A INSANÍSSIMA TRINDADE DO ENSINO DE PORTUGUÊS
Conheça a “insaníssima trindade” que ainda assombra salas de aula e livros didáticos de português. Três mitos, um século de insistência e um sistema inteiro que se recusa a mudar. Clique e entenda.
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Marcos Bagno
3/31/20269 min read


Existem três grandes baboseiras que se repetem no ensino de português no Brasil há século e meio, resistentes e renitentes como se feitas de mármore, titânio, diamante ou algo igualmente indestrutível. Elas compõem a insaníssima trindade da nossa pedagogia de língua:
(1) a infame “colocação pronominal”;
(2) a sórdida “concordância com a partícula se”;
(3) a torpe “mistura de tratamento”.
As concepções de ensino de língua mudam, as ideias do que se deve ou não ensinar são criticadas e reformuladas, as noções de gramática e norma se atualizam, mas aquela trinca de estultices permanece inflexível, especialmente nos livros didáticos e no metaverso dos pseudoespecialistas em português que brotam como bactérias no lamaçal da internet. Quosque tandem?
No caso da colocação pronominal, observações sesquicentenárias e pesquisas científicas realizadas há mais de meio século no Brasil já provaram e comprovaram que só existe uma regra na sintaxe dos clíticos no português brasileiro: os pronomes oblíquos ocorrem sempre em próclise ao verbo principal. Pronto, acabou, aceite a luz em seu coração e seja feliz. Esqueça as 16 páginas com regras e sub-regras sobre onde posicionar os clíticos, gargalhe na cara de quem falar da tal “atração” que certas palavras exerceriam sobre eles — é tudo baboseira. Se quiser usar a ênclise, fique à vontade. Mesóclise? Be my guest. Mas não venha querer corrigir quem segue a tendência proclítica única, natural, autêntica e espontânea da nossa língua (que não é a mesma das portuguesas e dos portugueses, nunca é demais insistir).
E é triste ver, na pena de gramáticos respeitáveis, afirmações no mínimo falaciosas como: “Sendo o pronome átono objeto direto ou indireto do verbo, a sua posição lógica, normal, é a ênclise” (Cunha; Cintra, 2021).
Oxente! Por que “lógica”? E o que se entende por “normal”? Normal onde, cara pálida? Em italiano, francês e espanhol os objetos diretos e indiretos também normalmente vêm depois do verbo, mas nessas línguas, quando o objeto é um pronome, a próclise ao verbo principal também é o que há de mais normal — aliás, com exceção de infinitivos e imperativos (em espanhol e italiano), a próclise é a única colocação existente na língua autêntica contemporânea (falada e escrita) de hispanófonos, francófonos e italianófonos. A fonética brasileira é radicalissimamente distinta da fonética portuguesa, a colocação pronominal prescrita na tradição gramatical retrata o uso, este sim, lógico e normal das portuguesas e dos portugueses quando falam sua língua! Na verdade, o galego e seu primo-irmão português europeu é que diferem de todas as demais línguas românicas por favorecerem a ênclise sobre a próclise, são os esquisitões da família ou, melhor, os antiquados, porque conservam um traço que ficou para trás nas outras línguas. Me deixem ser brasileiro!
Quanto à abstrusa exigência de concordância do tipo “alugam-se salas”, venho escrevendo sobre ela há um quarto de século, de modo que já perdi a paciência. Na primeira década do século 20, o grande filólogo Manuel Said Ali Ida (1861-1953) escreveu que era possível duvidar da “sanidade mental” de quem diz que “aluga-se esta casa” é equivalente a “esta casa é alugada”. E o mesmo vale, claro, para o plural: “aluga-se salas” é um bicho de uma espécie muito diferente de “salas são alugadas”. E Monteiro Lobato (1882-1948), em 1922, publicou seu famoso conto “O colocador de pronomes”, em que um purista tarado chamado Adrovaldo Cantagalo sai pelo mundo tentando corrigir os pronomes alheios até morrer apoplético ao ver um pronome em lugar “errado” na dedicatória de um livro que ele mesmo escreveu. Vejam: 1922!
Problema: a tradição normativa inventou uma classe gramatical ad hoc que inclui um único elemento, o se. Deu a ele o nome de “partícula apassivadora”. Ora, na língua as palavras são verbos, substantivos, adjetivos, pronomes, advérbios etc. Não se pode tirar do bolso do colete uma classificação com o único fim de justificar uma concordância que vai na contramão da intuição linguística do falante (o melhor gramático que existe). É ulutantemente óbvio que nós interpretamos o se de tais construções como um sujeito com traço semântico indeterminado. Não há traço passivo algum nessas construções.
Numa placa que vi certa vez numa feira de artesanato aparecia: “Aqui se come, aqui se bebe, mas aqui também se lava os pratos”. O se dessas frases equivale a “a gente”, “você”, “alguém”: “Aqui a gente come, aqui a gente bebe, mas aqui também a gente lava os pratos”. Ficaria totalmente absurdo escrever: “Aqui se come, aqui se bebe, mas aqui também se lavam os pratos”, porque a pessoa que come e bebe é a mesma que lava os pratos. A concordância cria o que chamo de reflexividade agramatical: desde quando os pratos se lavam sozinhos? Numa frase como: “Nesta granja se abatem mil galinhas por dia”, só consigo pensar em galinhas suicidas.
Evanildo Bechara (1928-2025) faz uma análise bem esclarecida do fenômeno: “A passagem deste emprego da passiva à indeterminação levou o falante a não mais fazer concordância, pois o que era sujeito passou a ser entendido como objeto direto, função que não leva a exigir o acordo do verbo”. Aconselho de fato a leitura de toda a discussão que ele faz sobre isso em sua gramática ( Bechara, 2009, p. 178 ). E estamos falando de Bechara, um autor longe de ser um revolucionário da língua.
Chegamos por fim à patética “mistura de tratamento”. O que há de mais sem sentido nessa história é querer normatizar as interações verbais entre pessoas quando falam em contextos espontâneos e até íntimos. Vejam só o que aparece num livro didático:
Quando estamos conversando com as pessoas, podemos tratá-las de diversas formas, como, por exemplo, por tu ou por você. Ao escolher uma dessas formas de tratamento, o falante deve mantê-la até o fim de sua conversa. Não deve, por exemplo, dirigir-se a alguém empregando tu e logo em seguida empregar você. Deve manter a uniformidade de tratamento. Na linguagem coloquial, é comum ignorar-se essa regra. Faz-se uma mistura de formas de tratamento (Faraco; Moura, 2008, v. 5, p. 222).
Os pronomes pessoais são os instrumentos básicos da comunicação verbal, são eles que nos permitem criar os mais diferentes tipos de relações sociais com as pessoas com quem falamos. E essas relações se modificam junto com as demais dinâmicas sociais. Não existe “mistura de tratamento”: o que de fato aconteceu no Brasil foi uma total reorganização do sistema pronominal. A comparação entre os usos dos pronomes pessoais em Portugal e no Brasil revela as fundas divergências que já se firmaram entre os dois sistemas. Faço esta comparação num artigo disponível na web (https://tinyurl.com/k7p2rwkc). Nos usos brasileiros, a correlação mais comum é você → te: “Você sabe que eu sempre te amei”. Qual é a probabilidade de alguém no Brasil dizer “Você sabe que eu sempre o/a amei”?
Confesso que me coço de irritação quando vejo essa tentativa de “uniformizar” o tratamento em legendas de filmes e seriados ou em histórias em quadrinhos. Faz algum tempo assisti Vidas amargas (East of Eden), filme de 1955 dirigido por Elia Kazan e estrelado por James Dean. Em determinada cena, o personagem de Dean sai na porrada com o irmão, uma briga feroz com muitos socos. Aí, no meio da briga, com sangue escorrendo da cara, o personagem do irmão grita: “Eu só estava querendo ajudá-lo!”. Ajudá-lo? Quem é que sob forte emoção e debaixo de porrada usa esse “-lo”? Qual o problema de escrever “Eu só queria te ajudar?”, meu bom pai Oxalá? Ia ocupar o mesmo espaço na legenda. É pura submissão atoleimada a uma prescrição que não tem sentido nenhum.
A tradição gramatical ocidental começou a se formalizar no século 3 antes da Era Comum, na célebre Biblioteca de Alexandria, cidade egípcia que tinha se tornado o mais importante centro cultural de língua grega. Seus formuladores tinham como objeto de estudo a literatura, as obras produzidas por “poetas e prosadores”, como se lê nas primeiras linhas da mais antiga gramática que sobreviveu ao tempo, a de Dionísio Trácio (170-90 aEC). Esse recurso aos grandes autores como fonte para exemplificar os “bons usos” da língua permanece firme e forte até hoje nas gramáticas e nos dicionários que se filiam a essa tradição.
A já citada (e boa) gramática de Celso Cunha e Lindley Cintra enuncia assim seu projeto: “Trata-se de uma tentativa de descrição do português atual na sua forma culta, isto é, da língua como a têm utilizado os escritores portugueses, brasileiros e africanos do Romantismo para cá” (Cunha; Cintra, 2021, p. xxiv). O recurso milenar ao trabalho dos literatos se preserva, enganchado a uma definição para lá de problemática de forma culta da língua. A noção de que a língua culta é a dos escritores tem sido criticada e redefinida pela linguística teórica há mais de século.
Hoje em dia, os exemplos para ilustrar os usos ditos cultos são extraídos da prosa acadêmica, da prática jornalística, dos textos jurídicos e técnicos etc., ou seja, usos que independem de um projeto estético particular, como é o dos escritores. Isso já vinha proposto em 1985 pelo linguista Mário Perini em seu livro Para uma nova gramática do português (Ática). E chegou a seu formato até agora mais bem acabado na Gramática do português brasileiro escrito, de F. E. Vieira e C. A. Faraco, publicada em 2023 (Parábola Editorial). A escola deve formar pessoas com boas habilidades de leitura e de escrita para a vida cotidiana e profissional – não tem que formar escritores brilhantes, muito menos autores de gramáticas!
Um (mais um) problema da tradição gramatical é recorrer aos autores consagrados para pinçar de suas obras somente os casos em que a prescrição normativa é corroborada pelo escritor. Ficamos assim com a ilusão de que os grandes autores sempre escreveram em consonância com as regras normatizadas, o que está muito longe de ser verdade. Machado de Assis seria então o “clássico a imitar”, porque sua escrita está cem por cento de acordo com o padrão estabelecido, com a “forma culta” da língua. Será mesmo?
Começo dizendo que Joaquim Maria Machado de Assis (1939-1908) é o maior escritor brasileiro de todos os tempos. Um fenômeno absoluto em todos os sentidos, a começar por sua origem social, filho de negro brasileiro com portuguesa branca, criado no morro do Livramento, autodidata etc. Só para deixar claro que não saí catando “erros” na obra machadiana para acusá-lo de escrever mal, apenas coletei exemplos que mostram o enviesamento tradicional da prática dos gramáticos normativos, de só ilustrar suas regras com usos que confirmam essas regras de antemão.
E já que falamos da tal “mistura de tratamento”, vejam os belos exemplos que encontrei no romance Quincas Borba (1891):
(1) — Que desconfiada que você é, Sofia! Juro por tudo o que há de mais sagrado, pela luz que me alumia, por Deus Nosso Senhor. Estás satisfeita?”.
(2) — Você louva os outros porque sabe que ninguém é capaz de o desbancar. Anda, meu vaidoso, já te conheço. (Quincas Borba)
(3) — Você sabe, apertos do negócio, algumas faltas... é preciso tapar um buraco daqui, outro dali… o diabo! É por isso que… Mas riamos, meu bem, não vale nada. Sabes que confio em ti.
(4) — Creio que dará um bom ministro. Você queria ver-me também ministro?
— Se você gostasse, que remédio?
— De maneira que, por teu voto, não o era? — perguntou Carlos Maria.
— Que hei de responder? — pensou ela, escrutando o rosto do marido. Ele, rindo:
— Confessa que me adorarias, ainda que eu fosse uma simples ordenança de ministro.
Os exemplos 1, 2 e 3 são de falas de Cristiano e Sofia Palha, marido e mulher. Em 4, o diálogo é entre outro casal, Carlos Maria e Maria Benedita. São falas sucessivas de um mesmo diálogo, em que os usos de tu e você se alternam alegremente. E as personagens são pessoas cultas, brancas, da classe abastada, vivendo em palacetes. E agora? Devemos acompanhar Machado ou obedecer ao livro didático?
Grande escritor é para ser lido e apreciado, não é para servir de exemplo de uso “correto” da língua, seja isso lá o que for. Os livros didáticos são importantes instrumentos de auxílio pedagógico, mas não podem ser adotados como se fossem infalíveis. Uma das tarefas (infelizmente negligenciada) da formação docente seria precisamente ensinar as pessoas a avaliar criticamente uma obra didática para saber aproveitar o que ela tem de bom e passar por cima do que nelas há de problemático.
A grande maioria da população brasileira é analfabeta funcional. Esse quadro trágico não vai melhorar nada se na escola ainda tivermos de desperdiçar tempo ensinando o que não existe, ocultando a realidade da língua, desprezando os muitos e importantes achados da pesquisa linguística que se faz sobre o português brasileiro há no mínimo cinquenta anos. Precisamos exorcizar o quanto antes nosso ensino de língua dessa tríade diabólica e das outras inutilidades absurdas que continuam nos assombrando!
REFERÊNCIAS
Bechara, E. (2009). Moderna gramática portuguesa. 37ª ed. ampliada. Rio de Janeiro: Lucerna, p. 178.
Cunha, C.; Cintra, L. F. L. (2021). Nova gramática do português contemporâneo, Rio de Janeiro: Lexikon, p. 323.
Faraco, C. E.; Moura, F. M. Linguagem nova. São Paulo: Ática, 2008, v. 5, p. 222.
