EXISTEM DE FATO LÍNGUAS “CRIOULAS”?
Um aspecto interessante desta Copa de 2026 é a presença entre suas seleções das de três países cujas populações falam “crioulos”: Haiti, Cabo Verde e Curaçao. Mas o que significa dizer que uma língua é um “crioulo”?
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Marcos Bagno
6/30/202610 min read
A Copa do Mundo de Futebol de 2026 é, sem dúvida, uma lamentável demonstração da degradação moral que reina hoje no mundo. Realizado em sua maior parte nos Estados Unidos, esse campeonato deveria ter sido boicotado por todas as pessoas — de governantes a atletas, para começar — com um mínimo de decência ética diante dos descalabros fascistas, imperiais e megalomaníacos do atual presidente daquele país. Mas o mesmo campeonato já tinha ocorrido sem problemas em 2022 no Catar, uma monarquia absolutista, onde as mulheres sofrem todo tipo possível de repressão e onde metade da população é constituída de “trabalhadores” imigrantes do Sudeste asiático, tratados, de fato, como escravos praticamente sem direito algum. E, não bastasse, em 2026 impera o fu-bet-ol, como escreveu Sérgio Rodrigues na Folha de S.Paulo: um campeonato patrocinado por empresas e pessoas que fazem propaganda irrefreada de apostas, uma verdadeira droga, uma grave questão de saúde pública que está levando ao endividamento, à miséria e mesmo à morte milhares de pessoas Brasil afora.
Um aspecto interessante desta Copa de 2026 é a presença entre suas seleções das de três países cujas populações falam “crioulos”: Haiti, Cabo Verde e Curaçao. Mas o que significa dizer que uma língua é um “crioulo”?
O termo “crioulo” é uma das palavras que o português legou às outras línguas europeias (junto com barroco, fetiche, cobra, auto de fé e tanque [de guerra], entre outras). Surgiu nos finais do século 16 e deriva do verbo criar. Inicialmente, crioulo designava o indivíduo que, de origem europeia, era nascido em terras colonizadas. Esse sentido se fixou no espanhol criollo, especialmente na América Latina, para designar a parcela branca da sociedade que, já nascida e criada nas colônias, aos poucos foi nutrindo sentimentos nacionalistas e fomentando os movimentos de independência. Entre nós, crioulo foi adquirindo o sentido de pessoa negra nascida no Brasil e, generalizando-se, passou a designar, muitas vezes com valor depreciativo, qualquer pessoa negra, uso que existe até hoje (pensemos, por exemplo, no célebre “Samba do crioulo doido”, de Stanislaw Ponte Preta [pseudônimo do jornalista e humorista Sérgio Porto, 1923-1968], de evidente cunho pejorativo).
Nos estudos linguísticos, o termo crioulo passou a designar modos de falar resultantes de contatos entre línguas, especialmente de línguas europeias de potências colonizadoras e línguas africanas. É daí que resultam classificações como “crioulo de base portuguesa”, “crioulo de base francesa”, “inglesa”, “espanhola” ou “holandesa”. Segundo os relatos já clássicos na linguística, a necessidade de interação entre os colonizadores e as populações locais faz surgir, nestas, sistemas rudimentares de comunicação que se valem do aprendizado de palavras e construções morfossintáticas da língua colonial. Esses sistemas podem se tornar um pouco mais complexos, com a integração de elementos da língua local. É a partir daí que recebem o nome de pidgin, uma provável alteração do inglês business (‘negócio’) na fala de chineses. O tempo passa, e esse pidgin fica ainda mais complexo, passa a ser transmitido de uma geração a outra, adquire uma gramática e um léxico próprios e se torna língua materna de uma comunidade. É quando passa a ser chamado de crioulo.
A característica mais evidente dos crioulos é serem línguas maternas de pessoas negras, especialmente das escravizadas durante o processo colonial e levadas para longe da África, para as ilhas do Caribe e o resto do continente americano. Em muitas situações, essas pessoas falavam línguas africanas diferentes e, para interagirem entre si e com seus proprietários, desenvolveram um sistema de comunicação formado de elementos da língua colonial e de suas línguas nativas.
No caso de Cabo Verde, estas ilhas eram desabitadas quando os portugueses lá chegaram em meados do século 15. Estes trataram de transformar o arquipélago em centro de “produção” e “exportação” de mão de obra escrava. Trouxeram pessoas negras do continente africano, miscigenaram-se com elas, o que explica o fato de quase metade da população cabo-verdiana ser etnicamente mestiça. A situação estratégica de Cabo Verde no oceano Atlântico favoreceu a transformação das ilhas em entreposto do tráfico negreiro. Essa história explica o surgimento do kabuverdianu: pessoas que não falavam línguas comuns aprenderam o português de forma irregular e assistemática e regramaticalizaram a língua dos colonizadores, introduzindo nela termos e estruturas de diferentes línguas africanas. Acredita-se que o papiamento, a língua da maioria da população de Curaçao, tenha sua origem mais remota no crioulo cabo-verdiano, já que essa colônia holandesa teria recebido um grande contingente de pessoas escravizadas provenientes de Cabo Verde. Tanto em Curaçao quanto em Cabo Verde, o verbo papiá, do português papear, significa ‘falar’. Quanto ao Haiti, o aysyen, é o “crioulo” mais empregado do mundo, com mais de dez milhões de falantes nativos.
As chamadas línguas crioulas chamaram a atenção dos linguistas a partir do século 19. Foi o alemão Hugo Schuchardt (1842-1927) o primeiro a se dedicar com profundidade a esses idiomas. Ao contrário de Schuchardt, porém, que considerava os crioulos línguas como outras quaisquer, a maioria dos linguistas e das pessoas leigas passaram a considerar os crioulos como línguas rudimentares, inferiores e deficientes. Para o importante linguista estadunidense Leonard Bloomfield (1887-1949), por exemplo, os pidgins e crioulos eram “aberrações”, tão defeituosas que, em sua opinião, não eram objeto de pesquisa apropriado. Essa concepções têm sua origem nas atitudes adotadas pelos ocidentais diante dos falantes dessas línguas, povos africanos, sobretudo, mas também ameríndios e asiáticos, quase sempre tidos como “selvagens” e, portanto, incapazes de adquirir plenamente os hábitos, a cultura e a língua dos “civilizados”.
Mesmo quando não deixavam transparecer opiniões racistas, os estudiosos atribuíam aos crioulos um caráter excepcional, como se pertencessem a uma tipologia linguística própria, diferente da que inclui as outras línguas. Isso porque, nessa teorização, os crioulos são línguas em que ocorreram simplificações drásticas da gramática da língua europeia que lhes serviu de base. Algumas características compartilhadas pelos crioulos parecem justificar esse entendimento: ausência de artigos, ausência de gênero gramatical, ausência de flexão (como, por exemplo, nos verbos, que exibem uma única forma para todas as pessoas, ao contrário do que se dá nas línguas europeias dos colonizadores). Mas será que é mesmo assim?
A linguística, como qualquer ciência, é uma área de conhecimento frequentada e fomentada por sujeitos vinculados a sociedades, culturas e… línguas. Em seus primórdios, a linguística foi uma ciência essencialmente branca, masculina e europeia. Quando surgiu, no século 19, seu programa de pesquisa mais importante foi reconstruir uma língua pré-histórica (chamada indo-europeu) que estaria na origem da maioria das línguas faladas na Europa e na Índia, uma língua que — por uma incrível “coincidência”! — apresentava características que a tornavam “superior” a outras, uma superioridade que teria sido transmitida a suas línguas-filhas. Da virada do século 18 para o 19 e até bem entrado o 20, a corrente principal da linguística vai afirmar o caráter “desenvolvido” das línguas indo-europeias e o “primitivo” de todas as demais línguas do mundo. De fato, foi com base nessa ideologia linguística que outra ideologia, a nazista, se apoiou para afirmar não só a superioridade da língua, mas da própria “raça” indo-europeia, chamada então de ariana. Sabemos as consequências monstruosas de tudo isso.
Ora, se as línguas “normais” de outras regiões do mundo já eram, por si mesmas, numa visão típica do racismo científico, deficientes e subdesenvolvidas, o que dizer de modos de falar que resultavam de uma suposta simplificação radical de línguas europeias? Não podiam mesmo passar de “aberrações”.
Essa concepções distorcidas pelo racismo e pela mentalidade colonialista só começaram a ser denunciadas como tais quando linguistas não-europeus entraram no jogo. Assim, Salikoko Mufwene, natural da República Democrática do Congo e hoje professor da Universidade de Chicago, escreveu:
“Os crioulos são especiais do ponto de vista epistemológico somente por um acidente do modo como nós temos feito linguística, não porque eles tenham se desenvolvido por qualquer processo evolutivo que não tenha ocorrido nos desenvolvimentos de outras línguas, nem porque sua gênese esteja inserida em ecologias sócio-históricas drasticamente diferentes do tipo em que evoluíram as línguas não crioulas, nem sequer porque representem algum tipo estrutural global de sistemas linguísticos. São tão naturais quanto as línguas não crioulas”.
Para Mufwene, os crioulos em nada se diferenciam de outros processos de reestruturação linguística disparados pelo contato entre línguas, como ocorreu, por exemplo, na formação das línguas românicas a partir do latim. O mesmo autor afirma que muitas das supostas especificidades das línguas crioulas são, de fato, ilusões teóricas criadas pelo fato de que os crioulos surgiram do processo colonial e são falados predominantemente por negros. Ele acusa, sem rodeios, a linguística de se deixar guiar por critérios de etnicidade, ou seja, por racismo, ainda que não explícito.
Argumentos semelhantes são empregados pelo haitiano Michel DeGraff, para quem a “falácia da excepcionalidade do crioulo” é o “mito mais perigoso dos linguistas”. Em sua análise, a suposta excepcionalidade das línguas crioulas deriva do racismo científico preponderante na cultura europeia do século 19: uma ideologia que buscava justificar a escravidão por meio da representação dos escravos como seres humanos “inferiores”, quase não humanos, cognitivamente deficientes e, por conseguinte, incapazes de falar uma língua digna do nome.
Quando muito, a única excepcionalidade dos crioulos reside no fato histórico de terem surgido de um processo de mudança mais rápido (e violento) do que, por exemplo, o que se deu na formação das línguas românicas. O contato é um elemento acelerador dos ritmos da mudança linguística. Por isso, as línguas crioulas aparentam ser transformações radicais das gramáticas das quais se originaram. No entanto, transformações igualmente radicais se processaram na formação histórica da língua francesa — decerto a que mais se distancia do latim — e da língua inglesa — muito diferente do anglo-saxão falado na Inglaterra após a invasão da ilha por populações vindas da Alemanha e da Escandinávia. Para Bernard Cerquiglini, o francês é “um crioulo que deu certo” (“un créole qui a réussi”), isto é, uma língua surgida de transformações muito profundas e que ganhou importância política e se impôs como língua nacional e imperial.
Outro aspecto sempre enfatizado no estudo dos crioulos é a simplificação dos paradigmas verbais, com o pronome-sujeito sempre explícito e o verbo numa forma única para todas as pessoas. Ora, essa é uma descrição em que se encaixa perfeitamente o inglês. Nessa língua, os verbos regulares apresentam uma única forma para todas as pessoas no presente, com exceção da 3ª pessoa singular, que recebe uma terminação -s no singular: I, you, we, they love; he/she/it loves. Já na conjugação do passado, a forma verbal é sempre a mesma para todas as pessoas: loved. Também o francês exige a enunciação do sujeito, uma vez que apesar das diferenças escritas, muitas formas verbais apresentam pronúncia idêntica (aimai, aimer, aimez, aimé, aimés, aimée, aimées etc., todas pronunciadas [eˈme]).
O processo de formação das línguas crioulas é idêntico, portanto, ao da formação das línguas que não recebem essa classificação. O estudo histórico de toda e qualquer língua revela essas simplificações: perda da morfologia de casos, redução das flexões, fixação de uma ordem dos constituintes da sentença, eliminação de redundâncias etc. No inglês e nas línguas românicas, por exemplo, desapareceu a morfologia dos casos, restando apenas alguns vestígios (o genitivo em inglês, com o uso de ˈs — this is Peterˈs house [ˈessa é a casa do Pedroˈ]; a variação morfológica dos pronomes segundo a função sintática: eu-sujeito, me-objeto). Os três gêneros do latim (feminino, masculino e neutro) se reduziram a dois nas línguas românicas (feminino e masculino). Em inglês, os gêneros desapareceram por completo nos substantivos, adjetivos e determinantes. A conjugação verbal em dinamarquês, sueco e norueguês apresenta uma morfologia extremamente simples.
Os colonos holandeses que se estabeleceram na África do Sul submeteram a língua neerlandesa a um processo de simplificação idêntico ao atribuído às línguas “crioulas”. Disso surgiu uma língua, o africâner (afrikaans), que nunca aparece nas listas clássicas de “crioulos”, sem dúvida porque é língua falada por gente branca. O inglês moderno, com sua morfossintaxe muito simples, resulta do contato entre o antigo anglo-saxão e a língua dos escandinavos que se fixaram no leste da Inglaterra no século 9. Os escandinavos falavam o norueguês antigo, uma língua aparentada ao anglo-saxão. Para uma interação mais fácil entre as comunidades, as pessoas foram simplificando a morfologia de ambas as línguas, o que resultou no inglês que conhecemos hoje.
Se as línguas crioulas fossem de fato uma mera simplificação da língua europeia que lhe serviu de base, os falantes desta língua europeia deveriam entender facilmente o que se diz nos crioulos. Só que isso não acontece. Experimente ouvir uma música cantada pela cabo-verdiana Cesária Évora: você vai reconhecer muitas palavras, mas não vai entender de modo algum o sentido total do texto. Veja, por exemplo, a bela letra de “Partida” (de Ney Fernandes):
Nha kretxeu, dja m’sta ta parti
Oi, partida, so bo podia separa-nu
Nha kretxeu, lavantá pa m’ben brasa-bu
Lavantá pa m’ben beja-bu
Pa N karisia-bu es bo fase
S'el ta sirvi pa leva-l
Ma-l ta sirvi pa transporta-l
Kaminhu lonji, separasan
Es sofrimente, nh'amor pa bo
Oi, partida, bo leva-l, bo ta torna traze-l
Oi, madrugada, imáji di nh'alma
Ma nha kretxeu ntrega-m ses lágrimas
Pa m’ka sofrê nen txorá
Es sofrimente ka é so pa mi
Oi, partida, bo é un dor profundu
Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=8-dWOtbYSP0. Acesso em 30 jun. 2026.
Por fim, é importante ressaltar que o termo crioulo é empregado por seus falantes hoje em dia, especialmente no Haiti e em Cabo Verde, como marca de identidade nacional diante da língua oficial, do ex-colonizador, designando a língua da maioria da população, já desprovido de sua carga pejorativa mais antiga. Desse modo, o que está sob crítica já nem é mais tanto o termo em si, mas a teorização que atribuía a essas línguas algum tipo de caráter “especial”, quase sempre “defeituoso”.
