Blog da Parábola Editorial

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Sobre livros, árvores & etimologias

FAIA Dois nomes diferentes para uma mesma árvore: faia e beech, fagus e *bokjon. Diferentes? Só na casca externa do tronco...

A leitura de um belíssimo livro — El infinito en el junco: la invención de los libros en el mundo antiguo (2020), da escritora espanhola Irene Vallejo — me fez recordar um fato muito interessante: os livros e o mundo vegetal têm relações antiquíssimas que vão muito além do papel de que eles são feitos. Vallejo parte do papiro como mote para reconstituir a história da escrita e da leitura na antiguidade, mas o que me deu vontade de contar é a história das palavras mesmas que designam o livro em diversas línguas. As palavras também têm raízes, quase sempre ocultas no solo profundo do uso cotidiano que a gente faz da língua, e o que vou mostrar, numa rápida jardinagem e com os instrumentos adequados, é de que modo as raízes de algumas palavras se enredam há milênios nas raízes de algumas plantas.

Existe uma árvore típica das terras frias do hemisfério norte chamada faia em português e beech em inglês. O nome faia provém do latim fagea, um adjetivo feminino derivado de fagus, o nome da árvore. Por sua vez, o beech do inglês descende de *bokjon, um termo do proto-germânico, uma língua hipotética da qual derivam todas as línguas do grupo a que pertencem o inglês, o alemão, o sueco, o islandês etc., e que deve ter sido falada mais ou menos a partir de 2000 antes da Era Comum (o asterisco em *bokjon indica que ele não é um termo atestado, documentado em alguma fonte, mas reconstruído por meio de uma metodologia desenvolvida por linguistas do século 19, da qual vou dar uma palhinha logo a seguir).

Dois nomes diferentes para uma mesma árvore: faia e beech, fagus e *bokjon. Diferentes? Só na casca externa do tronco porque, lá no fundo, nas raízes que a gente não vê, porque estão enterradas no solo do tempo, esses dois nomes são aparentados, primos-irmãos. A semelhança é percebida justamente por quem pratica a chamada linguística histórico-comparada, uma disciplina que floresceu no já mencionado século 19, especialmente em terras de língua alemã. O objetivo dos linguistas de então era estabelecer o parentesco entre as línguas que passaram a ser chamadas, naquela mesma época, de indo-europeias porque, como diz o nome, eram faladas desde a Índia até Portugal, no extremo ocidental da Europa (muitos séculos mais tarde, com a expansão colonialista, quatro dessas línguas seriam levadas para o resto do planeta e impostas literalmente a ferro e fogo a outros povos: português, espanhol, inglês, francês e neerlandês). A hipótese de base é a de que, por volta de 5000 antes da Era Comum, em algum lugar entre a Europa e a Ásia, provavelmente nas estepes entre o Mar Negro e o Mar Cáspio, existiu uma língua que, por causa das diversas migrações de seus falantes em diferentes direções, acabou por se transformar em dezenas de outras. Essa língua pré-histórica foi chamada indo-europeu e sua reconstituição, graças ao método comparativo, dominou praticamente toda a linguística oitocentista.

Não dá para explicar o método histórico-comparativo aqui (quem tiver interesse pode ler com proveito o livro Linguística comparada e tipologia, de Giulia Bossaglia, https://www.parabolaeditorial.com.br/linguistica-comparada-e-tipologia), mas uma das muitas regularidades que os pesquisadores estabeleceram (regularidades que foram chamadas de “leis fonéticas”) é que de um *bh- inicial do indo-europeu pré-histórico deriva um b- nas línguas germânicas e um f- em latim. Três exemplos:

(1) da raiz indo-europeia *bheue- derivam o inglês be (‘ser’) e o latim fui (‘fui’, do verbo ser) e também o fu- de futurus (‘futuro’);

(2) da raiz *bhel- provêm o inglês bloom (‘flor’) e o latim flos (‘flor’);

(3) de *bhrater descendem o inglês brother (‘irmão’) e o latim frater (‘irmão’).

Os exemplos poderiam ser centenas, de modo que não dá para supor uma simples coincidência nesses casos particulares. Assim é que do indo-europeu *bhago derivam o latim fagus (‘faia’) e o proto-germânico *bokjon (‘faia’).

Se fagus e beech escondem seu parentesco, o mesmo não se pode dizer de beech e de book, isto é, ‘livro’ em inglês, principalmente se remontamos beech a seu ancestral *bokjon, ‘faia’, e a Buch, ‘livro’ em alemão — será que essa semelhança agora é coincidência? Não é. E o que tem a ver livro com faia? Tudo. Era na casca das faias e em pranchas feitas de sua madeira que os antigos povos germânicos, depois de se apoderarem da escrita, inscreviam suas runas, símbolos usados para transcrever suas línguas, já no segundo século da Era Comum, antes de adotarem, mais tarde, o alfabeto latino. Em russo e em outras línguas eslavas, a palavra bukva significa ‘letra’ e é um empréstimo tomado do gótico, a mais antiga língua germânica atestada, e exibe mais uma associação interessante entre a escrita e a faia.

Por sua vez, o latim liber, ancestral do nosso livro, significava originalmente ‘entrecasca das árvores’ e pode derivar da mesma raiz indo-europeia da qual provêm o inglês leaf, ‘folha’, o albanês labë, ‘casca, cortiça’, o russo lub, ‘floema’ (camada mais interna da casca). É fácil imaginar que também os mais remotos antepassados dos falantes de latim usavam a casca das árvores para escrever. E a história ainda prossegue, porque outro termo usado em latim para ‘livro’ é codex, de onde provém código em português, com os muitos sentidos que a palavra ganhou ao longo do tempo, e também códice, originalmente ‘pequena placa encerada (frequentemente de marfim ou madeira), usada pelos antigos romanos  para escrever’ e, mais adiante, ‘grupo de folhas de pergaminho manuscritas, unidas, numa espécie de livro, por cadarços e/ou cosedura e encadernação’ (definições do dicionário Houaiss). Ora, o latim codex é a forma mais recente de um caudex ainda mais antigo, que significava nada menos que ‘tronco de árvore’.

Outro suporte para a escrita era a tabula, ‘prancha de madeira’, que nos deu tábua assim como o francês table (‘mesa’) e, deste, o inglês table. Nessas pranchas, como vimos, diferentes povos inscreviam suas letras, gravando sulcos na madeira. Quando os filósofos empiristas diziam que a mente humana é uma tábula rasa, isto é, uma tábua em que ainda não se escreveu nada, a ideia era a de que a mente se forma por meio das experiências e das percepções, de modo que, de início, ela é como uma folha de papel em branco. E por falar em folha, nem é preciso comentar que se trata de uma transposição de um termo vegetal para o mundo dos livros. É também mais um exemplo da “lei fonética” *bh > b- (germânico); > f- (latim), porque a raiz do latim folia (plural de folium, ‘folha’) é a mesma já citada *bhel-, que tinha o sentido de ‘brotar, florescer’, ou seja, folha e flor compartilham uma origem pré-histórica comum.

Escrevi acima que os antigos gravavam sulcos na madeira. Esse verbo gravar nos veio do francês graver, que por sua vez o herdou do frâncico (uma língua germânica) graban, ‘escavar’. Esse verbo frâncico descende do indo-europeu *gerbh-, ‘arranhar, riscar’, e é dele que brotou também o radical grego graph- que conhecemos bem de grafia, isto é, ‘escrita’, já que escrever era arranhar a casca e a madeira das árvores. Hoje temos em português dois verbos, gravar e grafar, que provêm de um mesmo remoto antepassado indo-europeu, cada um por um caminho diferente. De igual modo, o latim scribo (‘eu escrevo’) deriva da raiz indo-europeia *skribh-, que guarda a mesma ideia de fazer marcas em pedra, madeira etc. O instrumento usado para fazer essas marcas era chamado em latim stilus, uma varinha de madeira com uma ponta afiada, de onde vem o nosso estilo.

Por fim, não é possível deixar de mencionar a matéria-prima vegetal que se tornou a base para tudo o que veio a se chamar “livro” desde a mais retoma antiguidade até os dias de hoje: o papel. Claro que os egípcios, gregos e romanos não usavam o papel que conhecemos hoje — uma invenção dos chineses —, mas sim o papiro, a espécie de junco que brotava nas margens úmidas do rio Nilo e, depois de tratado e transformado em rolos, era um dos mais cobiçados produtos culturais da antiguidade e fonte de riqueza econômica para os egípcios, que o exportavam para todo canto. Embora nosso papel seja de origem chinesa, o nome papel, claro está, vem de papiro, do grego papyros, provavelmente tomado de empréstimo do egípcio. O português papel (e também o espanhol) deriva do catalão paper (pronunciado “papê”), e o -l final (onde as outras línguas apresentam um -r) é só mais um exemplo das trocas de [l] por [r] e vice-versa que ocorrem nas mais diferentes línguas (basta pensar no par aluguel/aluguer e em como as formas do latim plaga, clavu e flaccu deram em português praga, cravo e fraco).

Em seu livro Irene Vallejo escreve:

O rolo de papiro representou um avanço fantástico. Após séculos de busca de suportes e de escrita humana sobre pedra, barro, madeira ou metal, a linguagem encontrou finalmente seu lar na matéria viva. O primeiro livro da história nasceu quando as palavras, apenas ar escrito, encontraram abrigo na medula de uma planta aquática. E, frente a seus antepassados inertes e rígidos, o livro foi desde o princípio um objeto flexível, leve, preparado para a viagem e a aventura.

O nome da ciência que me guiou até aqui para mostrar essas belas relações entre a escrita, o livro e o mundo das plantas é etimologia. Sim, a etimologia é uma ciência, tem princípios teóricos e metodológicos bem definidos e rigorosos, exige um vasto repertório de saberes que envolvem, claro, as línguas, mas também a história dos povos e das culturas que falam ou falavam essas línguas.

No verbete etimologia da monumental Enciclopédia organizada pelos iluministas franceses do século 18, o autor, Anne-Robert-Jacques Turgot (1727-1781), afirma que a regra mais geral da pesquisa etimológica é “duvidar de tudo” e “rejeitar toda etimologia que só se torne verossímil à custa de suposições multiplicadas”. Mais de duzentos e cinquenta anos se passaram desde então, mas a crença em etimologias fantasistas e falaciosas continua firme e forte por todo canto. Eu mesmo venho estudando etimologias há quarenta anos e só abro a boca para falar da origem de alguma palavra depois de pesquisar, inquirir, investigar, reconsiderar, formular hipóteses, testá-las, descartá-las ou confirmá-las, comparar fontes e por aí vai. Por isso, besteiras como a de que aluno quer dizer “sem luz” me deixam, no mínimo, irritado e, no máximo, ofendido, porque é um desrespeito ao trabalho de tantas pessoas sérias que se dedicam a essas pesquisas, é querer prescrever cloroquina para tratar a covid-19, quando a ciência já provou sua absoluta ineficácia. O mesmo Turgot diz que é preciso uma boa teoria para empreender o estudo etimológico, teoria que, como qualquer outra, precisa, para não ser um romance, aproximar-se continuamente dos fatos”. Quem dera todas as etimologias falsas, inconsistentes e delirantes se parecessem com um romance — muitas delas soam bem mais como arroubos infundados de uma militância equivocada que, para piorar, acaba fornecendo munição para os porta-vozes das ideologias mais reacionárias que desgraçam o mundo de hoje.

A distopia da língua única
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