1960, muito importante para os estudos ditos “científicos” das línguas, uma vez que a disciplina Linguística foi introduzida nas principais universidades do país em 1961. Com isso, o debate normativo adquiriu um caráter novo, pois deixou de ser reservado aos filólogos de formação tradicional, aos gramáticos prescritivistas, e se abriu para discussões embasadas nas teorias linguísticas que vigoravam na época (estruturalismo clássico, bem consolidado, e estruturalismo gerativista e sociolinguística, em seus primórdios). Em 1969 tem início o Projeto NURC (Norma Urbana Culta) que visava descrever as variedades urbanas do português brasileiro, tendo como informantes as pessoas consideradas “cultas”, isto é, nascidas e criadas em grandes ambientes urbanos e com curso superior completo. O enorme volume de dados acumulados pelo NURC permitiu, décadas depois, a produção da Gramática do português culto falado no Brasil, um empreendimento monumental, levado a cabo por dezenas de linguistas de diferentes centros de pesquisa e de diversas filiações teóricas.

A verificação empírica das profundas diferenças existentes entre o padrão normativo convencional e a língua realmente empregada pelas pessoas cultas levou várias e vários linguistas a questionar a validade daquele padrão como objeto e objetivo do ensino de língua na escola. Se existe uma autêntica norma culta brasileira, por que não fazer dela a base de uma nova educação linguística no país, decerto mais democrática, uma vez que essa norma era bem menos “estrangeira” à cidadã e ao cidadão comuns do que o anacrônico padrão, tão apegado à língua literária e à fala portuguesa?

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Parábola Editorial: retrospectiva 2020

SedeParabola Vinte anos

 

Kaya Adu Pereira

Assistente de Edição da Parábola Editorial

 

Em meio à inoportuna pandemia da covid-19, entre os desafios enfrentados por nós, da Parábola Editorial, o que mais nos preocupou foi nossa relação com o público, condicionada a se adaptar às redes sociais.

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Quem rege a regência verbal?

regência

AGRADECER E PERMITIR

Regência é um termo da doutrina gramatical que significa a dependência existente entre duas palavras numa construção, de modo que uma complementa a outra. Uma das palavras “manda” na outra, por isso se usa o verbo reger, que é o que fazem (ou faziam) os reis. Por exemplo, o verbo servir pode reger as preposições a (“ele serve à causa da milícia, à qual pertence”), de (“o presidente serve de pau-mandado ao empresariado que quer destruir os direitos trabalhistas”), para (“o atual presidente só serve para ser jogado no lixo da história”), ou preposição nenhuma (“ele serve mentiras e embustes a seu gado cativo, que zurra e aplaude”).

Os nomes e os adjetivos também regem preposições (opção por; suscetível de; compromisso com; dependência para com etc.), mas é a regência verbal a que sempre tem merecido mais atenção da parte da tradição gramatical e das instâncias normativo-prescritivas: qual é a gramática ou livro didático que não traz sua tabela de regências verbais “corretas”? Tabelas, aliás, que se repetem há décadas, prova evidente de que, se uma regra gramatical não encontra eco na intuição linguística das falantes, é porque a língua mudou, e não adianta tentar ressuscitar pterossauros fossilizados.

Sim, as regências verbais mudam, como muda tudo o que existe na língua com o passar do tempo, por obra e graça do uso intenso e ininterrupto que cada uma de nós e todas nós juntas fazemos dela. Muito tempo atrás, por exemplo, se dizia “resistir o inimigo” e não “resistir ao inimigo” como dizemos agora. O mesmo com “perguntar alguém”, “merecer de alguma coisa”, “jurar de alguma coisa” entre várias outras que hoje soam estranhíssimas aos nossos ouvidos.

Por que a língua muda? Porque não é a língua que muda: somos nós, falantes, que mudamos a língua. E por que mudamos a língua? Porque nós não falamos a língua simplesmente: o tempo todo, nós analisamos e reanalisamos a língua que falamos – sem ter consciência disso, é claro. Fazemos inferências, deduções, abduções, metáforas, metonímias, analogias, hipercorreções, gramaticalizações… toda uma coleção de processamentos cognitivos que são misteriosamente ativados e compartilhados por toda a comunidade falante. O que uma tradição empedernida insiste em chamar de “erro” é, de fato, o resultado de algum ou mais de um desses processamentos. E a água mole da mudança vai batendo tanto na pedra dura da norma-padrão (ou pedrão?) tradicional até que ela se fura e deixa escoar a novidade: os bons dicionários aceitam hoje em dia sem problema a regência “o artigo visa discutir o problema...” sem o a da regência mais antiga (“o artigo visa a discutir o problema...”), a regência implicar em, namorar com, e falta um fio de cabelo para aceitar de vez o assistir o filme (espero ainda estar no planeta para assistir esse espetáculo!).

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De vacinas, vacas e demais bovinos

Vacinas

 

Uma vez, li numa crônica que as palavras são vagalumes nas sombras. Desde o profundo de nossas gargantas, elas iluminam séculos de conversas e, no timbre infantil de uma criança que está aprendendo a falar, escutamos vozes antiquíssimas, milenares. Neste final de 2020, os informativos do mundo inteiro ecoam a palavra vacina, vacuna, vaccin, vaccine, vaccino, Vakzine, vakcína e outros cognatos parecidos. No início de novembro, a farmacêutica Pfizer anunciou os resultados preliminares de sua vacina, que imuniza contra o coronavírus em 90% dos casos. O composto da farmacêutica estadunidense, fabricado em parceria com a empresa alemã BioNTech, ainda precisa ser aprovado, mas as primeiras doses poderiam chegar em janeiro de 2021. Sabemos que essa não é a única vacina que está sendo desenvolvida no momento e, de fato, há mais de trezentos projetos em curso. Todos eles compartilham um mesmo ponto de partida: injetar partes do vírus (proteínas, patógeno inativado, fragmentos de RNA) para que nosso organismo as detecte e produza defesas, anticorpos. Este é, de fato, o princípio geral de qualquer vacina.

 

Na década de 1780, o médico britânico Edward Jenner (1749-1823), que na época recebia o nome de physician, observou as mulheres camponesas que tinham contato com as vacas ao ordenhá-las. Com alguma frequência, elas se infectavam com uma doença desses animais, a varíola bovina (variolae vaccinae), o que provocava nelas umas incômodas chagas nas mãos e nos braços, mas que, de nenhum modo, as levaria à morte. A varíola bovina, ou cowpox, era um vírus muito menos perigoso do que seu primo, o da varíola humana (variola major), que produz chagas por todo o corpo e mata aproximadamente um terço de seus hóspedes, principalmente crianças. Observando e conversando com aquelas jovens vaqueiras, o médico desenvolveu uma técnica para prevenir a doença mortal: injetando nas pessoas o vírus da varíola bovina conseguia que elas se tornassem imunes à varíola humana. O saber ancestral das mulheres camponesas se transformou em ciência, capaz de ser levada a sério pelas instituições sanitárias públicas da Inglaterra, e valeu a fama de Edward Jenner. Aquele composto feito com o vírus bovino recebeu o nome de vaccine em inglês, e assim foi produzida a primeira vacina do Ocidente. Mais tarde, o químico francês Louis Pasteur  (1822-1895) aplicaria o mesmo princípio para prevenir outros vírus, estendendo o uso do termo.     

 

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Dez presentes perfeitos para os amantes de livros de linguística e língua portuguesa

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A Parábola preparou uma lista de dez presentes perfeitos para você aproveitar a Black Week da Parábola e presentear os amantes da língua e da linguagem com livros de linguística e língua portuguesa.


1. Assinatura-presente Clube Parabólicos

Essa dica é a primeira porque vale ouro. Você pode dar de presente uma caixinha do nosso clube exclusivo com livros de linguística no mês de aniversário das pessoas de quem gosta. Nela são enviados: um lançamento da Parábola, um marcador magnético e um voucher de 30% de desconto para os produtos do nosso site. Quer arrasar com um presente diferentão? Esse é de arrasar!

 

2. Curso - Variação linguística e ensino com Marcos Bagno

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BLACKFRIDAY NA PARÁBOLA

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 Um final de semana de ofertas para uma vida inteira de conhecimento

Há alguns anos, a tradição da Black Friday começou no Brasil. Vai chegando o fim do ano e muita gente fica ansiosa para aproveitar as promoções. Todo mês de novembro, as lojas se preparam para conquistar os clientes com bons descontos e os consumidores se preparam para a busca do melhor preço.

Independentemente do seu perfil, vale muito a pena continuar a leitura e descobrir as boas oportunidades que preparamos.

Mas, afinal, o que é a Black Friday?

A Black Friday é um evento que teve origem nos Estados Unidos. Ela acontece no final de novembro porque ficou definida para acontecer um dia depois do Dia de Ação de Graças desse país (o universalmente conhecido Thanksgiving Day), ou seja, celebra-se no dia seguinte à quarta quinta-feira de novembro. É a temporada que inaugura as compras natalinas com grandes promoções.

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História das línguas, histórias da linguística

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História das línguas, histórias da linguística é um convite expresso para uma festa de aniversário: os 70 anos de Carlos Alberto Faraco, completados em maio de 2020. A pandemia nos forçou a adiar a comemoração, mas aqui estamos nós, num ato raro dentro de nosso cronograma de publicações: promovendo uma celebração, provocando uma pausa para fazer uma homenagem.

Carlos Alberto Faraco é um autor que dispensa apresentações junto aos leitores da Parábola Editorial. Sim, do ponto de vista da persona autoral isso é verdade. Já do ponto de vista pessoal, ele merece ser mais conhecido. Leiam o trecho a seguir para verem um aspecto pessoal que se tornou princípio de ação:

[…] fui sendo levado ao passado para melhor sustentar meus argumentos. Penso que, como saldo desses anos de pesquisa, tenho conseguido oferecer à área um conjunto de informações importantes para nossos debates contemporâneos. Me incomodam muito certos discursos que, por falta de uma perspectiva histórica, se alardeiam como grandes novidades. O conhecimento histórico nos relativiza e nos chama à humildade intelectual (Carlos Alberto Faraco, 2020, “Depoimento pessoal”).

Essa “questão” pessoal é de tamanha importância que passou a ser assumida como orientação programática pelos grupos de pesquisa e de ensino que contam Faraco entre seus colaboradores. E também passou a ser uma das linhas de publicação da Parábola Editorial. Como nosso homenageado, temos completa convicção de que o conhecimento da história da língua portuguesa e de nossa história social, política e econômica pode nos levar a um mais alto patamar de conhecimento e de comprometimento com nosso papel na construção da sociedade que desejamos ver instalada no Brasil: democrática e inclusiva. Se vocês olharem para nossos lançamentos verão esse viés editorial claramente.

Por conta de nossa identificação com aquilo que aqui chamamos de “o princípio histórico” de nosso autor e de nossa convicção da urgência de iluminar as ideias centrais de sua obra e pensamento, abrimos duas exceções para fazer chegar essa obra histórica a vocês [uma vez que só podíamos celebrar os 70 anos de Faraco com vocês nas páginas de um livro]:

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A Parábola Editorial finalmente eletrônica

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Marcos Marcionilo

O livro digital sempre levantou muitas questões e continua a fazê-lo. De todos os teores. Da paginação ao DRM. Por causa de tantas questões é que vimos, aqui na editora, refletindo sobre a conversão [termo bem polissêmico, simultaneamente religioso e técnico…] de nosso catálogo ao formato digital desde o final da primeira década dos anos 2000. Andréia Custódio e eu, sócios igualitários na editora, sempre olhamos para o alto, para baixo, para os lados, para dentro, tentando decifrar as sempre densas nuvens do mercado editorial brasileiro em busca do momento propício para a incontornável conversão digital de nossos títulos [sempre soubemos que essa medida seria inevitável]. Várias agregadoras nos procuraram nesses dez anos de ‘discernimento’ [para usar uma palavra antiga e também religiosa!], mas o que todas elas iam semeando em nosso espírito eram dúvidas, dúvidas e mais dúvidas.

E o tempo passando [vocês têm também a sensação de que o tempo se acelera?], as questões se avolumando, e a gente olhando para o mercado em busca de mensurar qual a aceitação, qual a presença, qual a participação dos livros digitais no total de aquisição de títulos. Nossa base de leitores nunca manifestou, em porcentagem significativa, ter aderido ao livro nesse formato. Todas as consultas sobre títulos digitais vinham sempre [nesses anos todos] de poucos leitores, especialmente de outros países: professoras brasileiras de português como segunda língua, professores estrangeiros de português em busca de material, linguistas pesquisando em língua portuguesa, sempre poucos e localizáveis, mas já uma força pressionando em favor da conversão.

Outro fator latente no nosso ‘discernimento’ de tantos anos era o fundo de catálogo. Como estamos editando desde 2001, temos os livros que permanecem como de interesse para a maior parte de nosso público [e seguem sendo reimpressos, mesmo em tiragens menores] e aqueles que perdem público horizontalmente, mas subsistem como leitura necessária para especialistas. Esses constituem o “fundo de catálogo”. Por aí começamos. Ali por 2012, pedimos autorização aos autores com obras de fundo de catálogo para a digitalização desses títulos. Todos aceitaram imediatamente, mesmo porque, àquela altura, esperávamos que os e-books viriam a se tornar, em circulação e vendas, mais percentualmente expressivos do que jamais vieram a ser. Contudo, já tínhamos ali contratos que nos permitiam adentrar os novos tempos: a tão falada era digital.

Vão vendo…

E então MarcosBagno e Orlene Carvalho surgem com um título “brasileño” que, por sua concepção mesma, não funciona cem por cento em papel e funcionará melhor simultaneamente em papel e em formato digital: A Gramática brasileña para hablantes de español [2015]. Naquele momento, pensamos que a demanda por esse título específico se faria sentir mais em formato digital, levando-nos ao momento da conversão. Mas ela não aconteceu àquela altura. O livro seguiu então sua carreira em papel, circulando prioritariamente no Brasil, a despeito de seu potencial de mais amplo alcance.

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A EVOLUÇÃO DAS FORMAS GRAMATICAIS

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A evolução das formas gramaticais reúne os principais textos sobre linguística geral escritos pelo linguista francês Antoine Meillet (1866-1936). Marcos Bagno organizou essa edição inédita no Brasil, selecionando, traduzindo e comentando cada um dos textos por ele escolhidos para essa edição inédita. Temos aqui uma contribuição fundamental para a fundamentação e o avanço dos estudos linguísticos no Brasil.

Meillet, o propositor do termo gramaticalização, nunca escreveu um grande manual de linguística geral. Sua preferência foi sempre publicar análises de temas específicos no formato de artigos para diversas revistas acadêmicas. Do conjunto desses artigos, é possível deduzir princípios para uma linguística geral, em particular para o estudo da mudança linguística. E tais princípios são balizas que mantêm heuristicamente vivo o pensamento de Meillet, em especial para o enfrentamento das complexas relações língua e sociedade.

Desde o nascimento da linguística moderna, aparecem duas tendências: uma que consiste em acentuar essencialmente a forma da língua e outra que insiste em suas funções sociais. Para além dessa ruptura, naqueles primeiros anos do século XX, aparecem na Europa, singularmente na Europa francófona, dois paradigmas diferentes: um que, a partir de Saussure, conduzirá ao estruturalismo, e outro que, a partir dos autores que evocamos, conduzirá à abordagem sociológica dos fatos de língua.

Contudo, a situação hoje é muito diferente da que Meillet podia imaginar. A linguística como “ciência social” não se constituiu, ela sofre de uma espécie de babelismo, de divisões bizantinas entre sociolinguística, psicolinguística, antropologia linguística etc., sendo o conjunto abrigado no balaio de gatos chamado “ciências da linguagem”. Meillet não queria criar, ao lado da linguística, outra ciência, a sociolinguística, mas queria que a linguística assumisse seu estatuto de ciência social. O que realmente não se deu…

Antoine Meillet foi o pensador que, na virada do século XIX para o XX, mais claramente estabeleceu as bases gerais de uma linguística que integrasse fatos sistêmicos (puramente linguísticos) e fatos sociais. As coordenadas de seu pensamento, se ficaram à margem das principais tendências da linguística durante algumas décadas, foram relidas e retomadas na criação e desenvolvimento da sociolinguística, em especial na teoria proposta por Labova partir da década de 1960.

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O que eles buscam em nós

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Mensagem aos Professores no atípico ano pandêmico de 2020

Celso Ferrarezi

Em 1985, a direção da escola de educação básica em que eu trabalhava, ali naquela periferia de uma cidade amazônica, me lotou para substituir uma professora que tinha sido afastada por estar enfrentando problemas com o alcoolismo. Havia, ainda, o complicador de essa professora morar no bairro da escola e, algumas vezes, ser vista pelos alunos caída na sarjeta nos finais de semana ou indo alcoolizada trabalhar. Era uma 2ª série fundamental (naquele tempo, uma classe com alunos de 8 anos de idade).

Passados alguns dias na regência da sala, uma aluninha muito pequenininha chamada Amanda, na hora em que todos estavam copiando as tarefas da lousa, se levantou quietinha e veio se achegando até a minha mesa daquele jeito manhoso que só os gatos — e as crianças pequenas — desejosos de alguma coisa, conseguem ter, aquele jeito manhoso de quando se esfregam em nossas pernas. Ela primeiro se encostou em mim, depois me abraçou e, depois de alguns segundos, me disse:

— Ainda bem que agora a gente tem professor...

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10 livros de linguística que não podem faltar na estante do professor de português.

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Esses dias, leitores da Parábola Editorial declararam nas redes sociais, com fotos de suas estantes, a proximidade existente entre a editora e seu público. Essas demonstrações espontâneas nos alegram, nos impulsionam, mas, acima de tudo, nos fazem refletir sobre nossa responsabilidade com a formação de professores de linguagens e de pesquisadores no campo dos estudos linguísticos no Brasil. Essa responsabilidade nossa também significa apresentar ao público que ainda não nos conhece [tão vasto ainda!] alguns [alguns, apenas] dos nossos títulos que não podem faltar na sua estante. Venha conosco:

1- Gramática Pedagógica do Português Brasileiro, de Marcos Bagno

Essa obra é fonte de muito conhecimento para a formação de docentes em língua materna, para que as professoras e os professores de português e de outras disciplinas conheçam mais profundamente e com melhores bases teóricas o seu objeto de trabalho, o português brasileiro. Não se deve ensinar gramática na escola (no sentido tradicional de “gramática”), mas quem vai ensinar na escola deve conhecer muito bem a gramática da língua. 

(Acesse essa obra aqui)

2- Aula de português, de Irandé Antunes

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