SOBRE GRAMÁTICOS E ILUSIONISTAS

Na história da linguística, chamamos de Gramática Tradicional a antiga doutrina (formulada no século 3 antes da Era Comum por estudiosos de língua grega) segundo a qual é preciso regrar, regular e regulamentar os usos linguísticos por meio da criação de um modelo de “língua certa” que se sobreponha às interações normais, habituais e ofereça um obstáculo à imaginária “deterioração” do idioma. Aqueles senhores viviam e trabalhavam na cidade de Alexandria, no Egito, que era na época o mais importante centro de cultura grega — por isso são frequentemente chamados de “filólogos alexandrinos”. Para elaborar seu modelo de “língua certa” — ou seja, para elaborar sua norma —, tomaram como base a escrita dos autores consagrados, poetas e prosadores. Em tempo: a palavra latina norma designava o esquadro do carpinteiro, um instrumento de medida e precisão.

O mais surpreendente nessa opção pelos poetas e prosadores é que eles tinham produzido suas obras sem nenhuma preocupação normativa, escreviam como bem lhes parecia, como sua intuição linguística e seu talento lhes ditavam. Platão, por exemplo, considerado um dos maiores prosadores da língua grega, não tinha gramáticas nem dicionários aos quais recorrer, tomava suas decisões estilísticas e lexicais com base no que sabia da língua, e o que sabia da língua vinha essencialmente da língua falada por pessoas de elevado grau de instrução, gente das camadas superiores da população. O mesmo vale para todos os grandes clássicos gregos: Píndaro, Sófocles, Ésquilo, Tucídides, Eurípides, Aristófanes, Plutarco, Luciano etc. A quem recorriam quando pintava alguma dúvida? A seus pares, homens livres e cultos como eles.

Ao definirem sua “língua certa” com base na escrita literária, os alexandrinos iniciaram uma tradição que passou à história com o nome de imitação dos clássicos e se prolonga até os dias de hoje na ideologia gramatical normativa. A gramática mais antiga que sobreviveu até nós, produzida por Dionísio Trácio (170-90 aec), é definida já nas primeiras linhas como o conhecimento prático do que tem sido dito por poetas e prosadores. Dois mil anos depois, em sua Moderna gramática portuguesa, Evanildo Bechara (1928-2025) escrevia: “A gramática normativa recomenda como se deve falar e escrever segundo o uso e a autoridade dos escritores corretos e dos gramáticos e dicionaristas esclarecidos[1]. A locução usus et auctoritas (“uso e autoridade”) ocorre nas Leis das 12 Tábuas, compilação do direito romano arcaico, produzida cerca de 450 AEC. A equiparação das leis jurídicas com as “leis” gramaticais, portanto, é velha como Roma.

Essa doutrina gramatical (mais antiga que o cristianismo!) tem portanto, desde sempre, a característica de valorizar exclusivamente uma parte ínfima de todo o vasto universo da escrita: a produção ficcional em prosa ou verso. É por isso que, em todas as gramáticas normativas produzidas em todas as línguas desde a época dos alexandrinos, os exemplos que abonam as regras prescritas são extraídos da literatura. Mas não de qualquer literatura, somente da produzida pelos escritores “corretos”, num círculo vicioso muito evidente: é o gramático que define o que é um escritor “correto” e é dessa “correção” que ele, gramático, tira seus exemplos. E, ao que parece, os escritores só merecem o rótulo de “corretos” postumamente: na gramática de Bechara, praticamente todos os exemplos são extraídos da obra de poetas e prosadores já mortos, com mais portugueses do que brasileiros.

Entre os diversos problemas facilmente detectáveis na tradição normativa, existe o que vou chamar aqui de truque dos gramáticos. Quando lemos uma gramática normativa, ficamos com a impressão (ou até com a certeza) de que os grandes autores da língua fundamentam as regras prescritas pela tradição, o que justificaria precisamente o uso de sua obra como repositório de bons exemplos para serem “imitados”. Mas é aí que a porca torce o rabo.

O que os gramáticos sempre têm feito é exatamente o contrário do que se faz na pesquisa científica. Há algum tempo, eu quis fazer um levantamento das colocações pronominais presentes n’Os Lusíadas de Camões. Li todo o primeio canto do poema (848 versos), coletei todas as ocorrências de pronomes oblíquos (168 no total) e as classifiquei quanto à forma e ao uso. Descobri, por exemplo, que em Camões as próclises (pronomes oblíquos antes dos verbos) são bem mais frequentes que as ênclises (pronomes oblíquos depois dos verbos), tidas pela tradição gramatical como a colocação “natural” dos oblíquos — foram 130 próclises contra 38 ênclises, e muitas dessas próclises vão na contramão do que prescrevem as regras da tradição normativa[2]. Ao contrário do linguista, que se interessa por tudo o que aparece em seu corpus de análise, o gramático pinça na obra dos grandes autores somente exemplos que correspondam à concepção de uso correto que já está na mente do mesmo gramático. Assim, para provar a “naturalidade” da ênclise, o gramático pode recolher vários exemplos de Camões em que essa colocação pronominal ocorre de acordo com a regra que deseja prescrever, deixando de lado as ocorrências de ênclises e próclises “erradas”. Esse é o truque dos gramáticos: como bons prestidigitadores, espertos ilusionistas, levam a gente a acreditar que Camões é o clássico que é porque lançou as bases da norma “clássica” do português. Uma colocação como “Agora tu, Calíope, me ensina” (I: 3,1), com o pronome oblíquo antes do imperativo (brasileiríssima, por sinal), dificilmente vai aparecer em algum compêndio normativo como exemplo de uso “correto” a ser “imitado”.

Há poucas semanas, ao preparar uma aula, fiz uma nova pesquisa, desta vez com o nosso clássico maior, Machado de Assis[3]. Eram vários os tipos de ocorrências morfossintáticas que eu estava buscando, mas aqui vou apresentar algumas opções do autor de Dom Casmurro que contrariam frontalmente a tradição gramatical e, mais ainda, as regras fantasiosas dos pseudogramáticos e puristas ranhentos que agora pululam nas redes (anti)sociais tentando vender seu peixe podre. De novo, são usos que dificilmente algum defensor da “norma curta” (como diz Carlos Alberto Faraco) ou da “norma oculta” (como digo eu, tomando de empréstimo a tirada de Ataliba T. de Castilho) vai exibir em seus compêndios. Vejamos então:

1) Os pensamentos eram tão teimosos como a dor, e ainda mais ruins que elas” (Quincas Borba, p. 1.159).

2) “Não vá tu conduzi-la onde o seu desejo a quer levar” (id., p. 1.361).

3) “Quando cheguei a esta conclusão final, chegava também à porta de casa, mas voltei para trás, e subi outra vez a Rua do Catete” (Dom Casmurro, p. 1.697).

4) “O menino repartia-se bem com ambas, preferindo um pouco mais a mãe postiça” (Memorial de Aires, p. 2.074).

5) “Persuadiu-se que não era grave, porque eles sorriam com frequência” (Esaú e Jacó, p. 1.872).

6) “[…] tão dóceis que ela acabou de se convencer que a fuga não era fuga […]” (id., p. 2.003).

7) “Antes dela ir para o colégio, eram tudo travessuras de criança” (Dom Casmurro, p. 1.455).

8) “Nota que tratava-se justamente de um crédito do Ministério da Marinha” (id., p. 1.293).

9) “Viana pediu-lhe para ficar até o fim da peça; ela insistiu, e era forçoso ceder” (Ressurreição, p. 35).

É fácil detectar os supostos “erros” que aparecem nesses trechos machadianos. Quem de nós, professoræs, permitiria que uma aluna ou aluno escrevesse, como em (1), ainda mais ruins que elas?

No exemplo (2), ocorre onde no lugar de aonde, já que os verbos conduzir e levar regem a preposição a, mas o que não falta em Machado é o uso indiferente e sem culpa de onde por aonde: “Mas aonde te vais agora, / Onde vais, esposo meu?” (no poema Nini).

Para muitos que vociferam contra supostos “pleonasmos” e “redundâncias” internet afora, conclusão final (3) é um vício horroroso, que deve ser extirpado a todo custo. E sem dúvida arrancarão os cabelos quando toparem com esse (4) preferindo ainda mais do autor de Esaú e Jacó. Quando a (5) persuadir-se e (6) convencer-se, a norma-padrão canônica exige uma preposição de depois deles, mas Machado desprezou-a alegremente.

Existe uma paranoia purista que condena veementemente (7) antes dela ir para o colégio (no lugar de antes de ela ir para o colégio), uma contração naturalíssima de preposição com artigo que nada tem de criminosa (veja-se, aliás, o que diz sobre ela, abonando-a, o mesmo Evanildo Bechara já citado: “O que a lição dos fatos nos permite ensinar é que ambas as construções são corretas”, p. 536). No entanto, gente que quer ser mais realista do que o rei escreve coisas assombrosas como esta: Há gramáticos que aceitam essa contração; o [jornal] Estado [de S. Paulo], porém, segue a norma da língua[4]. Mas quem define tradicionalmente “a norma da língua” senão os gramáticos normativos? A petulância dos puristas é mesmo um espanto!

Em (8) temos uma ênclise considerada errada pela tradição normativa, uma vez que, segundo essa doutrina, a palavra que “atrai” o pronome oblíquo, de modo que o correto seria “Nota que se tratava justamente de um crédito…”.

Por fim, em (9) ocorre um uso tido por incorreto, pois, diz tradição gramatical, só se deve usar pedir para + infinitivo quando estiver subentendida a ideia de “licença, permissão”: Eduardo pediu [licença] para ir ao banheiro. Ok. Mas se tal ideia não estiver subentendida, a construção correta é pedir que + subjuntivo: “Viana pediu-lhe que ficasse até o fim da peça.

As contradições das instâncias normativas às vezes nos presenteiam com casos deliciosos. No Dicionário Houaiss, no verbete haver, aparece a seguinte prescrição: “o v[erbo] haver deve empregar-se em correlação temporal com o outro v[erbo] da frase: havia dois anos que Paula não falava conosco […]”. Machado, porém, não acredita muito nisso:

10) Quis passear ao quintal, mas as pernas pouco tão andarilhas, pareciam agora presas ao chão” (Dom Casmurro, p. 1.458).

11) “Padre Cabral estava esperando muito tempo?” (id., p. 1.514)

12) um instante tinha eu o desejo de lhe perguntar o que havia entre Capitu e os peraltas do bairro […]” (id., 1.596).

Onde está a contradição do Houaiss? Está no verbete apesar:

a[pesar] de que

não obstante que; ainda que

Ex.: não o via há muito, apesar de que o sabia doente

Sabemos que um dicionário é obra coletiva, de que participam dezenas de pessoas. Quem escreveu o verbete apesar certamente usa com toda a tranquilidade o verbo haver sem a correlação temporal exigida por quem compôs o verbete haver. Ora, a forma já deixou de ser verbo, passou por um processo de gramaticalização e mudou de classe, tornando-se uma mera palavra funcional, como um advérbio ou uma preposição.

Machado de Assis usa melhor onde muitos puristas exigem mais bem: “E foi à estante e tirou um dos relatórios para ser melhor visto” (em lugar de mais bem visto; Esaú e Jacó, p. 1.881). Usa meia, no feminino, quando a palavra tem valor adverbial, o que, segundo os mesmos puristas, não devia ocorrer: “Os olhos chisparam e trocaram a expressão usual por outra, meia doce e meia triste” (Memórias póstumas de Brás Cubas, p. 781). E isso muitas e muitas vezes.

Faz já bastante tempo — um meio século — que gramáticos e dicionaristas das mais diferentes línguas abandonaram o truque matreiro de tentar iludir as pessoas com a patranha de que os “clássicos” sempre escreveram de acordo com a norma tradicional. Literatura é para ser lida e apreciada, é para contribuir com nossa formação intelectual e cultural — não é para servir de exemplo para nada nem ninguém. Imitar os clássicos é impossível: Machado de Assis é um milagre, um gênio único, um fenômeno que não se repete. Atualmente, as gramáticas e os dicionários comprometidos com a honestidade intelectual (desculpem-me os que se sentirem ofendidos… ou não) recolhem seus exemplos de textos escritos de outros tipos e gêneros: prosa acadêmica, escrita jornalística, textos técnicos e científicos, textos institucionais. Porque são esses textos que as pessoas comuns, que não desejam se tornar clássicos da literatura, precisam aprender a escrever para levar adiante sua vida pessoal e profissional. E é da prática de quem produz esses textos que devemos depreender as regras de uso reais da língua culta.

Já em 1985, o linguista brasileiro Mário A. Perini, em seu pequeno livro Para uma nova gramática do português (Ed. Ática), reivindicava o abandono do texto literário em favor de textos sem pretensões estéticas. Seu pedido foi ouvido e já temos disponíveis no Brasil muitas obras que descrevem o português brasileiro com recurso a outras fontes de exemplos. Desse modo, é impossível tratar de regência verbal hoje sem recorrer ao Dicionário gramatical de verbos, coordenado por Francisco da Silva Borba (Ed. Unesp, 1990), que se vale de um corpus de língua escrita com mais de 75 milhões de palavras, o mesmo que serviu para a produção da Gramática de usos do português, de Maria Helena de Moura Neves (Ed. Unesp, 2001) e para o Dicionário de usos do português do Brasil, do mesmo Borba (Ed. Ática, 2006). Em minha Gramática pedagógica do português brasileiro (Parábola, 2012), os exemplos são retirados da internet e do corpus de língua falada do Projeto NURC (Norma Urbana Culta). A Nova gramática do português brasileiro, de Ataliba T. de Castilho (Contexto, 2010), também recorre ao corpus do NURC. E, por fim, a Gramática do português brasileiro escrito, de Francisco Eduardo Vieira e Carlos Alberto Faraco (Parábola, 2023), sistematiza a autêntica norma culta brasileira recorrendo exclusivamente a textos escritos não-literários. São obras que abordam o português brasileiro, de modo que não faria nenhum sentido citar exemplos de autores portugueses. Não há nenhum cabimento, em pleno século 21, em produzir “gramáticas do português” genéricas, como se a língua dos mais de 210 milhões de brasileiras e -leiros fosse a mesma dos pouco mais de 10 milhões de portuguesas e -gueses!

Já temos uma descrição ampla e pormenorizada do que é o português brasileiro culto — isto é, falado e escrito por pessoas com alto grau de escolarização e por profissionais da escrita —, não precisamos mais continuar apelando aos “clássicos” para, com eles, tentar criar a ilusão de uma língua perfeita, nobre, correta, a ser imitada. Vamos deixar os clássicos de fora da norma! Eles não merecem esse castigo. Nós, muito menos.


[1] Bechara, E. Moderna gramática portuguesa, Rio de Janeiro: YHL, 37ª ed., 1999, p. 52.

[2] Essa pesquisa está descrita no meu livro Objeto língua (Parábola Editorial, 2019).

[3] Assis, Machado de, Obras completas, e-book, Editora Viseu.

[4] Martins, Eduardo. Manual de redação e estilo de O Estado de S. Paulo, p. 85.