Blog da Parábola Editorial

Blog da Parábola Editorial

Marcos Bagno é professor da Universidade de Brasília (UnB) e pesquisador associado do Instituto da Língua Galega, da Universidade de Santiago de Compostela. Escritor, poeta e tradutor, se dedica à pesquisa e à ação no campo da educação linguística, com interesse particular no impacto da sociolinguística sobre o ensino. Colabora em diversos...

Marcos Bagno é professor da Universidade de Brasília (UnB) e pesquisador associado do Instituto da Língua Galega, da Universidade de Santiago de Compostela. Escritor, poeta e tradutor, se dedica à pesquisa e à ação no campo da educação linguística, com interesse particular no impacto da sociolinguística sobre o ensino. Colabora em diversos meios de comunicação; é constantemente convidado a fazer conferências e a ministrar cursos no Brasil, na Argentina, no Uruguai, no Paraguai, na Espanha, na Itália, Colômbia e México. Tem diversos livros publicados, entre os quais se destacam A língua de Eulália – novela sociolinguística; Preconceito linguístico. – o que é, como se faz; Português ou brasileiro? Um convite à pesquisa; Língua materna – letramento, variação e ensino; A norma oculta – língua & poder na sociedade brasileira;Nada na língua é por acaso – por uma pedagogia da variação linguística; Não é errado falar assim – em defesa do português brasileiro;Gramática pedagógica do português brasileiro; Gramática de bolso do português brasileiro.

Mais

A língua não é um organismo vivo!

blog20_4

Um argumento que aparece com frequência quando as pessoas querem criticar o discurso purista que vocifera contra as mudanças e as inovações na língua é dizer que a língua é um “organismo vivo” e, por isso, está sempre em transformação, “evoluindo”. A militância contra o purismo é sempre bem-vinda, até porque o reacionarismo linguístico é com frequência a face visível de uma concepção de sociedade em que os indivíduos ou os grupos sociais também são classificados como “certos” e “errados”, “bons” e “ruins”, “santos” e “pecadores” etc. No entanto, por mais bem intencionada, essa comparação da língua com um organismo vivo presta mais desserviço do que ajuda. Como sempre, um pouco de história faz bem.

Durante uns bons dois mil anos, desde a filosofia grega mais antiga, a maior parte das reflexões sobre as línguas no Ocidente se articularam em dois eixos: a gramática e a lógica. Os antigos acreditavam que o funcionamento da mente (psyche) estava refletido no funcionamento da língua (logos), que por sua vez refletia o funcionamento do mundo natural (physis), que refletia por fim a organização do universo (kosmos). Nossos antepassados gregos eram fãs da simetria (palavra grega, aliás), e tentavam encontrá-la em todos os aspectos da vida, do visível, do invisível, do falável e do pensável. Mas também tinham um grande apreço pela correção, pela forma justa e perfeita das coisas, uma ideia contida na palavra orthos (“reto, correto”) que encontramos em palavras como ortografia, ortodoxia, ortodontia etc. Desse modo, não interessava a eles estudar a língua e a mente em todas as suas modalidades de funcionamento, mas somente naquilo que fosse considerado correto, claro, bem definido etc. Daí surgiram as disciplinas chamadas gramática, que define o que é certo na língua, e lógica, que define o modo certo de raciocinar. A gramática seria então a lógica da língua, enquanto a lógica seria a gramática do raciocínio. Essa concepção das coisas é tão bonita, tão bem esculpida que a gente acaba se apaixonando por ela e esquecendo que é falsa. E é falsa justamente porque é normativa, isto é, não se interessa pelo que as coisas são, mas pelo que elas deveriam ser, segundo concepções muito restritas, condicionadas pelo lugar, pela época, pelas crenças, pelas divisões sociais etc.

Uma coisa interessante na palavra lógica é que ela deriva de logos, um termo cujos sentidos foram se complicando com o passar dos séculos, mas que, em sua origem mais original, mesclava pensamento e linguagem: o logos era “palavra”, mas também “razão”. De fato, já na Grécia clássica (séculos 5 a 3 antes da nossa era), logos era o “enunciado dotado de sentido” (e no grego bíblico se tornou nada menos que a Palavra divina, o Verbo divino). Aqui se vê bem a ideia de que língua e pensamento (logos e... logos) eram o verso e o reverso de uma mesma folha de papel. 

Essa associação gramática-lógica imperou durante muitos e muitos séculos. Foi abandonada na linguística moderna, mas suas raízes estão bem firmes no senso comum, contaminado pelo vírus da normatividade. Muita gente condena determinadas construções sintáticas porque estariam contrariando a “lógica” da língua. Eu não posso dizer “vou ir” porque isso fere essa tal lógica, afinal “vou” já tem em si a ideia de “ir”. Mas essa é uma análise furada, aliás nem análise é. O vou de “vou ir” é uma mera partícula indicadora de futuro, já se esvaziou semanticamente da ideia de “ir”. Engraçado é que ninguém vê como “ilógicas” construções como “vou voltar” ou “vou ficar”. Enfim, essa é a primeira definição equivocada de língua que se fixou no imaginário ocidental: a língua como um conjunto de “regras lógicas”. De resto, o importante linguista francês Émile Benveniste (1902-1972) mostrou que a lógica clássica era simplesmente uma transferência, para a análise do raciocínio, das categorias gramaticais da língua grega. Se Aristóteles falasse húngaro, tupi ou malaio, sua lógica seria completamente diferente!

Toda essa longa tradição vai ser abalada e abandonada em boa parte no século 19, quando nasce a ciência chamada linguística. A constatação definitiva de que a maioria das línguas faladas na Europa eram aparentadas entre si e também tinham vínculos genéticos com muitas línguas faladas no atual Irã e na Índia, entre outros lugares, revolucionou os estudos linguísticos. Uma ciência, pensavam os linguistas do século 19, tem que se interessar por tudo o que existiu e existe numa língua, independentemente de ser certo ou errado, bonito ou feio, “lógico” ou “ilógico” etc. Nisso tentaram acompanhar os outros cientistas, cuja áreas específicas começavam também a se constituir naquele período: um geólogo não vai estudar só as pedras preciosas ou as que ele considera mais bonitas, vai estudar todos os fenômenos que dizem respeito ao mundo mineral. Foi desse modo que a gramática foi substituída pela linguística, enquanto a antiga lógica clássica foi substituída pela psicologia, a ciência que se interessa por tudo o que se processa na mente humana, e não apenas pelos modos de raciocínio corretos, regrados etc. Mas a entrada em cena da psicologia como auxiliar da linguística só aconteceu no final do século 19, lá pelos anos 1870. Antes dela, quem fez um belo estrago na linguística foi a biologia ou, melhor, uma apropriação bem indevida da biologia...

Continuar lendo
  6805 Acessos
  0 comentários
6805 Acessos
0 comentários

Hermann Paul, pioneiro da linguística moderna

Hermann_Pau_20210225-122356_1

A narrativa dos progressos científicos precisa ser periodicamente reavaliada, criticada e, se for o caso, refeita. Afinal, como diz o provérbio, quem conta um conto aumenta um ponto, e esse ponto vem sempre desenhado pela inescapável ideologia. E foi bem isso o que aconteceu na virada do século 19 para o 20. E, ao contrário do clássico de Marx e Engels, A ideologia alemã, aqui vamos falar de uma ideologia antialemã.

Em 1864, a Prússia (ancestral da Alemanha) promoveu uma guerra contra a Dinamarca, da qual saiu vitoriosa. Em 1866, venceu a Áustria em outra guerra. E em 1870-1871, foi a vez de combater a França, que se viu derrotada e humilhada com a ocupação de Paris. Mais adiante, a Alemanha, já unificada, promoveu a Primeira e, bem depois, a Segunda Guerra Mundial. Tudo isso fez surgir e crescer, na Europa ocidental, um forte sentimento antigermânico. Ora, o século 19 foi totalmente dominado, no campo dos estudos linguísticos, por estudiosos de língua alemã. Isso se deveu, em boa parte, ao desenvolvimento de um importante sistema universitário, que resultou na institucionalização de diversas áreas do conhecimento, entre elas a Sprachwissenschaft, “ciência da linguagem”, que em outros idiomas veio a se chamar linguística. Há exatos duzentos anos, em 1821, o grande pioneiro dos estudos histórico-comparatistas, Franz Bopp (1791-1867), se tornou o primeiro ocupante de uma cátedra de linguística numa instituição acadêmica, a recém-fundada Universidade de Berlim. Enquanto em outros países os intelectuais e cientistas tinham de se virar sozinhos para pesquisar e publicar seus trabalhos (pensemos, por exemplo, em Darwin, que nunca atuou numa universidade), em terras alemãs, a instituição universitária lhes garantia boas condições de trabalho e de subsistência. Assim, os nomes que brilharam na linguística do século 19 compõem uma lista quase toda de sobrenomes alemães: Schlegel (dois irmãos), BoppHumboldtSchleicherGrimm (dois irmãos), BenfeyPottMüllerSchuchardtOsthoffBrugmannCurtiusSieversPaul e por aí vai. Mesmo os não alemães que se destacaram nesse campo fizeram seus estudos na Alemanha, como o estadunidense William D. Whitney e, claro, o suíço Ferdinand de Saussure.

É fácil então levantar a hipótese (tão ideológica quanto qualquer outra) de que os estudiosos da linguagem, no início do século 20, queriam se desembaraçar do predomínio alemão, desejo que refletia o impregnado sentimento antigermânico que mencionei acima. Quando, em 1916, os alunos de Ferdinand de Saussure publicaram o Curso de linguística geral, aquele desejo pareceu milagrosamente satisfeito: quem melhor do que um recatado professor suíço (ou seja, da terra da “neutralidade”) de língua francesa para ser mitificado como o “pai da linguística moderna”, um pensador cuja (suposta) originalidade faria a linguística alemã do século anterior se tornar obsoleta e anacrônica da noite para o dia? Não admira que somente a partir da segunda edição do Curso, em 1922 (ou seja, no período entre as duas guerras mundiais), o livro que Saussure não escreveu tenha começado a ser visto como a bíblia da tal linguística moderna. E assim tem início a narrativa laudatória que até hoje todos escutamos (e reproduzimos) em nossas aulas de introdução à linguística de tantas e tantas universidades. No entanto...

No entanto, no subsolo do Curso de linguística geral se agitam, invisíveis, as verdadeiras fontes das teses apresentadas na obra como originais e inovadoras, fontes que, entretanto, nunca são mencionadas (o livro nem sequer traz uma bibliografia no final!). E uma das mais notáveis dessas fontes é a obra do linguista (surpresa!) alemão Hermann Paul (1846-1921), cujo centenário de morte se completa este ano. O livro que Paul, sim, escreveu e publicou em 1880, Prinzipien der Sprachgeschichte (“Princípios de história da língua”), foi, durante quarenta anos, a leitura obrigatória, o manual básico para qualquer pessoa que se aventurasse nos estudos linguísticos. Fosse para adotar a teoria ali exposta ou para rejeitá-la, a obra de Paul se tornou incontornável. O livro teve três edições posteriores (1886, 1898 e 1920), sempre com acréscimos e retificações, o que demonstra o desenvolvimento constante do pensamento do autor. 

Quando comparamos os Prinzipien de Paul com o Curso atribuído a Saussure, o que logo chama a atenção é a profundidade e a sofisticação das teses de Paul, que contrastam com a pobreza e a superficialidade de temas abordados no Curso. De fato, o Curso não vai além de uma linguística da palavra (o tal signo linguístico que, ao fim e ao cabo, a gente nunca sabe exatamente o que é), enquanto Paul dedica vários capítulos ao estudo da morfossintaxe, que é o núcleo duro do estudo do funcionamento das línguas humanas. A crítica textual acaba também por revelar, no Curso, um grande número de paráfrases, quando não de traduções literais do que aparece no livro de Paul publicado, é sempre bom lembrar, 36 anos antes. Vamos mostrar apenas algumas delas.

Continuar lendo
  3493 Acessos
  0 comentários
3493 Acessos
0 comentários

Norma culta para quem, cara-pálida?

DE-TANTO-LEVAR-650x427

O debate em torno da norma linguística no Brasil está inevitavelmente vinculado ao tipo de sociedade que é a nossa, de modo que, na prática, fica impossível tratar de temas relacionados à língua sem tratar, junto com eles, de fatores socioeconômicos e, por tabela, políticos. Isso vale, claro, para todas as sociedades humanas, porque as línguas são, por sua própria natureza sociocultural, campos de batalhas permanentes, mas em cada uma delas os conflitos linguísticos assumem características próprias, específicas à formação histórica e à estrutura social de cada lugar. Num país marcado por alguns dos índices de desigualdade e injustiça mais perversos do planeta, o que vou chamar aqui de debate normativo (melhor talvez fosse embate, já que falei de campos de batalha) tem que se articular com o exame atento da nossa estrutura social.

Depois da assim chamada independência, em 1822, a reduzida elite intelectual — masculina, branca e escravagista — se divertiu com a chamada “questão da língua brasileira”, um jogo de salão que, por isso mesmo, nunca alterou de fato as relações sociolinguísticas do país: o padrão vigente em Portugal, de inspiração literária “clássica”, preservou seu estatuto de única forma de língua “certa” (ou “legítima”, conforme a definição de Pierre Bourdieu), de único objeto de ensino, até porque o ensino era privilégio daquela mesma reduzida elite. A ideia de que a imensa maioria da população brasileira falava “errado” não sofreu abalo — sobretudo porque essa imensa maioria era afrodescendente, o que já a relega(va) ao subsolo da pirâmide das classes sociais, e seus modos de falar eram considerados, logo (e literalmente) de cara, toscos e indignos do rótulo de “língua”.

Um século depois, com os modernistas, ressurgiu o desejo de valorizar o português brasileiro, principalmente em suas características “populares”. Não por acaso, o principal porta-voz desse desejo foi Mário de Andrade (1893-1945), mestiço e homossexual, minoria absoluta num meio intelectual, mais uma vez, essencialmente branco, heteronormativo e de classe média para alta. Mas foi um movimento de literatos, não de pessoas dedicadas especificamente ao estudo das línguas (aqui, de novo, se destaca Mário que, além de poeta, romancista e contista, também se dedicou a pesquisas etnográficas sobre as manifestações culturais brasileiras de todas as regiões, com destaque para as de matriz indígena e africana).

Dando um salto no tempo, chegamos ao final da década de 1960, muito importante para os estudos ditos “científicos” das línguas, uma vez que a disciplina Linguística foi introduzida nas principais universidades do país em 1961. Com isso, o debate normativo adquiriu um caráter novo, pois deixou de ser reservado aos filólogos de formação tradicional, aos gramáticos prescritivistas, e se abriu para discussões embasadas nas teorias linguísticas que vigoravam na época (estruturalismo clássico, bem consolidado, e estruturalismo gerativista e sociolinguística, em seus primórdios). Em 1969 tem início o Projeto NURC (Norma Urbana Culta) que visava descrever as variedades urbanas do português brasileiro, tendo como informantes as pessoas consideradas “cultas”, isto é, nascidas e criadas em grandes ambientes urbanos e com curso superior completo. O enorme volume de dados acumulados pelo NURC permitiu, décadas depois, a produção da Gramática do português culto falado no Brasil, um empreendimento monumental, levado a cabo por dezenas de linguistas de diferentes centros de pesquisa e de diversas filiações teóricas.

A verificação empírica das profundas diferenças existentes entre o padrão normativo convencional e a língua realmente empregada pelas pessoas cultas levou várias e vários linguistas a questionar a validade daquele padrão como objeto e objetivo do ensino de língua na escola. Se existe uma autêntica norma culta brasileira, por que não fazer dela a base de uma nova educação linguística no país, decerto mais democrática, uma vez que essa norma era bem menos “estrangeira” à cidadã e ao cidadão comuns do que o anacrônico padrão, tão apegado à língua literária e à fala portuguesa?

Continuar lendo
  6149 Acessos
  0 comentários
6149 Acessos
0 comentários

Quem rege a regência verbal?

regência

AGRADECER E PERMITIR

Regência é um termo da doutrina gramatical que significa a dependência existente entre duas palavras numa construção, de modo que uma complementa a outra. Uma das palavras “manda” na outra, por isso se usa o verbo reger, que é o que fazem (ou faziam) os reis. Por exemplo, o verbo servir pode reger as preposições a (“ele serve à causa da milícia, à qual pertence”), de (“o presidente serve de pau-mandado ao empresariado que quer destruir os direitos trabalhistas”), para (“o atual presidente só serve para ser jogado no lixo da história”), ou preposição nenhuma (“ele serve mentiras e embustes a seu gado cativo, que zurra e aplaude”).

Os nomes e os adjetivos também regem preposições (opção por; suscetível de; compromisso com; dependência para com etc.), mas é a regência verbal a que sempre tem merecido mais atenção da parte da tradição gramatical e das instâncias normativo-prescritivas: qual é a gramática ou livro didático que não traz sua tabela de regências verbais “corretas”? Tabelas, aliás, que se repetem há décadas, prova evidente de que, se uma regra gramatical não encontra eco na intuição linguística das falantes, é porque a língua mudou, e não adianta tentar ressuscitar pterossauros fossilizados.

Sim, as regências verbais mudam, como muda tudo o que existe na língua com o passar do tempo, por obra e graça do uso intenso e ininterrupto que cada uma de nós e todas nós juntas fazemos dela. Muito tempo atrás, por exemplo, se dizia “resistir o inimigo” e não “resistir ao inimigo” como dizemos agora. O mesmo com “perguntar alguém”, “merecer de alguma coisa”, “jurar de alguma coisa” entre várias outras que hoje soam estranhíssimas aos nossos ouvidos.

Por que a língua muda? Porque não é a língua que muda: somos nós, falantes, que mudamos a língua. E por que mudamos a língua? Porque nós não falamos a língua simplesmente: o tempo todo, nós analisamos e reanalisamos a língua que falamos – sem ter consciência disso, é claro. Fazemos inferências, deduções, abduções, metáforas, metonímias, analogias, hipercorreções, gramaticalizações… toda uma coleção de processamentos cognitivos que são misteriosamente ativados e compartilhados por toda a comunidade falante. O que uma tradição empedernida insiste em chamar de “erro” é, de fato, o resultado de algum ou mais de um desses processamentos. E a água mole da mudança vai batendo tanto na pedra dura da norma-padrão (ou pedrão?) tradicional até que ela se fura e deixa escoar a novidade: os bons dicionários aceitam hoje em dia sem problema a regência “o artigo visa discutir o problema...” sem o a da regência mais antiga (“o artigo visa a discutir o problema...”), a regência implicar em, namorar com, e falta um fio de cabelo para aceitar de vez o assistir o filme (espero ainda estar no planeta para assistir esse espetáculo!).

Continuar lendo
  6288 Acessos
  0 comentários
6288 Acessos
0 comentários

O QUE EXISTE OU NÃO EXISTE NUMA LÍNGUA?

Untitled-design---2020-07-21T125716.670

Marcos Bagno

Quando se trata de falar sobre a língua, o verbo existir pode ter dois sentidos muito diferentes. A pessoa que se guia pelo purismo linguístico (uma espécie de racismo gramatical, nada menos), quando topa, por exemplo, com uma construção do tipo pra mim fazer, exclama categoricamente: “Pra mim fazer não existe em português!”. Não importa que a imensa maioria da população brasileira use essa construção: o fato de não estar prevista na (limitadíssima e paupérrima) norma-padrão convencional é suficiente para decretar sua inexistência. Me divirto muito com isso. Se a coisa “não existe”, para que então afirmar essa não-existência? Tá lá no Freud, e se chama denegação. Se o Antigo Testamento precisou condenar a homossexualidade é porque ela existia, sim, alegre e saltitante, na sociedade hebraica daquela época. Afinal, ninguém precisa dizer que não existem elefantes na Amazônia: se fôssemos listar todas as espécies animais que não existem lá, estaríamos fazendo um trabalho inútil e, convenhamos, ridículo.

Por outro lado, quando uma linguista diz que determinada categoria gramatical (ou qualquer outro elemento) não existe numa língua, ela está enunciando aquilo que a pesquisa acumulada a respeito do fenômeno permite concluir. Não se trata de listar todas as categorias gramaticais que não existem numa língua, mas de procurar entender, num quadro mais amplo de comparação, sobretudo entre línguas aparentadas, por que aquela categoria específica, se algum dia existiu, desapareceu devido aos processos de mudança linguística. Além disso, quando a linguista diz que X não existe, ela está se referindo à língua falada espontânea, ao discurso menos monitorado possível, porque é nessa modalidade de uso que se pode realmente detectar com certeza a gramática internalizada das pessoas que falam, bem como os processos de mudança em andamento. E é precisamente disso que quero tratar aqui hoje: da inexistência, no PB (português brasileiro), de pronomes oblíquos de 3ª pessoa. Já se assustou? Não precisa.

As formas oblíquas de 3ª p. — o, a, os, as — não pertencem à gramática do PB (gramática entendida aqui como o conhecimento intuitivo que cada uma de nós tem da língua que fala). Essas formas só podem ser adquiridas por meio do acesso à cultura letrada, da instrução formal, do ensino consciente da língua. A esse ensino consciente podemos contrapor a aquisição inconsciente da língua, que é o misterioso processo pelo qual aprendemos a falar nossa língua materna (ou línguas no plural, no caso das pessoas sortudas que nascem e crescem em ambientes multilíngues).

Quem nos revela melhor do que ninguém a (in)existência de categorias gramaticais numa língua são as crianças, especialmente as que ainda não tiveram acesso à educação formal. Uma menina de mais ou menos 7 anos já é dotada de um conhecimento fabuloso de sua língua. Se formos coletar a fala espontânea de crianças brasileiras dessa idade, seja de que classe social for, não vamos encontrar absolutamente nenhuma ocorrência de o/a/os/as como pronomes oblíquos. Se, por outro lado, formos coletar a fala de crianças dessa idade que tenham como língua materna português europeu, galego, espanhol, catalão, provençal, francês e italiano (para ficar só nessas línguas do grupo românico), vamos encontrar uma farta ocorrência dos pronomes oblíquos de 3ª p. dessas línguas. A réplica daquela velha parlenda brasileira “— Cadê o docinho que tava aqui? — O gato comeu” seria traduzida em todas essas línguas pelo equivalente a “o gato o comeu”. Se as crianças brasileiras não produzem o/a/os/as é porque não adquiriram esses pronomes no ambiente familiar, e se não adquiriram é porque seus pais, tios, avós etc. não usam esses pronomes. Simples assim.

Continuar lendo
  3133 Acessos
  0 comentários
3133 Acessos
0 comentários

ILUSOFONIA

capa-blog-dia-02-06

Marcos Bagno

 

Resisti um pouco a falar do tal dia mundial da língua portuguesa, até porque esse tipo de ufanismo em torno da língua me dá sonolência (antes me dava irritação, mas com a idade a gente se poupa de sofrer mais que o necessário). Sugiro enfaticamente a leitura do texto do português Nuno Pacheco (https://www.publico.pt/2020/05/07/culturaipsilon/opiniao/lingua-portuguesa-so-sabem-sonho-inquietacao-inquietacao-1915353?fbclid=IwAR1prNiIudoYLzSuveQx7Y7cR7STgpCETgudX3vAi_nfcKRIy6eqoi1delc), que joga o devido balde de água fria nesse oba-oba balofo. O português, de todas as línguas europeias que serviram de veículo para a colonização, a espoliação, o genocídio e a escravização de outros povos durante séculos, é a que tem menos instrumentos linguísticos a seu dispor para uma divulgação efetiva e para o ensino como língua segunda. Inglês, francês e espanhol dispõem de uma riquíssima produção de dicionários (de todos os tamanhos, tipos, formatos e cores; para os mais diferentes públicos-alvo), de livros didáticos para o ensino da língua, muitos produzidos por órgãos governamentais dedicados a isso. O que existe em português, especialmente o português brasileiro, é muito pouco e muito ruim. Das ex-colônias portuguesas, só o Brasil não encabeça a lista dos países mais pobres do mundo, a maioria deles dependentes da ajuda internacional para sobreviver. Nesses países, como bem se sabe (e o ufanismo tenta esconder), o português é língua oficial, sim, mas minoritária e reservada às reduzidíssimas elites nacionais que têm acesso à educação formal. Portanto, essas estatísticas glorificantes que dizem que o português é "falado" em todos os continentes por 250 milhões de pessoas têm de ser olhadas com muita desconfiança: quantas pessoas na África realmente têm plena competência no uso da língua do ex-colonizador? O Brasil sozinho tem 210 milhões desses falantes, de modo que se todas as pessoas no resto do planeta que falam português trocassem de língua, ainda assim o português seria uma das línguas mais faladas do mundo. Só na área metropolitana de São Paulo existe o dobro de falantes que em Portugal inteiro. Mesmo tão grande e tão populoso, o Brasil, em qualquer foro internacional, é só um: em qualquer votação ou deliberação, a simples presença de pequenos países de língua espanhola como Panamá, Costa Rica, Honduras, El Salvador e Cuba já constituiria uma derrota para a reivindicação do português como língua "internacional". Por sua vez, em termos de política linguística, Portugal tem muito mais a dizer a esse respeito do que nós: basta lembrar a existência do Instituto Camões em contraposição a… nada parecido no Brasil. Portugal mantém diversas cátedras e leitorados mundo afora, enquanto os escassos leitorados brasileiros vão se tornando cada vez mais raros. Agora então que as relações exteriores do Brasil, assim como o ministério da educação (ou contra a educação) estão nas mãos de psicopatas de manual, o quadro só tende a piorar. Quanto ao Instituto Internacional da Língua Portuguesa (IILP), como bem lembra Nuno Ramos, serve para nada e não serve para coisa alguma. Por isso sempre tenho dito que a tal da lusofonia é de fato uma "ilusofonia". Muito discurso vazio, muita retórica saudosista, mas nenhum reconhecimento da realidade distópica em que vive a imensa maioria das populações de países que têm o português como língua oficial — só mesmo Portugal apresenta índices de desenvolvimento humanos decentes, enquanto o Brasil, nunca é demais repetir, é um dos países mais covardemente injustos e desiguais do universo conhecido e desconhecido. E agora que é chefiado por uma criatura que reúne em si tudo o que pode haver de pior na espécie humana, uma aberração genética que deveria estar trancafiada numa jaula para servir de cobaia a experimentos científicos, as perspectivas de divulgação da língua são tão sombrias quanto a certeza de que nem os bisnetos dos nossos bisnetos viverão num país minimamente civilizado, em que um jovem negro não seja assassinado a cada 27 minutos ou uma mulher a cada hora e meia. O capitalismo hipersuperultraliberal vai destruindo o planeta a passos rápidos, e a atual pandemia provocada pelo novo coronavírus é a prova mais letal de que a incensada globalização só tem servido para internacionalizar as mazelas e para que um único homem, o dono da amazon.com, tenha em sua conta bancária mais dinheiro que os PIBs reunidos de vários países. No que diz respeito ao ensino do português brasileiro no exterior, o justificado horror que o cenário político (ou apocapolítico) do Brasil desperta na comunidade internacional — e mais gravemente neste exato momento, com um presidente que se vangloria de sua necropolítica e persegue quem tenta combater o genocídio que ele põe em marcha — vai fazendo murchar o já pequeno interesse pela nossa língua. O português, infelizmente, é uma língua em que milhões de pessoas, nas mais diferentes partes do mundo, travam uma luta sem trégua para estarem vivas no dia seguinte. Enquanto for essa a realidade das e dos falantes de português, não vejo nada que justifique uma celebração mundial da língua. E é fácil imaginar a dor que isso causa em alguém que vem dedicando à língua a vida que já foi e a pouca que lhe resta.

 

  3119 Acessos
  1 comentário
Comentários Recentes neste post
Visitantes — Joyce Sanchotene
Esclaredor. Li um dos seus livros. Meus estudos sobre a sociolinguistica não foram muito profundos. Gostei muito.
Terça, 02 Junho 2020 22:24
3119 Acessos
1 comentário

ERRO DE PORTUGUÊS – DE ONDE VEM ESSA IDEIA?

capa-blog

Marcos Bagno

Para se poder falar de “erro” é preciso ter um contraponto, algo para colocar no outro prato da balança, ou seja, aquilo que é “certo”. Só existe “erro” quando se tem o “certo” à espreita por trás do espelho. No nosso caso, o “certo” é o modelo de língua que vem descrito e prescrito nas obras chamadas gramáticas normativas, um modelo de língua que designamos como norma-padrão (que não deve ser confundida com “norma culta”, mas vamos falar disso outro dia).

A norma-padrão que ainda é objeto de descrição e prescrição das gramáticas normativas do português começou a ser codificada em meados do século 19 e se firmou nos finais do mesmo século. O início e a metade do século 19 foram dominados pela ideologia que passou à história com o nome de Romantismo, um movimento literário, musical, mas também filosófico e político. É por isso que, por exemplo, na conhecida gramática assinada pelo brasileiro Celso Cunha e pelo português Luís Felipe Lindley Cintra (Gramática do português contemporâneo, 1985), eles escrevem que vão trabalhar com “a língua como a têm utilizado os escritores portugueses, brasileiros e africanos do Romantismo para cá” — ou seja, língua apenas escrita (nada de estudar a fala), e escrita só por um grupo seleto de falantes.

Desse modo, a norma-padrão é uma entidade linguística congelada no tempo, no espaço e na hierarquia social: fora dela ficaram usos linguísticos anteriores ao século 19 e, claro, também posteriores a ele. Estão aí, portanto, duas das três chaves que nos permitem interpretar a noção de “erro” na língua. Vamos ver.

Uma primeira explicação para a ideia de “erro” se acha numa reação à mudança linguística. Apesar das tentativas e dos esforços dos gramáticos normativos, a língua está sempre em processo de transformação, e isso é inevitável, é da própria natureza das línguas: uma língua, enquanto tiver falantes que a mantenham viva, está sempre mudando (basta comparar a fala, por exemplo, de três gerações de uma mesma família: as transformações saltam aos olhos... ou melhor, aos ouvidos).

Continuar lendo
  5159 Acessos
  0 comentários
5159 Acessos
0 comentários

“ELA TESTOU POSITIVO”: QUE SINTAXE É ESSA?

texto-do-blog-capa

“ELA TESTOU POSITIVO”: QUE SINTAXE É ESSA?

Marcos Bagno

Junto com a disseminação planetária do novo coronavírus, também está se difundindo uma construção sintática que vem sendo usada em várias línguas: testar positivo, como em “ela testou positivo”. Muitas pessoas estão se perguntando de onde vem e se está “de acordo” com a gramática do português. Vamos aproveitar o tempo do nosso necessário, imperativo e incontornável confinamento para refletir um pouco sobre isso.

Trata-se do que a gente chama em linguística de decalque, isto é, a tradução literal de um termo ou construção de uma língua-fonte para uma língua-alvo. Um exemplo seria a locução “ter lugar” (“a reunião teve lugar na última sexta-feira”), decalcada do francês “avoir lieu”, com o sentido de “ocorrer, acontecer” etc.

A construção testar positivo, portanto, é um decalque do inglês to test positive. Esta é uma propriedade sintática da língua inglesa chamada construção resultativa. É uma construção que permite formular uma frase que condensa uma informação a respeito do resultado obtido pela ação desempenhada pelo sujeito. Por exemplo: Peter hammed the can flat. Literalmente: “Peter martelou a lata chata”, mas o que realmente está dito ali é: “Peter martelou a lata até ela ficar achatada”. A construção resultativa tem esse nome justamente porque, repito, expressa o resultado da ação: o resultado de martelar a lata foi ela ficar achatada. Aqui temos um verbo transitivo, isto é, que se complementa com um objeto: martelar a lata. Mas a construção resultativa também pode ter um verbo intransitivo: The lake froze solid, ou seja, “o lago congelou a ponto de ficar sólido”. E é precisamente desse tipo a construção “She tested positive”: “Ela se submeteu a um teste que resultou positivo”. A construção resultativa do inglês, como se vê, permite sintetizar a informação numa frase simples com sujeito+verbo+adjetivo: she + tested + positive.

Continuar lendo
  40530 Acessos
  8 comentários
Comentários Recentes
Visitantes — Matheus Chaud
Bravo, caro Marcos Bagno! Belíssimo texto. Leitura agradável e muito interessante!
Quarta, 01 Abril 2020 00:52
Visitantes — Sérgio Santana
Gente, simplesmente maravilhoso! Parabéns, professor. Bela reflexão!
Quarta, 01 Abril 2020 13:56
Visitantes — Luana De Conto
Oi, professor! Gostei da sua análise mas acho que discordo da afirmação de que "positivo" seja predicativo do sujeito. Como vc mes... Leia Mais
Quarta, 01 Abril 2020 21:40
40530 Acessos
8 comentários

Entrevista com o autor Marcos Bagno.

bagnobjetolingua

 OBJETO LÍNGUA – Inéditos & revisitados

 

- Por que o título Objeto Língua?

MB: A inspiração para o título vem de uma frase do Curso de Linguística Geral de Saussure que ficou muito famosa: “é o ponto de vista que cria o objeto”. É toda uma filosofia da ciência que está embutida nessas poucas palavras. Um geólogo trabalha diretamente com algo que ele pode pegar, tocar, medir, pesar e analisar fisicamente, enquanto um linguista não tem acesso direto à linguagem, “escondida” dentro do funcionamento do cérebro de cada pessoa. Nós somos temos acesso a esses “barulhos” que saem pela boca de um, entram pelo ouvido do outro e, por alguma razão fascinante, fazem sentido, “dizem” alguma coisa. Desse modo, o linguista precisa primeiro “construir” seu objeto de estudo, a língua, porque ela é de natureza completamente diferente de uma pedra, e só depois é que vai poder estudá-la. Assim, se “o ponto de vista cria o objeto”, são muitos os pontos de vista a partir dos quais é possível considerar a língua.

 

Continuar lendo
  18488 Acessos
  0 comentários
18488 Acessos
0 comentários

LINGUÍSTICA E TRADIÇÃO GRAMATICAL

Linguistica-e-tradicao-gramatical

QUER QUE EU TE EXPLICO?

 

Poucas pessoas têm ideia do que significa ser um linguista e, mesmo entre elas, muitas costumam achar que os linguistas “combatem” a tradição gramatical e são a favor do “vale-tudo” na língua. Essa é uma concepção distorcida. Seria o mesmo que dizer que o geólogo “defende” os terremotos e as erupções vulcânicas pelo simples fato de estudar esses fenômenos. O antropólogo que estuda as diversas convenções culturais relacionadas à sexualidade (que incluem a poligamia, o incesto, o celibato forçado, a castração, a infibulação etc.) não está “defendendo” nenhuma delas, mas apenas registrando e analisando sua existência, sejam elas consideradas “certas” ou “erradas” pelo código moral da sociedade a que ele mesmo pertence. 

 

Costumam achar que os linguistas “combatem” a tradição gramatical e são a favor do “vale-tudo” na língua

Continuar lendo
  9964 Acessos
  0 comentários
9964 Acessos
0 comentários

Por que uma escola sem partido é impossível?

escola-sem-partido

 

Nós somos seres condenados a significar. A fala neutra é uma impossibilidade em termos. Toda palavra proferida é carregada de tudo o que somos, temos sido e seremos. A própria capacidade de falar é histórica, socialmente situada: não aprendemos a falar porque um deus nos soprou ao ouvido. A língua é uma história, por isso mesmo é que se transforma ao longo do tempo, junto com a sociedade. A sincronia é uma quimera: tudo o que dizemos e ouvimos é uma cápsula do tempo em que dias, anos e séculos se entrecruzam. 

 

Um ensino/aprendizagem sem produção de sentido, sem construção de significado, é algo que somente as distopias literárias e cinematográficas podem tentar, mas sempre fadadas ao fracasso, já que se fazem com... palavras. Nem mesmo um robô conseguiria dar aulas "neutras", porque alguém teria de emprestar sua voz à máquina, e não há voz neutra. 

 

Continuar lendo
  4188 Acessos
  0 comentários
4188 Acessos
0 comentários

A TRADUÇÃO CAPENGA E O IMPERIALISMO LINGUÍSTICO

traducao-capenga

 

 

O IMPERIALISMO LINGUÍSTICO 

 

Uma das principais consequências da pressão esmagadora de uma língua imperial sobre as línguas subalternizadas são as fissuras que vão se abrindo nessas línguas, fissuras por onde a língua imperial vai se infiltrando sorrateiramente e colonizando o léxico e a gramática das subjugadas. É o que se dá hoje em dia com o inglês, que ataca todas as outras línguas do mundo de cima para baixo e de dentro para fora. 

Continuar lendo
  54422 Acessos
  0 comentários
54422 Acessos
0 comentários

COMO E POR QUE AS LÍNGUAS MUDAM?

mudana_lingustica

 

A mudança linguística decorre de três principais fatores: 

 

(1)    o aparelho articulatório da espécie humana (lábios, dentes, palato, língua, úvula, glote, laringe, pregas vocais etc.); 

(2)    a cognição humana, isto é, a nossa capacidade de processar experiências, adquirir e produzir conhecimento;

Continuar lendo
  16571 Acessos
  1 comentário
Comentários Recentes neste post
ALEXANDRE FALCAO SANSEVERINO
Professor Bagno, veja esta coisa absurda! https://youtu.be/iZV3__eRrF8... Leia Mais
Quarta, 29 Agosto 2018 01:04
16571 Acessos
1 comentário

VAMOS ESTUDAR BANTO?

palavras

 

Formação do português brasileiro

 

 

O destaque que as práticas religiosas de matriz iorubana adquiriram na cultura brasileira, especialmente na baiana, teve como consequência um desequilíbrio no interesse pelas línguas africanas que deram sua contribuição à formação do português brasileiro. Ocorreu uma supervalorização do iorubá e uma quase invisibilização das línguas do grupo banto (quimbundo, quicongo e umbundo), que tiveram um impacto muito mais profundo na nossa língua. Muitas pessoas, em busca das raízes africanas da nossa formação social e cultural, ou em busca de suas próprias raízes étnicas, se dedicam ao estudo do iorubá, considerado como o componente principal dessas raízes.

Continuar lendo
  11472 Acessos
  0 comentários
11472 Acessos
0 comentários

ANALFABETISMO FUNCIONAL E LÍNGUA PORTUGUESA

nada_na_lingua

 

O CERTO, O ERRADO E O GALEGO

 

 

O Brasil é um continente de analfabetos funcionais. Dizem as pesquisas que seriam quase 70% da população. Se a isso acrescentarmos os analfabetos plenos, é fácil chegar aos 75%. Significa que toda essa imensa população (bem mais de cem milhões de pessoas) tem um escasso domínio das habilidades de leitura, de escrita e de cálculo. Sabemos que essa tragédia educacional é um projeto de nação levado muito a sério pelos reduzidíssimos grupos que detêm o poder político e econômico desde sempre. Um país que tem sua história marcada por três séculos e meio de escravidão e onde jamais ocorreu nenhum tipo de transformação radical das estruturas de poder (leia-se: nunca ocorreu uma revolução), o analfabetismo funcional não é um problema: é um dos muitos pilares de sustentação programada da desigualdade social e econômica, quesito em que o Brasil ocupa a 10a posição num total de 206 países. Aplausos para os escravocratas e seus capitães-do-mato!

Continuar lendo
  16742 Acessos
  0 comentários
16742 Acessos
0 comentários

Nada na língua é por acaso

como_integrar_o_aprendizado_de_idiomas_ao_dia_a_dia

O CERTO, O ERRADO E O GALEGO

 

O Brasil é um continente de analfabetos funcionais. Dizem as pesquisas que seriam quase 70% da população. Se a isso acrescentarmos os analfabetos plenos, é fácil chegar aos 75%. Significa que toda essa imensa população (bem mais de cem milhões de pessoas) tem um escasso domínio das habilidades de leitura, de escrita e de cálculo. Sabemos que essa tragédia educacional é um projeto de nação levado muito a sério pelos reduzidíssimos grupos que detêm o poder político e econômico desde sempre. Num país que tem sua história marcada por três séculos e meio de escravidão e onde jamais ocorreu nenhum tipo de transformação radical das estruturas de poder (leia-se: nunca ocorreu uma revolução), o analfabetismo funcional não é um problema: é um dos muitos pilares de sustentação programada da desigualdade social e econômica, quesito em que o Brasil ocupa a 10a posição num total de 206 países. Aplausos para os escravocratas e seus capitães-do-mato!

A pouca familiaridade da imensa maioria da nossa população com as formas linguísticas consideradas (por quem, aliás?) boas, bonitas e corretas se deve, obviamente, a essa situação catastrófica. As pessoas que têm acesso a essas formas “legítimas” (como diz o sociólogo Pierre Bourdieu) reconhecem de imediato as formas “ilegítimas” (ou seja, erradas) quando elas são enunciadas. Para quem trabalha com educação em geral, e com educação linguística em particular, reconhecer o suposto erro, no entanto, não é suficiente. Do ponto de vista das ciências da linguagem, as formas consideradas erradas não são um resultado da situação de analfabetismo pleno ou funcional de quem as emprega. Seria fácil estabelecer uma relação de causa e consequência do tipo “se a pessoa é analfabeta (funcional), fala errado” ou “a pessoa fala errado porque é analfabeta (funcional)”. Mas essa relação é falaciosa: trata-se de dois fenômenos distintos. Vamos tentar entender por quê.

 

Continuar lendo
  9106 Acessos
  0 comentários
9106 Acessos
0 comentários

POLÍTICA LINGUÍSTICA

b2ap3_thumbnail_POLITICA-LINGUISTICA

 

MINORITÁRIA OU MINORIZADA?

 

 

Um conceito importante nos estudos linguísticos atuais é o de “língua minorizada”. É diferente de “minoria linguística” porque o que está em jogo não é a quantidade de falantes, mas a situação política e social de sua língua.

Continuar lendo
  6611 Acessos
  0 comentários
6611 Acessos
0 comentários

PORTUGUÊS BRASILEIRO (OUTRA VEZ)

PORTUGUÊS BRASILEIRO (OUTRA VEZ)

 

EM PAZ COM A LÍNGUA

 

Num evento recentemente ocorrido em São Paulo, o linguista Carlos Alberto Faraco disse que a sociedade brasileira precisa “fazer as pazes com a sua língua”. Conforme ele explicou, desde o século XIX, a partir da Independência, se instaurou no Brasil uma mentalidade profundamente conservadora no que diz respeito à língua. O país se tornou independente de Portugal, mas o espírito colonizado e bajulador da Europa por parte das oligarquias dominantes impediu que as características linguísticas propriamente brasileiras fossem aceitas com tranquilidade.

 

Continuar lendo
  5762 Acessos
  0 comentários
5762 Acessos
0 comentários

O PORTUGUÊS BRASILEIRO E O PORTUGUÊS EUROPEU

O PORTUGUÊS BRASILEIRO E O PORTUGUÊS EUROPEU

 

Quando nasce uma língua nova?

 

A grande maioria das pessoas acredita que definir o que seja uma “língua” é algo fácil e cômodo, e que os linguistas sabem com precisão onde termina uma língua e onde começa outra. Nada mais distante da verdade! Isso porque a definição de “língua” escapa das mãos dos linguistas — que há séculos confessam ser impossível enunciá-la — e vai pousar no terreno pantanoso daquilo que se chama ideologia. Sim, a definição do que é uma “língua” tem muitíssimo mais a ver com questões políticas, religiosas, identitárias etc. do que com questões propriamente linguísticas, isto é, fonético-fonológicas, morfossintáticas, lexicais etc.

 

Continuar lendo
  15905 Acessos
  0 comentários
15905 Acessos
0 comentários

Repensar o objeto de ensino de uma aula de português

Repensar o objeto de ensino de uma aula de português

 

Uma forma de inserir o aprendiz na cultura letrada

 

O linguista Marcos Bagno considera lamentável que a imagem da língua portuguesa tenha sido empobrecida e reduzida a uma nomenclatura profusa e confusa e a exercícios mecânicos de análise sintática e morfológica. Para ele, essas são “práticas que se revelam, ao fim e ao cabo, inúteis e irrelevantes para, de fato, levar alguém a se valer dos muitos recursos que a língua oferece”. Ganhador do Prêmio Jabuti, Bagno é professor da Universidade de Brasília (UnB), pesquisador associado do Instituto da Língua Galega – Universidade de Santiago de Compostela, e atua no campo da educação linguística. No livro Preconceito linguístico (Parábola Editorial, 2015), o escritor reitera seu discurso em favor de uma educação linguística voltada para a inclusão social, o reconhecimento e a valorização da diversidade cultural brasileira.

 

Continuar lendo
  18271 Acessos
  0 comentários
18271 Acessos
0 comentários
logo_rodape.png
Blog da Parábola Editorial
Todos os Direitos Reservados

Entre em contato

RUA DR. MÁRIO VICENTE, 394 IPIRANGA | 04270-000 | SÃO PAULO, SP
PABX: [11] 5061-9262 | 5061-8075
Sistemas Web em São Paulo

Search