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Se você dá aulas de português...

Se você dá aulas de português... “corrigir” sem humilhar

Se você dá aulas de português, diante de um dado que todos consideram “errado”, pode escolher entre diversas abordagens. Uma é humilhar o aluno dizendo que ele não sabe nem falar. Outra é manter uma lista de CERTO X ERRADO e acrescentar o erro (digamos, MENAS) ao lado do CERTO (MENOS). É uma atitude dogmática. Outra é “corrigir” sem humilhar, dizendo que muita gente fala assim, mas que, na escrita e em certas outras ocasiões, é melhor dizer / escrever MENOS (e dar as razões). Outra, ainda, é ter um espírito de pesquisa e observar (mandar os alunos observar) quem diz MENAS e em que contexto. Vão concluir que MENAS sempre ocorre diante de nome feminino, o que motiva a concordância. Ainda outra, na continuação, é (tentar) verificar se alguém tratou da questão. Uma saída é ver um dicionário, digamos, o HOUAISS (aqueles dicionários escolares (que eliminam tudo o que é heterogêneo) não servem pra isso... na verdade, servem pra pouca coisa). No HOUAISS, você encontra “a) como adv. quantitativo, é antônimo funcional de mais e, por isso, invariável; b) no Brasil, na linguagem coloquial desescolarizada, ocorre a forma deturpada menas (pron.indef.), em concordância de gênero com o substantivo que se segue (menas confiança comigo, hein?)". Relevem-se os termos um tanto preconceituosos...

Em relação ao que disse acima sobre ensino, vale acrescentar que muita coisa depende dos materiais que um professor consulta, os ditos instrumentos linguísticos. Pela ordem de relevância, citaria estudos de língua viva (com suas variantes). Em segundo lugar, projetos quase gramaticais, obras que tentam mostrar que o padrão, a norma etc. são menos rígidos do que se pensa. Obras como Não é errado falar assim (Bagno) e Gramática do português brasileiro escrito (Faraco e Vieira) são amostras. Mas as gramáticas tradicionais também são mais liberais do que se supõe (“aceitam” variantes de regência e de concordância, por exemplo). Mas quem as estuda? Os dicionários são ainda mais liberais do que as gramáticas, pois registram tudo (vejam as regências de “namorar” nos bons dicionários, por exemplo). Abaixo vêm os livros didáticos e/ou gramáticas que derivam deles — que resumem as verdadeiras. Finalmente, os mais conservadores são os manuais (de redação de jornais e de revistas e outros), que resumem as gramáticas e olham dicionários pela metade. Infelizmente, muitos concursos são elaborados por empresas, e as normas seguidas são mais as que constam em manuais e apostilas do que as que mesmo gramáticos e dicionaristas abonam. Em consequência, as alternativas dadas como corretas obedecem a um consenso generalizado, materializado em apostilas e manuais de redação (e de revisão). Não significa que haja conluio. Significa que a visão dominante é muito uniforme. O acordo é tácito.

 

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