Não é MUDANÇA LINGUÍSTICA, é ERRO puro e simples!

[...] venho detectando uma postura problemática, como vou explicar adiante. É a postura de quem, tendo entrado em contato com a sociolinguística, acha que todo e qualquer uso linguístico que vira moda deve ser analisado como um indício de que a língua está mudando.

NORMA CULTAPORTUGUÊS BRASILEIROPORTUGUÊS BRASILEIRO CULTONORMA-PADRÃOCOLOCAÇÃO PRONOMINAL

Marcos Bagno

8/13/20268 min read

Volta e meia, faço postagens em que critico certos usos de palavras, expressões e construções gramaticais que decorrem de um domínio insuficiente da escrita mais monitorada. Invariavelmente, aparece algum comentário do tipo “mas isso não é a língua que está mudando?”; “você que luta contra o preconceito linguístico não está sendo preconceituoso?”; “por que criticar a mudança linguística?”; “a pessoa está usando variantes populares”, e por aí vai. Como dizia Macunaíma, herói de nossa gente: “Ai, que preguiça!”. Que me ajude a Cabocla Jurema, cheia de força e luz!

Faz milênios que as mudanças que se processam nas línguas têm sido vistas por um prisma negativo, como uma decadência, como a ruína do idioma, uma ameaça à própria existência da língua e, numa perspectiva sempre reacionária, como sinal da derrocada moral da sociedade. Os linguistas britânicos Leslie e James Milroy rotularam essa postura ideológica de “tradição da queixa” (complaint tradition), encontrável na história de todas as línguas institucionalizadas e dotadas de patrimônio literário. O sociolinguista estadunidense William Labov, por sua vez, fala do mito da “Idade do Ouro” linguística, uma era em que supostamente todas as pessoas falavam a língua de forma correta e sem os “desmazelos” da época atual. Já tratei desse fenômeno sociocultural em vários dos meus livros[1].

Curiosamente, venho detectando uma postura inversa — e igualmente problemática, como vou explicar adiante. É a postura de quem, tendo entrado em contato com a sociolinguística e seus postulados sobre a mudança, acha que todo e qualquer uso linguístico que vira moda deve ser analisado como um indício de que a língua está mudando — e toca a me criticar porque eu estaria criticando uma suposta mudança na língua. Não misture alhos por bugalhos, pelo amor de Santa Mundícia, mártir da fé e protetora da solteiras!

Uma coisa é a mudança, outra coisa são os casos em que a pessoa, sem conhecer plenamente a norma-padrão convencional, e tentando alcançá-la a todo custo, escorrega na hipercorreção (ou ultracorreção), isto é, numa forma que não corresponde nem ao padrão tradicional, nem aos usos correntes que a gente faz da língua. A hipercorreção é filha da insegurança linguística, fenômeno amplamente estudado pela sociologia da linguagem. “Como assim por exemplo?”, perguntaria um saudoso amigo, que em paz descanse.

Até minha gata Zoé Eudóxia sabe que o verbo haver, com sentido “existencial”, praticamente desapareceu da fala espontânea brasileira, substituído faz um tempão pelo verbo ter. No ano de 1928, há quase um século, Carlos Drummond de Andrade publicou seu poema “No meio do caminho”, em que usou o verbo ter nesse sentido: “No meio do caminho tinha uma pedra”. Foi um escândalo porque, pela concepção de “boa literatura” da época, um uso “errado” como esse não tinha cabimento. Ora, se em 1928 o verbo ter como “existencial” aparece num poema, é porque ele já vinha sendo usado assim há muito tempo. Desse modo, o emprego de haver e suas formas depende da aprendizagem consciente, já que não faz parte da língua que se adquire espontaneamente na família e no círculo social imediato, mesmo de gente qualificada de “culta”. Não tendo aprendido bem o uso de haver, a pessoa se deixa levar por uma concepção hipercorreta de concordância verbal e escreve: “Houveram problemas na reserva do auditório”. Escrever “houveram problemas” em lugar de “houve problemas” é um exemplo clássico de hipercorreção. O mesmo vale para “tratam-se de problemas sérios” ou “são de pessoas assim que precisamos”, concordâncias verbais hipercorretas, ou seja, hiper·in·corretas. Esse uso de “houveram” não é mudança linguística: é falta de traquejo na lida com a escrita, o que não é um problema exclusivamente individual, mas sobretudo social, devido à paupérrima educação linguística oferecida nas escolas brasileiras[2].

Certa vez, topei com uma chamada jornalística que dizia assim: “Longas filas por um táxi na Itália são um sintoma de o porquê a economia do país não decola”. Creindeuspai! Isso para mim é nada menos do que um monstrengo, uma avantesma. De novo, por causa de uma educação linguística esquálida e maltrapilha, as pessoas têm dificuldade na hora de escrever por que, porque, porquê. Uma boa aula sobre isso com exercícios bem elaborados seria suficiente para que alguém aprendesse os usos corretos. Mas podemos esperar esse tipo de aula de professoræs com escasso domínio da leitura e da escrita (conforme têm mostrado inúmeras pesquisas), com formação precária e péssimas condições de trabalho e que têm elas e eles mesmos dificuldade nesse ponto? Ocorre cada vez mais o uso indiscriminado de o porquê quando um simples por que bastaria: “Longas filas por um táxi na Itália são um sintoma de por que a economia do país não decola” — simples assim. Esse uso de o porquê na chamada da reportagem não é mudança linguística: é, de novo, um sintoma de um problema social largo e fundo.

Infelizmente (eu diria até dolorosamente), esse problema sério tem avançado sobre a escrita acadêmica, jornalística, ensaística e também, para minha tristeza, sobre a produção ficcional, literária contemporânea. Leio textos de autores e autoras incensadas pela crítica (e até ungidas com a “imortalidade” acadêmica) e topo com hipercorreções, com erros puros e simples — coisas que não pertencem nem às variedades de uso autêntico da língua (sejam elas “populares” ou “cultas”) nem às prescrições da norma-padrão tradicional. Senão, vejamos:

“Quando chegaram por aqui, os traficantes de pessoas já tinham apagado os registros do lugar de onde haviam saído, redefinindo etnias com nomes genéricos como Mina (todos os embarcados na costa da Mina), feito-os dar voltas e voltas em torno da Árvore do Esquecimento (ritual que acreditavam zerar memórias e história) ou passarem pela Porta do Não Retorno, para que nunca mais sentissem vontade de voltar, separado-os em lotes que eram mais valiosos quanto mais diversificados, para que não se entendessem”[3].

As formas “feito-os” e “separado-os” são erradas de qualquer ponto de vista. Ninguém fala assim espontaneamente, ou seja, não se trata de uso autêntico, natural. A norma-padrão não prevê ênclise a particípios passados e nem carece proibi-la porque, repito, é uma construção que nunca fez e não faz parte da gramática do português. É hipercorreção na veia.

O fantasma da “colocação pronominal” assombra qualquer pessoa que já tenha sentado num banco de escola no Brasil. São regras totalmente contraintuitivas, que não correspondem em nonada à fonética do português brasileiro. Para piorar, as gramáticas normativas mentem deslavadamente a esse respeito: “Sendo o pronome átono objeto direto ou indireto do verbo, a sua posição lógica, normal, é a ênclise[4]. Cumé quié? Se fosse a posição “lógica, normal”, nós, duzentos milhões de brasileiræs, não usaríamos sistemática e categoricamente a próclise como colocação preferencial (aliás, quase única) dos pronomes átonos. Ou somos todas “ilógicas” e “anormais”? E o que dizer de quem fala espanhol, francês e italiano, línguas românicas como a nossa, em que a próclise ao verbo principal é a única prevista na gramática, com exceção, a depender da língua, do imperativo e das formas nominais do verbo?

Desde o final do século 19, o estudo das chamadas “leis fonéticas” tem mostrado que, nas línguas românicas, à medida que os pronomes oblíquos perdiam substância fônica e se tornavam átonos, sua posição foi sendo transferida para antes do verbo, a fim de se apoiarem nele, formando um grupo acentual. O português europeu (e seu primo-irmão, o galego) representam um caso único de preferência pela ênclise, o que revela o caráter conservador dessas línguas nesse aspecto (muito embora o português europeu, em fases mais antigas, fosse muito mais proclítico do que hoje, Camões que o diga[5]).

O português brasileiro, em suas mudanças independentes com relação ao europeu, já é uma língua em que os pronomes oblíquos vêm, quase categoricamente, antes do verbo, ou seja, em próclise. Justamente por isso é que as labirínticas regras e sub-regras da colocação pronominal expostas e prescritas nas gramáticas normativas não fazem o menor sentido para quem fala português brasileiro. De fato, somos o único povo falante de uma língua românica que tem de aprender regras contraintuitivas para saber onde enfiar seus pronomes na frase — nas outras línguas, as gramáticas simplesmente descrevem o modo como, intuitivamente, as pessoas fazem isso.

A autora do trecho acima se deixou levar, portanto, pelo canto de sereia do que a tradição normativa considera “lógico”, “normal” e escreveu algo estranho à gramática do português. Ela não quis ser “criativa”, não recorreu a “variantes populares”, não estava “desafiando a tradição” — simplesmente errou. E antes que me acusem de machista e racista (a coisa anda séria hoje em dia), apresento outro exemplo, com problema idêntico, da lavra de um homem branco, jurista e professor:

Segundo Mendes declarou à revista Veja e confirmou em entrevistas, Lula teria ofertado-lhe “blindagem” na Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) que apura o escândalo Cachoeira-Demóstenes-Delta. [...] O “Mensalão”, que Mendes sustenta haver Lula pedido-lhe para adiar, já foi objeto de sessões administrativas (com participação de Mendes), quando se acertou até o tempo para manifestação das partes”[6].

A mudança linguística é um fenômeno de outra ordem, extremamente complexo. Mudança linguística é, por exemplo, o emprego cada vez mais reduzido, na fala espontânea, de nós e o correspondente uso cada vez mais amplo de a gente. Com isso, nós se tornou um pronome de registro mais formal, menos frequente em situações de uso espontâneo da língua. Acompanho diversos canais jornalísticos na internet e verifico que o uso de a gente é quase categórico, beirando os 90%. Isso, sim, é uma mudança linguística.

Os usos linguísticos que eu critico não têm nada a ver, repito, com mudança linguística. São sintomas, também repito, de uma educação linguística indigente e de uma norma-padrão anquilosada, contraintuitiva e, como se viu, nada menos que mentirosa — terreno fértil para que prolifere o fungo alucinógeno da hipercorreção.


[1] Ver, por exemplo, Nada na língua é por acaso: por uma pedagogia da variação linguística: https://shre.ink/j1KY.

[2] Se quiser conhecer mais sobre a hipercorreção e como fugir dela, pode baixar de graça o fascículo Falsas elegâncias: https://shre.ink/j1vw.

[3] https://surl.li/woowpl.

[4] Cunha, C.; Cintra, L. F., Nova gramática do português contemporâneo. 7ª ed. Rio de Janeiro: Lexicon, 2016, p. 323.

[5] Ver, por exemplo, o capítulo “A falsa tirania e a manha vergonhosa: a próclise e a ‘língua de Camões’”, no meu livro Objeto língua, Parábola, 2019. Examinando os 848 versos do Canto I d’Os Lusíadas, encontrei 130 próclises contra 38 ênclises, próclises usadas fora dos contextos em que seriam “permitidas” pela tradição gramatical.

[6] https://shre.ink/j1hV.

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