Blog da Parábola Editorial

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O certo, o errado, a ciência e a má-fé

blogBagn_20240518-132716_1 “Por que os especialistas defendem os erros linguísticos?”

A ideia de que existe certo e errado na língua está enraizada no genoma da cultura dita ocidental. A disciplina que hoje chamamos gramática (ou gramática tradicional, como é costume chamá-la nos estudos linguísticos) se sistematizou em meados do século 4 antes da nossa era, graças ao trabalho dos eruditos de língua grega que trabalharam na célebre Biblioteca de Alexandria, no Egito. São, portanto, uns 2.500 anos de história, e eu brinco dizendo que a gramática é uma “religião” mais antiga que o cristianismo, o que faz as pessoas considerarem os compêndios gramaticais como livros quase sagrados, merecedores de toda reverência, e seus autores como uma casta de sacerdotes de uma seita esotérica.

O intuito dos gramáticos alexandrinos (chamados filólogos, ‘amigos da palavra’ ou ‘amantes do conhecimento’) era fixar uma norma para a língua grega, que tinha se tornado o veículo geral de comunicação entre muitos povos de línguas diferentes, numa vasta área que incluía a Grécia, a Turquia atual, todo o Oriente Médio e o Egito. Fixar uma norma significa, inescapavelmente, fazer escolhas, e fazer escolhas significa, inevitavelmente, descartar tudo o que sobra depois de feita a seleção. O que a norma seleciona então passa a ser o certo, o correto, o aceitável, enquanto o que não entra na norma é o anormal, o equívoco, o que deve ser evitado. A palavra latina norma designava o esquadro, o instrumento de aferição usado pelo carpinteiro. Não por acaso dizemos que uma coisa está “fora de esquadro” quando não corresponde ao que se esperaria que fosse.

Mas eis que chega o século 19, um século importantíssimo sob todos os aspectos no que diz respeito às grandes transformações ocorridas na história europeia. Os progressos tecnológicos se multiplicaram em ritmo nunca antes conhecido, a partir da chamada Revolução Industrial, e muitas das áreas de conhecimento que hoje rotulamos de ciências se estabeleceram naquele período ou adotaram princípios e métodos rigorosos, em contraposição com o que se fazia anteriormente nelas. É nesse século 19 que nasce a linguística dita “científica”.

Tal como as demais ciências modernas, a linguística se sistematizou como uma disciplina descritiva-explicativa, interessada em observar, descrever e interpretar todo e qualquer fenômeno da linguagem humana, e não apenas aqueles secularmente tidos por “bons” ou “corretos” em línguas específicas. Essa mudança de perspectiva foi bastante radical com relação ao que se fazia até então quando o assunto era língua. Em vez de descartar os chamados “erros”, o pesquisador via (e vê) neles um material precioso para estudar o fenômeno que mais ocupou os linguistas do século 19: a mudança linguística, a história das línguas, desde o seu passado mais remoto até os dias atuais. Desse modo, para entender por que o latim genuculu- se transformou no português joelho ou por que o latim avicellu- se transformou no francês oiseau (‘pássaro’), não fazia (não faz) sentido dizer que foi porque os povos que vieram a ser chamados de português e francês falavam latim “errado”, “assassinavam” o latim ou “arruinavam” a bela língua de Cícero, Virgílio e Horácio. A observação atenta e a formulação teórica adequada mostraram que todo e qualquer suposto “erro” tem sua razão de ser, tem uma explicação plausível, pode ser agrupado em conjuntos semelhantes de fatores, o que comprova que existe uma regularidade (e até uma previsibilidade) nas mudanças linguísticas, regularidade constatada na comparação entre línguas das mais diferentes famílias e tipos ao longo do tempo.

No caso das mudanças fonéticas, ou seja, ocorridas nos sons das línguas, por exemplo, a explicação está num fato banal: todos os seres humanos dispomos dos mesmos dispositivos físicos que nos permitem emitir sons — lábios, língua, boca, dentes, nariz, palato, laringe, faringe, pulmões… —, de modo que as regularidades das mudanças fonéticas se verificam mundo afora, em línguas sem nenhum parentesco entre si. Assim, em incontáveis línguas do mundo, a presença de uma vogal [i] depois de [d] e [t] levou e leva à palatalização dessas consoantes, como na maioria das variedades do português brasileiro em que dia e tia se pronunciam como “djia” e “tchia”, ou como no inglês antigo kirk que se transformou em church (‘igreja’), ou ainda na passagem do latim diurnu- a giorno (‘dia’) em italiano, com um gi- que se pronuncia “dji”. De igual modo, as sílabas ke- e ki-, por causa do caráter palatal das vogais [e] e [i], tendem a se transformar em tse/tsi, em tche/tchi, em se/si ou na interdental que se escreve th em inglês (como em think). Por isso é que, em português (e outras línguas), temos um som [k] em casa, comida, cura, mas [s] em cena e cinema — o uso da letra c nesses casos é mera servidão etimológica, e na fase mais antiga da língua ce- e ci- se pronunciavam [tse] e [tsi].

Uma comprovação de que nada na língua é por acaso, tudo tem explicação, é o fato de existir toda uma terminologia técnica para descrever o que o senso comum chama de “erro” na língua. Esses termos são muitos, todos de origem grega, com exceção de alguns importados do sânscrito, a língua clássica do hinduísmo (os sábios hindus, séculos antes dos europeus, tinham produzido estudos gramaticais que até hoje nos surpreendem pelo refinamento). Vou dar exemplos de alguns desses termos e os fenômenos que designam.

Do latim semper temos sempre em português; de merulu temos inicialmente merlo e em seguida melro; de fenestra temos feestra e, mais tarde, fresta; de noviu- temos noivo; do provençal guirlanda temos grinalda (além de guirlanda, claro). Esse fenômeno se chama metátese, a mudança de lugar de um segmento sonoro dentro da palavra: em semper > sempre, temos a troca -er > -re; de merlo para melro, o l e o r trocaram de lugar; de feestra para fresta, foi o r que se deslocou; em noviu- > noivo, foi o i; em guirlanda > grinalda, mudaram de lugar o r, o n e o l. Essas foram mudanças históricas (ou diacrônicas, como se diz em linguística), mas mudanças desse tipo estão muito presentes na língua atual quando ouvimos estrupar (por estuprar), depedrar (por depredar), largato (por lagarto), em que o r “pula” para a sílaba anterior; também são metáteses vrido (< vidro), tauba (< tábua), parteleira (< prateleira) entre outros.

As palavras latinas nec, mihi e sic estão na origem de nem, mim e sim. O grupo inicial latino ex- se transformou em enx- ou ens-: exagiu- > ensaio; exame- > enxame; exsucare > enxugar; exiectare > enjeitar. Esse fenômeno tem o nome óbvio de nasalização. É ele que está em ação nas pronúncias indiota, indentidade, inzami (< exame), inzigenti (< exigente), renca (< récua) etc. É curioso notar que, por ser fenômeno histórico, ninguém vê erro em enxame, mas muita gente condena inzami, mesmo que as duas palavras derivem do latim exame-.

Um dos termos que a linguística histórica adotou da gramática sânscrita é suarabácti (de svarabakhti, ‘inserção de vogal’), também chamada anaptixe (não sei qual dos dois é mais esquisito). Trata-se da inserção de uma vogal que rompe uma sequência de consoantes: latim blatta < brata < barata; planu- < prão < porão; do frâncico (língua germânica) kruppa temos grupa e daí garupa. É esse mesmo fenômeno que está presente nas pronúncias terém (por trem), fulô (< flor) e nas formas rurais de alguns nomes próprios como Gulória (< Glória) e Quelemente (< Clemente). De resto, já é consenso entre os linguistas que em português brasileiro não existem consoantes “mudas”: na fala de todos nós, mais ou menos letrados, as palavras pneu, advogado, opção, amnésia etc. são pronunciadas como pineu, adivogado/adevogado, opição, aminésia etc.

Na história da língua temos muitos casos de deslocamento do acento tônico da palavra: pantano > pântano; océanu- > oceano; benção > bênção; erámus > éramos; gémitu- > gemido; límite > limite etc. Mas na atualidade isso também acontece: púdico (por pudico), clítoris (por clitóris), rúbrica (por rubrica), réfem (por refém), líbido (por libido), catéter (por cateter) etc. Esse deslocamento se chama hiperbibasmo.

Por fim, uma mudança fonética tsunâmica na história da língua foi a transformação de proparoxítonos latinos em paroxítonos em português. Essa mudança se deu graças à síncope, isto é, à queda de um segmento sonoro no interior da palavra: ásinu > asno; ánima > alma; régula > regra; mágicu- > meigo; mácula > malha; tábula > tábua; fábrica > frágua; aurícula > orelha; apicula > abelha; úmeru- > ombro; tégula > telha; óculu- > olho; dígitu- > dedo… Sendo a tendência predominante a acentuação paroxítona, são incontáveis os casos de síncope histórica. De novo, a mesma tendência prossegue nos dias de hoje: corgo (< córrego), sabo (< sábado), lampa (< lâmpada), passo (< pássaro), musga (< música), abobra (< abóbora), palavras identificadas como de uso rural ou de pessoas pouco escolarizadas. Mas o fato é que mesmo as pessoas muito letradas tendem a pronunciar, no ritmo normal da fala, as proparoxítonas com a supressão (a síncope, portanto) da vogal átona postônica, e os aparelhos que registram a fala estão aí para comprovar isso.

A linguística histórica do final do século 19 (e a sociolinguística variacionista dos nossos dias) adotou um princípio teórico tomado de empréstimo à geologia, o princípio do uniformitarismo ou uniformitarianismo, assim definido no dicionário Houaiss:

teoria segundo a qual os processos geológicos do passado teriam ocorrido essencialmente com a mesma intensidade dos de hoje e, consequentemente, as modificações havidas na superfície terrestre teriam resultado de forças análogas às que agem no presente (no verbete atualismo, outro nome para uniformitarismo).

Essa teoria se opunha à do catastrofismo, segundo a qual as transformações da crosta terrestre teriam ocorrido por eventos súbitos, violentos, únicos e inusuais. No caso da língua, os exemplos que demos acima dão respaldo à tese uniformitarista: as mesmas mudanças fonéticas ocorridas no passado continuam a acontecer no presente e segundo as mesmas tendências, verificadas na história das mais diferentes línguas humanas.

As transformações fonéticas que analisamos acima são reunidas no rótulo geral de metaplasmos. Vimos somente cinco deles (metátese, nasalização, suarabácti, hiperbibasmo e síncope), mas existem muitos mais: prótese, paragoge, aférese, apócope, vocalização, consonantização, palatalização, assimilação, dissimilação, sândi, sonorização, assibilação, crase, sinalefa, elisão, sinérese, diérese, sístole, diástole, apofonia, metafonia… Se é possível catalogar todas as mudanças e agrupá-las em tipos, é porque, como já vimos, elas são regulares, frequentes e até previsíveis: se uma língua tem um ditongo au é fácil prever que no futuro (ou no presente, em determinadas variedades sociais e/ou geográficas) ele se transformará em o (depois de um estágio intermediário ou, como o latim paucu- que nos deu pouco, pronunciado p[o]co, apesar da ortografia conservadora), assim como um ditongo ai está fadado a se simplificar em e (depois de um estágio intermediário ei: veja-se o inglês laid, que ainda se pronuncia l[ei]d, mas said que já se pronuncia s[e]d).

As mudanças também ocorrem na morfossintaxe, isto é, no que normalmente se chama a gramática de uma língua. Essas também estão bem catalogadas: gramaticalização, lexicalização, analogia, reanálise, construcionalização…

Um especialista em fonética do inglês, Geoff Lindsay, postou em seu canal do Youtube um vídeo intitulado “Why do experts defend language mistakes?” (“Por que os especialistas defendem os erros linguísticos?”): https://www.youtube.com/watch?v=I6duEGj04Mg&t=1s. Ali ele explica, como fiz acima, que os chamados erros são indícios das mudanças ocorridas e por ocorrer na língua, e que por isso são um prato cheio para a investigação linguística. Mas o título do vídeo se refere a uma distorção muito comum quando se trata do trabalho dos linguistas: pelo fato de descrevermos e explicarmos esses fenômenos de mudança, muitas pessoas dão um salto ideológico adiante e acham que estamos “defendendo” os erros e até incentivando as pessoas a “falar errado”.

Nada mais distante da verdade: os linguistas que têm uma mínima consciência social sabem que os usos linguísticos considerados errados (pelas camadas dominantes da sociedade) levam seus usuários a sofrer estigmatização, preconceito e discriminação. Diante disso, o que defendemos é que, sim, todas e todos devem ter garantido o acesso à escolarização de qualidade, a única que permite a ampliação do repertório linguístico das cidadãs e dos cidadãos, o contato com as normas de prestígio e sua inserção na cultura letrada.

Pessoas que têm conhecimento suficiente para entender esse posicionamento dos linguistas e, mesmo assim, apregoam que “mentimos” sobre os fatos da língua ou promovemos o “assassinato” da língua portuguesa agem por absoluta falta de caráter, por uma má-fé encharcada de ideologia fascistoide, essa praga que infecta nosso convívio social hoje em dia. Mas elas podem lacrar à vontade nas redes digitais, propagar um terraplanismo linguístico ou um negacionismo diante dos fatos comprovados empiricamente: a história tem mostrado que não há fascismo que dure por muito tempo e que a ciência, por mais espezinhada e ultrajada, sempre dá a volta por cima e prevalece.

https://www.parabolaeditorial.com.br/nada-na-lingua-e-por-acaso--por-uma-pedagogia-da-variacao-linguistica-19936771 

 

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