A coerência reacionária de Eduardo Affonso
“Ai, que preguiça!”, diria Macunaíma, herói de nossa gente.
NORMA CULTACAMÕESCULTURAGRAMÁTICA NORMATIVAENSINO DE GRAMÁTICAGRAMÁTICALÍNGUA PORTUGUESAMACHADO DE ASSISGRAMÁTICA TRADICIONALPORTUGUÊS BRASILEIROLINGUÍSTICAPORTUGUÊS BRASILEIRO CULTOPURISMO LINGUÍSTICONORMA-PADRÃOCOLOCAÇÃO PRONOMINAL
Marcos Bagno
11/3/20267 min read


Não leio jornal, muito menos o seboso golpista O Globo, mas uma colega me enviou o texto de um colunista desse órgão necrosado da imprensa marrom, achando que podia me interessar porque falava de mim. Fui ler. “Ai, que preguiça!”, diria Macunaíma, herói de nossa gente.
A criatura se chama Eduardo Affonso, se apresenta como “ex-arquiteto seduzido pela psicanálise e pela etimologia” e diz que coordena “a Oficina Literária Eduardo Affonso”, com todas as maiúsculas necessárias. Modéstia passou longe, né? Ainda mais para alguém que informa não ter publicado nenhum livro[1]. Devia chamar seu apanha-moscas de “Officina” para combinar com o próprio nome e com o caráter antediluviano de suas ideias sobre língua.
Eu podia me apresentar como “ex-drag-queen, ex-locutor de rádio e ex-vendedor de bom-bocado”, mas, quando o assunto é língua, prefiro dizer (aliás, é minha obrigação profissional dizer) que sou Doutor em Língua Portuguesa pela Universidade de São Paulo e professor da Universidade de Brasília (há 25 anos), além de tradutor com mais de 120 traduções publicadas (do francês, do inglês, do espanhol e do italiano). Também posso mostrar meu Prêmio Jabuti e outros que ganhei como escritor. Quanto à etimologia, rogo aos orixás da Filologia que o wannabe literato não seja um dos alucinados que acreditam que “aluno” quer dizer “sem luz”. Ogum yê!
O bobo-alegre começa dizendo que a partir de agora vai “obedecer a ‘Gramática pedagógica do português brasileiro’ do Marcos Bagno” (griffo dele). Uma obra publicada em 2012, de modo que já podemos lamentar o atraso do foffo em se atualizar sobre o que se faz na linguística brasileira. Ele acha que é original por usar um tom irônico ao comentar variantes da língua que (supostamente) vai passar a usar. Tadinho! Tenho textos portugueses desde o século 18 que usam o mesmo discurso bocó e também proffetizavam a morte da língua portuguesa. Pois é, Eduardo Affonso escreve que “sim, a língua é viva. Mas, nesse ritmo, daqui a pouco estará respirando por aparelhos. E ainda teremos de lhe ensinar português”. (Eita, acabo de vomitar sobre o teclado...)
Nada mais velho, moffado, baloffo, caquético e decrépito do que isso. O anúncio da morte da língua se faz há trezentos anos, e ela nunca esteve mais viva, buliçosa e falada por cada vez mais gente[2]. Tipo assim:
· José Agostinho de Macedo (1761-1831): “Se não existissem livros compostos por frades, em que o tesouro está conservado, dentro em pouco podíamos dizer: ora morreu a língua portuguesa, e não descansa em paz”.
· Ramalho Ortigão (1836-1915): “Temos a prosa histérica, abastardada, exangue e desfalecida de uma raça moribunda. A nossa pobre geração de anémicos dá à história das letras um ciclo de tatibitates”.
· Afonso Lopes Vieira (1878-1946): “Pensando bem, não há já linguagem portuguesa. Quando uma linguagem se acha, como a nossa, atacada nas mais fundas raízes da sintaxe, desce à categoria dos dialetos”.
· Napoleão Mendes de Almeida ( ): “‘O Brasil é país de idioma sem gramática’ — será afirmação válida para daqui a algumas décadas. Até que esse dia chegue continuemos a fingir que falamos uma língua culta, sem influência de promiscuidades regionais nem tribais, artísticas nem raciais, sem a perniciosa interferência de professores relapsos nem de acadêmicos derrotistas, sem criações gráficas exóticas para designar produtos de indústria ou para indicar tribos de índios, sem deformações sintáticas introduzidas, sob o pretexto da cadência musical, por levianos ou ignorantes […]”.
· Marcos de Castro (1934-2018): “Começava a descida acelerada que iria comprometer o português do Brasil como língua de cultura. A um ponto tal que, neste fim de século, ou se toma uma providência imediata ou o português do Brasil estará irremediavelmente comprometido. Já no século 21 deixará de ser uma língua de cultura”.
O colunista globular nem de longe desconfia que acabou de dar sua colaboração para um tipo de discurso tão antigo que recebeu o nome de “tradição da queixa”, dado pelos linguistas britânicos James e Leslie Milroy, um discurso que ecoa há séculos em todas as culturas linguísticas da Europa e de outros lugares. Originalidade zero! Um dia vou juntar essas amostras de proffecias jamais cumpridas sob o título A língua que teima em ficar viva, apesar dos puristas que querem matá-la!
Nosso não-escritor ainda acredita que a fonte para os bons usos da língua são os escritores consagrados. Sabe nada, inocente! Mundo affora, a pedagogia de língua materna (e a produção cientificamente embasada de gramáticas e dicionários) já abandonou a inefficaz “imitação dos clássicos” como modelo do uso “correto” do idioma, mas nem vou me deter nisso aqui. Ele que vá ler a Gramática do português brasileiro escrito (2023), de Francisco Eduardo Vieira e Carlos Alberto Faraco. Ou, se tiver preguiça de ler mais de cem páginas, Para uma nova gramática do português (1985), de Mário A. Perini, um clássico de bolso.
O dono da Officina esbraveja contra variantes gramaticais consagradas há séculos na melhor literatura, mas não se peja de usar um anglicismo ridículo: "Sintam-se livres para preferir assistir o filme do que a novela: as regências não regem mais nada". "Sintam-se livres"? Pelo púbis de Afrodite! Que tal "fiquem à vontade", como sugerem "os clássicos"?
Eu duvide-ó-dó que Eduardo Affonso tenha lido as 1.056 páginas da minha gramática. Duvido, mas duvido mesmo, de pés juntos e mãos postas. Sinto no ar o cheiro daquele tipo de texto escrito por quem ouviu o galo cantar, achou que era um canário-belga e repetiu como um ganso rouco. Não dá para discutir seriamente com gente que, além de não ter nenhuma formação na área, quer fazer gracinha com o que ignora. Sim, não se offenda, é de ignorância que se trata. E, como de costume, ignorância recheada de arrogância.
Vou rebater aqui só algumas das palermices mencionadas em sua coluna. Algumas só, porque tenho menos o que fazer. E vou usar como argumentos nada menos do que a literatura consagrada, os gramáticos que ele mesmo cita e os dicionários de refferência.
1. Sobre a indistinção no uso de onde e aonde
· Gramática de Celso Cunha & Lindley Cintra: “Cumpre ressaltar que esta distinção, praticamente anulada na linguagem coloquial, já não era rigorosa nos clássicos”.
· Dicionário Aurélio: “O uso dos melhores autores [...] desde um Azurara, da fase arcaica da língua, até um José Régio ou um Miguel Torga, dos nossos dias, não distingue onde de aonde”.
· Dicionário Houaiss: “Os advérbios onde e aonde trocam-se na língua há séculos e não pode ser tal uso imputado como erro mesmo em linguagem formal”.
· Machado de Assis: “Mas aonde te vais agora, / Onde vais, esposo meu?". (Observa o Aurélio que a métrica não teria impedido Machado de usar aonde no segundo verso.)
· Vinícius de Moraes: “Onde vais, elefantinho, / correndo pelo caminho / assim tão desconsolado?”.
2. Uso de lhe como objeto direto
· Machado de Assis (numa crônica de ‘A Semana’): “Não lhe acusem de estrangeirismo”.
· Moacyr Scliar: “Não imaginava, porém, o dilema que o destino lhe reservava. Uma manhã notou que Susan parecia muito perturbada. Da cama, de onde agora não mais saía, interrogou-lhe a respeito”.
· Francisco de Moraes (séc. 17): “A duqueza que em extremo lhe amava e com todos estes aggravos o não podia tirar da vontade quiz ver se por manha o poderia haver á mão”.
Já em 1953, Antenor Nascentes, um dos nossos mais importantes filólogos, advertia para a normalidade total do uso de lhe como objeto direto.
3. Uso de meia como advérbio
Ficando só com Machado de Assis:
· “Cantavam eles uma trova, sempre a mesma, meia triste, meia escarninha”.
· “A moça se dirigiu à janela, onde esteve alguns momentos sozinha, meia voltada para fora e meia guardada pela sombra que ali fazia a cortina”.
· “Os olhos chisparam e trocaram a expressão usual por outra, meia doce e meia triste”.
· “O major mal podia conter o assombro. Tinha visto as duas mãos presas, a cabeça do Rubião meia inclinada”.
Ver também o que diz o Aurélio no verbete meio, citando inclusive Camões: “Alguns caem, meios mortos”.
4. Indistinção de este e esse
· Gramática de Evanildo Bechara: [os usos dos demonstrativos este e esse] “não se separam por linhas rigorosas de demarcação; por isso exemplos há de bons escritores que contrariam os princípios aqui examinados e não faltam mesmo certas orientações momentâneas do escritor que fogem às perscrutações do gramático”.
· Gramática de Cunha & Cintra: “Estas distinções que nos oferece o sistema ternário dos demonstrativos em português não são, porém, rigorosamente obedecidas na prática”.
· Gramática de Rocha Lima: “Não há, entretanto, muito rigor na distinção de isto e isso, em virtude da predominância dos seus valores estilísticos sobre os seus valores gramaticais”.
Reacionário na língua e na política, viva a coerência!
Tá bôua, santa? Quer mais? Pois vá estudar! Para quem não tem credencial nenhuma (afinal é “ex-arquiteto” e nunca publicou livro), muito menos nunca entrou na fila do pão da teoria e da pesquisa linguísticas, bastam os casos acima.
Confesso que nunca tinha ouvido falar de Eduardo Affonso. Como escreveu Drummond, “estou atrasadíssimo nos gregos”. Fui atrás para ver quem era. E descobri que publicou, no mesmo jornaleco, dia 3 de outubro passado, na véspera do primeiro turno das eleições presidenciais mais decisivas da nossa geração, uma coluna patética, idiota, lambe-botas da mídia americanófila e pseudoliberal intitulada “Amanhã”. Prepare seu estômago, cara leitora; tape o nariz, sensível leitor, antes de ler:
Amanhã é domingo, dia de fila de votação, em pé, de castigo. O castigo é bizarro: optar entre a bijuteria barata banhada a ouro (de tolo) e a estatueta de ouro (com pés de barro). É mais uma eleição que não faz jus ao nome: eleger é selecionar o melhor — e lá vamos nós, de novo, recolher na xepa o que parecer menos podre.
Coerência não se lhe pode negar. Trata da língua como trata de eleições, com verniz de muito culto, isentão, engraçadinho, mas com o reacionarismo evidente de quem nunca precisou — literalmente — recolher na xepa o que parecer menos podre. Pois eu até me sinto agraciado ao ser acusado de ensinar língua “errada” na minha gramática por um indivíduo que só pode causar asco, nojo, ojeriza e repugnância a quem tem um mínimo de sentimento antiffascista. Vade retro! T’esconjuro! Me erra! Vá a Mérida e jamais retorne!
[1] Disponível em: https://tianeysa.wordpress.com/about/. Acesso em 2 nov. 2026.
[2] Tem até um livro publicado em Portugal em 1983, chamado Estão a assassinar o português!, um primor de bolor-fedor com uma capa racista e sexista, em que aparece uma mulher negra de olhos vendados e mãos atadas, sendo perfurada por balas de metralhadora!
