GRAMÁTICOS OU GRASNÁTICOS? A miséria linguística dos concursos
Em cinco passos, Bagno critica a “miséria linguística” dos concursos públicos e o apego de bancas e cursinhos a regras gramaticais ultrapassadas, desmonta mitos do português normativo — como “onde/aonde”, “melhor/mais bem” e a concordância com “se” — apoiando-se em gramáticos renomados e em clássicos da literatura.
Marcos Bagno
5/25/20268 min read


Por um desses mistérios algorítmicos que assombram as redes digitais, começaram a pulular na minha página do feicibuque postagens e mais postagens — todas produzidas por gente que oferece dicas de “português para concursos” — com questões de língua e a multimilenar e miasmática pergunta: “Qual das opções está correta?”. E lá vêm as mesmas, mesmíssimas, mesmérrimas pseudodúvidas com que meus bisavós já tinham que se debater século e meio atrás.
Seria inacreditável — não fosse esse país o trágico que é — encontrar em pleno ano de 2026 questões de concurso contendo, não só essas pseudodúvidas, mas questões totalmente escalafobéticas sobre terminologia gramatical (“qual das orações abaixo é substantiva reduzida de infinitivo?”), figuras de sintaxe (“em qual das opções ocorre zeugma?”) e outras inutilidades inutilíssimas do tipo. Não basta a péssima educação linguística oferecida nas escolas brasileiras, ainda temos que tropeçar na miséria linguística das questões elaboradas pela maioria das bancas de concursos públicos. Tanto quanto o irracional vestibular — que há décadas tem parido a fama e a fortuna de tantos cursinhos e cursões —, os concursos públicos também enchem de bufunfa os caçuás de quem sabe lucrar com ele. É curso presencial e on-line, é apostila, é gramática para concurso e o diabo a quatro.
Os concursos públicos deveriam, antes de toda e qualquer outra coisa, avaliar as competências de leitura e de escrita das pessoas que neles se inscrevem. Concursos para áreas específicas, obviamente, também devem avaliar o conhecimento delas nessas áreas. Mas encher as provas de questões de língua que oferecem mentiras como respostas pretensamente corretas… ah, isso deveria ser proibido com pena de reclusão em regime fechado!
Quem elabora tais questões e quem se aproveita delas para lucrar pertencem a uma categoria que chamo de grasnáticos: gente que jura de pés juntos e mãos postas que domina a tradição gramatical, que conhece de cor e salteado a norma-padrão canônica, mas não passam de uma gangue de gansos esganiçados! O que realmente sabem fazer é grasnar as mesmas acusações de erro contra usos linguísticos já sagrados e consagrados na língua, inclusive na melhor literatura produzida desde o século 19[1]. Não consultam os bons compêndios gramaticais normativos, não recorrem aos verdadeiros gramáticos profissionais que entendem do riscado e têm consciência de que a norma-padrão muda com o tempo sob pressão dos usos, mesmo que sejam apenas os usos de autores renomados. Grasnam, grasnam, grasnam! Nem sequer a utilidade cívica dos gansos do Capitólio da Roma antiga essas criaturas têm!
Desse tipo de falso conhecedor eu poderia dizer, como Dante na Divina Commedia: “ed elli avea del cul fatto trombetta” — porque é desse orifício corporal que realmente parecem sair as falsas regras que esses gansos espalham por todo lado.
Antes de excluir aquelas malditas postagens, fiz uma mínima seleção de cinco pseudodúvidas (ou pseudoerros) com que os vendilhões do “português para concurso” atormentam quem busca melhorar de vida. Para mostrar que não passam de gasguitos grasnáticos, faço cada caso ser acompanhado de observações de filólogos e gramáticos conceituados. Aliás, quem eventualmente tiver uma questão anulada por causa dessas bobagens, tem bibliografia farta à qual recorrer para contestar os resultados.
1. De o + infinitivo
A regra normativa tradicional enuncia que, diante de um infinitivo, não se deve fazer a contração da preposição de com o artigo (o, a, os, as) que a segue: “As pessoas conseguiram sair antes de o prédio desabar”. Leiamos, no entanto, o que nos diz a respeito Evanildo Bechara[2]:
A preposição pode-se combinar com o núcleo do sujeito. Assim, diremos:
É tempo DE ELE sair
ou
É tempo DELE sair.
Alguns gramáticos não aceitam a combinação apontada sob o pretexto de que o sujeito “não pode vir regido de preposição”; não se trata aqui, entretanto, de regência preposicional de sujeito, mas do contato de duas palavras que, por hábito e por eufonia, costumam ser incorporadas na pronúncia. [...] O que a lição dos fatos nos permite ensinar é que ambas as construções são corretas, segundo nos atestam as seguintes passagens que não se podem dar como errôneas ou descuidos de revisão [...]. [itálicos do autor]
E prossegue a discussão, apresentando vários trechos de autores consagrados, entre os quais gramáticos e filólogos (Alexandre Herculano, Augusto Rebelo da Silva, Antônio Feliciano de Castilho, Epifânio Dias e ninguém menos do que Rui Barbosa!), em que aparece a preposição combinada com o artigo. Se a tua “gramática para concursos” nega essa possibilidade, o lugar dela é no lixo reciclável.
2. Meio (advérbio flexionado)
Outro combate inútil contra erros que não existem é a condenação do uso de meia, no feminino, mesmo quando se trata de advérbio (uma classe de palavras que, por definição, é invariável — mas exceções existem sempre!). Machado de Assis usa o feminino (e o plural) com alegria pimpona, e se temos de nos mirar nos clássicos, como propugna a tradição gramatical, miremo-nos pois no maior dos nossos escritores e sejamos felizes até que a morte nos separe!
Me lembro de ter visto muito tempo atrás num programa de televisão uma triste figura que afirmava estar errada a forma feminina em “dormi com a janela toda aberta”, porque, sendo um advérbio, o correto seria “dormi com a janela todo aberta”. Dá pra crer? É óbvio que 150% de brasileiras e -leiros minimamente letradas e -trados vão achar que o que está errado é essa paspalhice sem tamanho.
Quem nos ajuda nesse caso? O bom e velho dicionário Aurélio. No verbete meio lemos o seguinte:
meio1
[...]
Advérbio.
22.Por metade; um pouco; um tanto; quase:
Anda meio doente. [Há muitos exemplos, no português antigo como no moderno, desse advérbio flexionado (caso de concordância por atração):
“a cabeça do Rubião meia inclinada” (Machado de Assis, Quincas Borba, p. 67);
“casou meia defunta” (Id., Várias Histórias, p. 97);
“a mesma mulher, sempre nua ou meia despida” (Eça de Queirós, A Cidade e as Serras, p. 366);
“Uns caem meios mortos, e outros vão / A ajuda convocando do Alcorão.” (Luís de Camões, Os Lusíadas, III, 50);
“cinzeiros com cigarros meios fumados” (José Régio, Histórias de Mulheres, pp. 45-46).]
E agora, como ficamos? É ou não é para “imitar os clássicos”? Ou será que vão me dizer que Camões, Machado e Eça cometeram “erros”? Ou que eles não são “clássicos” (então, quem será)?
3. Melhor vs. mais bem
No ano passado escrevi que “Lula é o estadista que melhor tem sabido enfrentar o tarifaço de Trump”. Pois não é que veio um desinfeliz me dizer que eu estava errado, porque o certo era “Lula é o estadista que mais bem tem sabido enfrentar o tarifaço”?. Pelo amor da luz elétrica! É o típico grasnático que, para lembrar Dante, faz do fiofó trombeta! Segundo a gramática normativa, a gente deve usar “mais bem” (ou “mais mal”) diante de particípios passados: “mais bem feito”, “mais mal aceito” etc. Só que eu usei melhor diante de um verbo! Vai corrigir a gansa que te desovou!
A maioria dos gramáticos considera “preferível” ou “aconselhável” usar mais bem diante de particípios passados — “preferível” ou “aconselhável”, ou seja, não obrigatório. Só que Rocha Lima[3] vai mais longe:
Em vez de melhor e pior empregam-se os comparativos mais bem e mais mal antes de adjetivos-particípios: Trabalhos mais bem cuidados. Planos mais mal urdidos. Mas diz-se também: Obra melhor talhada. Coisas mal ouvidas e pior entendidas.
Tá boa, santa? Me erra!
4. Onde vs. aonde
O a- presente em aonde é a preposição a, que indica direção, movimento. Desse modo, aonde deveria ser empregado somente com verbos que regem essa preposição: aonde ir, aonde chegar, aonde levar etc. Só que não é assim que se faz há muitos séculos. Ouçamos de novo o Aurélio, desta vez no verbete aonde:
O uso dos melhores autores [...] desde um Azurara, da fase arcaica da língua, até um José Régio ou um Miguel Torga, dos nossos dias, não distingue onde de aonde. Clássico dos mais reputados, Rebelo da Silva usa aonde por onde cerca de 40 vezes nos seus Contos e Lendas; uma delas (só para exemplificar), na pág. 20: “o cemitério aonde dormem os que nos amaram.” Por vezes ocorre o emprego simultâneo de um e outro advérbio com a mesma significação: “Nise? Nise? onde estás? aonde? aonde?” (Cláudio Manuel da Costa, Obras Poéticas, I, p. 109); “Mas aonde te vais agora, / Onde vais, esposo meu?” (Machado de Assis, Poesias Completas, p. 207). Note-se, na abonação machadiana, que a métrica não se oporia à repetição do aonde.
E agora, ganso desengonçado? Vai grasnar aonde ninguém te escute!
5. Se (passiva de araque)
Já escrevi tanto sobre isso que nem vou me estender muito. Fiquemos, mais uma vez, com Bechara[4]:
[...] o se como índice de indeterminação de sujeito — primitivamente exclusivo em combinação com verbos não acompanhados de objeto direto —, estendeu seu papel aos transitivos diretos (onde a interpretação passiva passa a ter uma interpretação impessoal: Vendem-se casas = ‘alguém tem casa para vender’) e de ligação (É-se feliz). A passagem deste emprego da passiva à indeterminação levou o falante a não mais fazer concordância, pois o que era sujeito passou a ser entendido como objeto direto, função que não leva a exigir o acordo do verbo: Vendem-se casas (= ‘casas são vendidas’) → Vendem-se casas (= ‘alguém tem casa para vender’) → Vende-se casas.
Certa vez, ao examinar correções de redações de vestibular, o filólogo Celso Pedro Luft (autor de ABC da língua culta) desabafou[5]:
Uma das teimosas, obstinadas regras artificiais de purismo é a da pluralização de verbos acompanhados de ‘se’ — consertam-se calçados, vendem-se terrenos… — coisas assim que professores de Português teimam em classificar como frases passivas, contra todo o sentimento dos falantes nativos, e deles mesmos. Ora, em termos de linguagem efetiva, atual, vê o leitor que essas questões admitem mais de uma resposta (...); tanto se USA formas como ‘aceitam-se críticas’, ‘evitem-se injustiças’ e ‘discutem-se casos’ como ‘aceita-se críticas’, ‘evita-se injustiças’ e ‘discute-se casos’…
Concluindo: o que existe mesmo é a persistência renitente de grasnáticos que querem ser mais realistas do que o rei e propagar um modelo de língua “culta” que é, de fato, como escreveu Carlos Alberto Faraco[6] e não me canso de citar, uma norma curta, atrofiada, burra mesmo, terraplanista, sem fundamento científico nem filológico, que despreza até mesmo as relativizações lúcidas feitas por gramáticos de verdade. Assim, minha cara concurseira, meu caro concurseiro, não queimem as pestanas com esses gansos enganosos: consultem os verdadeiros especialistas, não os charlatães que lucram com a preservação dessas falácias!
[1] Ver postagem minha neste mesmo blog sobre os “erros” de Machado de Assis: https://www.parabolablog.com.br/sobre-gramaticos-e-ilusionistas).
[2] Bechara, E. (1999). Moderna gramática portuguesa. 37ª ed. Rio de Janeiro: YHL, p. 536.
[3] Rocha Lima, C. H. (1957). Gramática normativa da língua portuguesa. Rio de Janeiro: José Olympio, p. 347.
[4] Ibidem, p. 177.
[5] Encontrei isso no site da PUC/RS em 2009, quando escrevia meu livro Não é errado falar assim!. Mas o link que registrei na época não funciona mais. Quem tiver notícia de onde está o texto pode me dizer e já agradeço!
[6] Faraco, C. A. (2008). Norma culta brasileira: desatando alguns nós. São Paulo: Parábola.
