Blog da Parábola Editorial

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História política e gramatical dos pronomes

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Você sabe como se dizia ele e ela em latim clássico? Não se dizia. Isso mesmo, no latim clássico não existiam pronomes da chamada “terceira pessoa” (que é, na verdade, uma “não-pessoa”, já que não participa do discurso). De fato, mundo afora, existem centenas de línguas que não têm pronomes específicos para designar aquilo que é o “assunto” do qual a primeira e a segunda pessoa falam. A língua pré-histórica da qual deriva a maioria das línguas europeias, o chamado protoindo-europeu, não tinha pronomes para a não-pessoa. Justamente por não ser uma pessoa do discurso é que esses pronomes podem ser dispensados, além de poderem se referir a toda e qualquer coisa no mundo real ou imaginário, ao passo que eu e tu/vocêsó podem se referir a pessoas (ou a coisas personificadas). Eu e tu/você se atualizam no contexto de interação, enquanto ele/ela são elementos de um texto

Um fato muito interessante é que, em muitas e muitas línguas que apresentam pronomes de “terceira pessoa”, esses pronomes derivam de demonstrativos. Os pronomes he, she e it do inglês, por exemplo, remontam a demonstrativos indo-europeus, ou seja, significavam, lá por volta de 5.000 antes da Era Comum, “este”, “aquela”, “isso”. E o mesmo se dá com nossos ele/ela e seus plurais: derivam dos demonstrativos latinos ille/illa, que significavam originalmente “aquele”/“aquela”. É a mesma origem do romeno el/ea, do italiano egli/ella, do francês il/elle, do catalão el/ella, do espanhol él/ella, do galego ele/ela... A passagem de demonstrativo a pronome pessoal (um fenômeno chamado gramaticalização) é fácil de imaginar. Para deixar claro a quem (ou a que) estava se referindo, no discurso, a pessoa empregava o demonstrativo para dar ênfase a essa referência. Além disso, com as transformações sofridas pelo latim nos diferentes lugares onde, bem mais tarde, ele passaria a ser designado com outros nomes (galego, português, espanhol, francês etc.), o -t característico dos verbos da “terceira pessoa” (amat, amabat, amauit, amet etc.) desapareceu, de modo que uma forma amaba (“amava”) podia ser interpretada como “eu amava” ou “ele/ela amava” (porque também tinha caído o -m característico da primeira pessoa, amabam). Desse modo, razões de ordem discursivo-pragmática (enfatizar a referência ao que foi dito anteriormente e evitar ambiguidade nessa referência) acabaram enfraquecendo o caráter demonstrativo de ille/illa e transformando-os em pronomes pessoais. Veja que até hoje usamos este/esta e aquele/aquela para nos referirmos, sobretudo na escrita formal, ao que foi apresentado antes, em geral para evitar uma possível ambiguidade: “Na sexta-feira passada, a CPI do genocídio ouviu os irmãos Luís Cláudio e Luís Ricardo Miranda. Este, servidor concursado do Ministério da Saúde, forneceu mais uma prova de que o atual governo brasileiro é o mais corrupto e abjeto da história do país, disposto a obter lucros pessoais com a morte de centenas de milhares de pessoas”. 

Em resumo: nas variedades faladas do latim imperial (também chamado “latim vulgar”) surgiram pronomes pessoais para a chamada “terceira pessoa”, descendentes de ille  e illa que resultaram em ele ela, no caso do galego e de seu filho pródigo, o português. E como foi que surgiram? Surgiram porque as pessoas que falavam essas variedades sentiram a necessidade desses elementos gramaticais para levar adiante de forma satisfatória a interação social por meio da linguagem. Porque, nunca é demais repetir, não é “a língua” que se transforma, não é “a língua” que cria ou elimina o que quer que seja: são os indivíduos, as pessoas, as e os falantes que transformam a língua, que criam inovações ou eliminam o que já não lhes parece necessário. As gerações anteriores à nossa é que eliminaram o vós e criaram você/vocês. A geração mais nova que a minha está substituindo alegremente nós por a gente (não sou eu que “acho” isso: pesquisas feitas há cinquenta anos mostram essa transformação). Os pronomes oblíquos o/a/os/as não pertencem à nossa língua materna, deixaram de ser usados por aqui há bem dois séculos...

“não é “a língua” que se transforma, não é “a língua” que cria ou elimina o que quer que seja: são os indivíduos, as pessoas, as e os falantes que transformam a língua”

Por que estou contando toda essa história? Porque, assim como no passado, hoje também, exatamente aqui e agora, há pessoasfalantes da língua, que expressam a necessidade social (e, consequentemente, política) de empregar novos pronomes que permitam uma referência anafórica sem que a categoria gramatical do gênero esteja morfologicamente marcada. Se foi possível criar pronomes pessoais de terceira pessoa onde eles não existiam, talvez seja possível também criar pronomes pessoais de terceira pessoa não marcados morfologicamente quanto ao gênero. 

“aqui e agora, há pessoasfalantes da língua, que expressam a necessidade social (e, consequentemente, política) de empregar novos pronomes”

Vai ser uma luta difícil: a categoria gramatical de gênero já existia na língua pré-histórica, no protoindo-europeu (onde os seres animados e desanimados podiam ser do gênero feminino, masculino e neutro), e somente o inglês e o persa moderno abandonaram por completo essa categoria gramatical. Nós, falantes de línguas românicas, conservamos ciosamente essas distinções, que são perfeitamente irracionais: por que diabos flor é do gênero feminino e odor, do masculino? E por que diabos fiore em italiano é masculino, enquanto odeur é feminino em francês? Pura irracionalidade. Mas nós nascemos e vivemos com essas classificações bem impregnadinhas na nossa intuição linguística, e achamos divertido quando um falante de inglês diz o facaa papel, esse árvore etc. Além disso, as pessoas que expressam essa necessidade representam uma pequena minoria na sociedade, e nós sabemos bem o que a nossa estrutura social reserva para as minorias: desprezo, violência e genocídio.

Em latim, repito, não existiam pronomes pessoais de “terceira pessoa”, também não existiam artigos definidos, não existiam advérbios em -mente, não existia o infinitivo conjugado, não existia o futuro do tipo vou sair, não existia passado composto, não existiam 1.234.567 palavras que hoje usamos à vontade... As romanas e os romanos não tinham carro, rádio, telefone, televisão, computador, sapato de couro, plástico, luz elétrica, aquecimento climático, coronavírus, deus único e o escambau a quatro. Como tudo o que se passa na língua depende da dinâmica social (e política, e ideológica, e cultural, e religiosa, e ecológica...) em que estão imersas e imersos as e os falantes (falantes que são precisamente as e os responsáveis por essa dinâmica), os resultados da disputa atual entre quem defende e quem recusa a linguagem dita neutra são imprevisíveis, ao menos neste momento do processo. E deixo claro: não estou aqui defendendo ou recusando o uso do gênero neutro, estou apenas contando uma parte da história da língua que, espero, sirva de tema de reflexão para quem defende e para quem recusa, sempre tendo em mente, porém, que o Brasil é o país onde mais se mata, com requintes de crueldade, LGBTs em todo o mundo. 

“o Brasil é o país onde mais se mata, com requintes de crueldade, LGBTs em todo o mundo”

 

 

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